domingo, 20 de abril de 2025

Fragmentos da Realidade social em 2025

 Um estudo publicado pela antropóloga Susana Narotzky da Universidade de Barcelona (UB) mostra que o capitalismo contemporâneo que opera na economia global está cada vez mais dependente de formas de trabalho precárias.

Este estudo, intitulado "Perturbações simultâneas: formas de subsistência, fragmentação das classes e trabalho social no século XXI", foi publicado na revista científica "Dialectical Anthropology".

A conclusão é que "a economia global assenta cada vez mais em formas de trabalho precárias, não reconhecidas e invisíveis, que fragmentam a classe trabalhadora e põem em causa as categorias tradicionais de trabalho e de classe".

Por outro lado, é noticiado neste Abril de 2025: 

"Já está quase tudo esgotado para as férias da Páscoa.

No site Sapo Viagens já se está a perguntar se já marcou as férias de verão. " Surpreenda amigos e familiares com estes destinos inesperados. Faça uma pausa, pelo menos este verão, de destinos como Algarve, Maiorca ou Formentera. Mostramos lugares, menos conhecidos, que provavelmente gostará de visitar."

No entanto, é conhecida a situação de agravamento das desigualdades, colocando-se as dificuldades dos pobres em contraste com este desafogo financeiro das classes média e alta. 

Quem trabalha nos locais de férias para onde vão os endinheirados? Obviamente, a esmagadora maioria são pobres trabalhadores!

E os endinheirados terão sensibilidade para atentarem na desigualdade que os separa de quem os serve?

"

Triste mundo em que vivemos!

domingo, 30 de março de 2025

Eleições legislativas 2025 - Vinte questões relevantes

 

- Há desinteresse, desencanto e descrença pelo atual modelo de sistema político, refletido no valor da abstenção, colocando em causa o seu caráter democrático, pelo que urge a sua alteração profunda, incluindo modificações à universalidade de voto em todas as eleições e com a criação de círculos eleitorais mais pequenos que permitam uma maior proximidade entre o eleitor e o eleito;

- Os partidos políticos devem deixar de ter o monopólio da representação parlamentar, alargando-a a entidades relevantes transversais à sociedade de nível local e nacional. A classe política, assim como os partidos políticos, devem ter um estatuto semelhante a todos os outros cidadãos e associações, sem privilégios próprios;

- Deve ser implementado o princípio da subsidiariedade em todo o processo de gestão política, sendo de rever a perda de soberania com a adesão a organismos internacionais;

- O sistema fiscal deve ser profundamente revisto (por exemplo, libertando a tributação sobre o trabalho com baixas remunerações e onerando a tributação sobre o consumo não essencial), devendo os serviços públicos essenciais ter isenção de IVA;

- É necessária total transparência na gestão pública, devendo ser publicados, sem reserva, todos os contratos, relatórios e outros atos em que o Estado seja parte ou responsável;

- A paz social (versus conflitos, e sentimentos de ódio e vingança) deve ser um valor preponderante e os valores dos direitos humanos da liberdade, igualdade, fraternidade, perdão e misericórdia devem ser iguais, universais, indivisíveis, interrelacionados e interdependentes, com o aprofundamento das questões de ética e cidadania nos currículos escolares e na sociedade em geral;

- Deve ser reforçada a componente humanista no sistema educativo, tornando as escolas num espaço fraterno e atrativas para toda a comunidade;

- É necessária uma política de fomento da produção nacional (vinho, fruta e outros produtos agrícolas, pesca, energias renováveis, ensino, turismo cultural, indústria (ex: cerâmica) e outras atividades de alto valor acrescentado) que permita uma economia sólida, amiga do ambiente e sustentável (A atual estrutura produtiva conduziu a valores em dívida de impostos e segurança social que ultrapassam os 30.000.000.000 de euros e a incentivos fiscais escandalosos);

- As exportações têm de assentar em produtos e serviços de alto valor acrescentado, substituindo a ilusão dos valores da Galp e da Auto-Europa que sendo as maiores exportadoras são também as maiores importadoras;

- A cessação de incentivos fiscais e subvenções a grandes grupos económicos tem de ser imediata, devendo ser proibida a cessão de créditos sem acordo das partes intervenientes nos contratos.

- O Estado deve ter presença ativa e reguladora em setores sensíveis da sociedade (banca, seguros, saúde, educação, cultura, energia, justiça, segurança, transportes e comunicações);

- O emprego deve ser estável e dignamente remunerado, acabando com a escravatura e a exploração (ex: precários, ubers, professores contratados, formadores, migrantes, operários, recurso a empresas de trabalho temporário, etc ...) e o salário mínimo nacional tem de se aproximar rapidamente da média da União Europeia;

- Tem de ser invertido o aumento significativo das desigualdades, da pobreza, exclusão social e pessoas sem abrigo, revendo o empenhamento social do Estado com programas concretos para a abolição de tais chagas sociais;

- Tem de ser revisto o modelo da gestão das delegações de competências do poder central e autárquico, nomeadamente nos apoios sociais, impedindo que se torne negócio;

- Deve ser fomentado, com urgência, o acesso à habitação, aumentando fortemente a oferta pública;

- Deve ser estudado o Rendimento Básico Incondicional;

- A justiça tem de ser humanizada (ex: visando a abolição das prisões), eliminando o seu pendor tecnocrático, priorizando a diminuição da conflituosidade, com a consequente diminuição das estruturas judiciais, policiais e prisionais e revisão profunda do código penal (tempo médio de cumprimento de pena, penas sucessivas e medidas de segurança), passando de um modelo de proibição, repressivo e punitivo, para um modelo preventivo e formativo, não privativo da liberdade, considerando como primordiais os pilares do perdão e da misericórdia. Deve ser tida em conta a equidade a par do direito, em todas as áreas da justiça;

- Deve ser implementado o direito à própria defesa consagrado no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, assim como a total aplicação da Convenção dos Direitos da Criança e todos os outros tratados e convenções de direitos humanos;

- A educação para a saúde deve ser um desígnio nacional, permitindo a automedicação, prevenindo, por exemplo, ações erradas como no enfrentamento da Covid19, incluindo a prevenção e tratamento de todas as dependências (ex: drogas, jogos, chamadas de valor acrescentado, etc...) com auxílio e informação, sem punição e com enquadramento legal de todas as substâncias e práticas que provocam dependências;

- É necessária uma cultura efetiva dos direitos humanos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Manuel Almeida dos Santos


 Há um ano publiquei esta reflexão no rescaldo das eleições legislativas. Estou convencido de que voltarei a ter a mesma constatação nas próximas eleições.

Povo português

Mais uma vez se está a ver a verdadeira identidade e o “dobrar a cerviz” da maioria do povo português: inculto, servil, dissimulado, medroso, vingativo e manhoso.

A reverência ao padre e ao regedor sempre foram a sua matriz.

50 anos depois do 25 de Abril de 1974 o povo português voltou a mostrar a sua identidade nestas últimas eleições.


domingo, 15 de dezembro de 2024

O que é a Democracia?

Democracia é a forma de vivência em sociedade baseada nos valores da liberdade, igualdade, fraternidade, perdão e misericórdia. 

A liberdade, igualdade e fraternidade estão patentes no artigo 1° da Declaração Universal dos Direitos Humanos (Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade) e nos pactos, tratados e convenções dela decorrentes, nomeadamente o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

O perdão e a misericórdia são dois dos pilares do cristianismo, patentes em parábolas e nas obras da misericórdia: (parábola da mulher adúltera - João 8-7: quem nunca errou que atire a primeira pedra), (parábola do servo impiedoso - Mateus 18-21, quantas vezes devemos perdoar? - 70x7)  (Obras de misericórdia corporais:1) Dar de comer a que tem fome; 2) Dar de beber a quem tem sede; 3) Dar pousada aos peregrinos; 4) Vestir os nus; 5) Visitar os enfermos; 6) Visitar os presos; 7) Enterrar os mortos. Obras de misericórdia espirituais: 1)Ensinar os ignorantes; 2) Dar bom conselho; 3) Corrigir os que erram; 4) Perdoar as injúrias; 5) Consolar os tristes; 6) Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; 7) Rezar a Deus por vivos e defuntos).

sábado, 16 de novembro de 2024

Intervenção no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. O Contributo da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos para a Revolução do 25 de Abril (CNSPP)

 Academia do V Império

Intervenção no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril

O Contributo da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos para a Revolução do 25 de Abril (CNSPP)

Em 25 de Abril de 1974 estava latente em vários setores da sociedade portuguesa um profundo mal-estar e desagrado pela situação política vivida em Portugal. Desde a guerra colonial, a censura aos órgãos de comunicação social, aos presos políticos e à repressão às forças que se manifestavam contra a situação, existiam graves entorses à vivência democrática já vigente em muitos países, o que levou ao nascimento de movimentos sociais que corporizaram esse mal-estar e desagrado, com expressão significativa em associações de estudantes (universidades de Coimbra, Lisboa e Porto), sindicatos (Bancários, Têxteis, Metalúrgicos e outros), setores da Igreja Católica (LOC, JOC e algum clero) e muitas outras organizações e pessoas. 

De entre esses movimentos assumiu particular relevância a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP), que foi fundada em 31 de dezembro de 1969 e manteve-se em atividade durante quatro anos, até à revolução de 25 de abril de 1974. A Comissão prestou apoio financeiro e jurídico às famílias dos presos políticos e publicava circulares informativas com notícias das prisões, julgamentos, penas e práticas de tortura. Tratou-se de uma organização supra-partidária, constituída por membros independentes de partidos políticos, incluindo padres católicos, e membros ligados a diferentes partidos de oposição à ditadura.

A Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, constituída inicialmente por 48 pessoas (Pe. Abílio Tavares Cardoso, Pe. Agostinho Jardim Gonçalves, Álvaro Ferreira Alves, António José da Silva Júnior, António José Dimas Almeida, António Rocha e Melo, Armando de Castro, Arménio dos Santos Ferreira, Pe. José Augusto Pereira Neto, Fr. Bento Domingues, Fr. Bernardo Domingues, Cecília Areosa Feio, Eduardo Nery, Fernando Abranches Ferrão, Fernando Lopes Graça, Fernando Soares David, Francisco Lino Neto, Henrique de Barros, Ilse Losa, José de Sousa Esteves, Pe. José Felicidade Alves, Luís Brás Teixeira, Luís Filipe Lindley Cintra, Pe. Luís Manuel Moita, Manuel de Castro Monteiro, Manuel Denis Jacinto, Manuel João da Palma Carlos, Manuel Machado Sá Marques, Manuel Rodrigues Lapa, Manuela Bernardino, Fr. Marcos Valentim Vilar, Maria do Carmo Tavares d’Orey, Maria Eugénia Varela Gomes, Maria Gabriela Figueiredo Ferreira, Maria Keil, Maria Lúcia Miranda dos Santos, Maria Manuela Antunes, Mário Brochado Coelho, Maria Cristina Araújo, Fr. Martinho Franco de Carvalho, Nuno Teotónio Pereira, Óscar Lopes, Raul Rego, Rogério Paulo, Rui Feijó, Sofia de Mello Breyner Andresen e Vasco Belmarço da Costa Santos), foi criada através de uma carta entregue na Presidência do Conselho de Ministros, aproveitando, habilidosamente,  uma brecha na legislação, no artº 199º do Código Civil. Neste artigo estava prevista a formação de comissões especiais, não sujeitas ao reconhecimento oficial, para ações de socorro ou beneficência. Os signatários consideravam que a existência de presos políticos era justamente uma situação de calamidade. Aos 49 membros fundadores juntaram-se mais outras personalidades oposicionistas.

A grande causa da Comissão foi o grave problema nacional dos presos políticos. Foram criados núcleos e comissões em diversos locais e distritos (Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Aveiro e Castelo Branco e outras localidades). Através das várias estruturas – nacional, distritais e locais – a CNSPP procurava sensibilizar as bases sociais e a opinião pública nacional e internacional, acerca da extensão da violência estatal que se praticava em Portugal.

A Comissão, fruto de processos de convergência social e política, era constituída por elementos ligados ao catolicismo, entre os quais nove padres católicos e um pastor protestante, por pessoas ligadas ao PCP, ao futuro Partido Socialista e às várias correntes políticas, assim como por personalidades sem vínculo partidário.

A Comissão publicou 23 circulares informativas, dando notícias das prisões, das práticas de tortura, dos julgamentos efetuados, das penas aplicadas, das condições prisionais que vigoravam nas diferentes cadeias, das ações de solidariedade, das reclamações feitas junto das autoridades, assim como das suas próprias atividades. Nestas incluía-se o apoio financeiro às famílias de presos políticos, a designação de advogados de defesa e outras iniciativas, como foi a realização de colónias de férias para filhos de presos políticos em 1972 e 1973.

Numa síntese da leitura das Circulares publicadas pela Comissão, diremos que informavam sobre as prisões efetuadas pela PIDE em Portugal e nas colónias ultramarinas, dando conta de torturas praticadas, dos julgamentos dos tribunais plenários e correspondentes condenações, das transferências de presos dumas cadeias para outras. Era prestada informação sobre as ações junto da Assembleia Nacional, com as propostas para a elaboração do Estatuto do Preso Político, como forma de efetivar direitos básicos. Também eram apresentadas em cada publicação as contas e critérios para apoio material às famílias dos presos. Este material informativo constou de dois livros editados pela CNSPP (Presos Políticos, Documentos 1970-1071 e Presos Políticos, Documentos 1972 -1974).

Tendo como móbil primordial auxiliar os presos políticos e suas famílias, nas etapas de alargamento da CNSPP foram emergindo formas associativas, iniciativas reivindicativas e formas de protesto constitutivas do movimento em marcha na sociedade portuguesa, com alcance inegável no plano político e repercussão na área social, sempre com a vigilância e repressão da ex-PIDE/DGS, já que a consagração jurídica da CNSPP não foi reconhecida pelo poder político.

Para o funcionamento e atividade da Comissão colocava-se a necessidade de garantir meios financeiros. A CNSPP recolhia fundos através da venda de selos da Comissão, impressos para aquele fim, com desenho próprio e posterior logotipo criado por Eduardo Nery. E como se pode verificar através dos documentos informativos da Comissão, recolhiam-se donativos e eram feitas subscrições, eram vendidos artigos oferecidos, gravuras, discos, livros, posters, emblemas, quadros, roupa. Também os núcleos da CNSPP em todo o País, e noutros países, reuniam donativos para o apoio aos presos políticos. Dos valores arrecadados pela CNSPP boa parte desses meios eram utilizados para apoiar os presos e as famílias com maiores dificuldades financeiras. A Circular era o órgão de comunicação da CNSPP. Aquela publicação era da «responsabilidade solidária dos membros» da Comissão e, em face da lei de imprensa em vigor à época, para que não estivesse sujeita a exame prévio pela censura do regime, foi decidido eliminar (como consta de Documento Interno da CNSPP) a numeração das “Circulares”, mantendo apenas a sua data.

A Comissão ainda teve intervenção relevante na mobilização de esforços para que a Junta de Salvação Nacional fosse forçada a libertar todos os presos políticos. Entre os dias 26 e 27 de abril de 1974 foram necessárias formas de luta, que contaram com a impaciência dos manifestantes nas imediações das prisões de Caxias e de Peniche. Foi então criada uma nova Comissão constituída por elementos da CNSPP e da CDE para a resolução daquele impasse na libertação. No dia 28 de abril de 1974 um Comunicado ao País, em nome da CNSPP, «saúda com emoção todos os ex-presos políticos, regozijando-se pelo seu regresso à liberdade». A CNSPP, naquele comunicado, apelou à abolição das medidas de segurança que ainda deixavam na prisão, sem julgamento, centenas de cidadãos, em campos de internamento no chamado “ultramar”, de que eram exemplos o Tarrafal, S. Nicolau e Machava.

A CNSPP foi agraciada, em 2010, pela Assembleia da República, com a atribuição da medalha de ouro de Direitos Humanos, tendo sido representada por dois dos seus membros, Frei Bento Domingues e Levy Baptista. 

O papel relevante da CNSPP no combate à ignomínia de privação da liberdade, por razões de consciência, constituiu um grande suporte para a revolução do 25 de Abril, em sintonia com os direitos humanos constantes dos Pactos, Convenções e Tratados universalmente consagrados. 

Porto (Palácio Balsemão), 16 de Novembro de 2024

Manuel Hipólito Almeida dos Santos 

sábado, 19 de outubro de 2024

Amnistia/Perdão de penas - Comunicado de Imprensa

 

Comunicado de Imprensa

Petição de Amnistia/Perdão de Penas no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril

A Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República comunicou-nos, hoje, que “(…) Estando concluída a intervenção desta Comissão, o relatório foi enviado ao Senhor Presidente da Assembleia da República, com pedido de agendamento da discussão da petição em Plenário, ao abrigo do disposto na alínea a) do n.º 1 do artigo 24.º da referida Lei. (…). Vai, portanto, ser debatida, proximamente, no plenário da Assembleia da República, a petição para aprovação de uma amnistia/perdão de penas no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, que teve como promotoras as associações O.V.A.R. – Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos e APAR – Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso.

Os fundamentos constam da petição, que se anexa, e que se sintetizam:

- Em 25 de Abril de 1974 havia menos de 3.000 reclusos nas prisões portuguesas, muitos dos quais foram libertados nos dias seguintes a essa data memorável;

- Em 1 de junho de 2024 Portugal tinha 12.301 pessoas presas a cumprir pena de privação de liberdade e cerca de 30.000 a cumprir penas e medidas na comunidade. Estes valores colocam Portugal num dos países com mais elevada taxa de presos por 100.000 habitantes (118 contra 73 na média da União Europeia);

- O tempo médio de cumprimento de pena é em Portugal de cerca de 31 meses contra 8 meses na União Europeia;

- Os processos nas áreas cível, administrativa, fiscal e criminal arrastam-se no tempo;

- As comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e o apelo do Papa Francisco para o Jubileu de 2025 devem ser tidos em conta, com ações concretas de clemência, de perdão e misericórdia;

- Pelo que deve ser aprovada uma amnistia/perdão de penas que coloque Portugal, pelo menos, na média da União Europeia, nas diferentes áreas do poder judicial.

Muitos dos problemas do sistema prisional seriam ultrapassados com uma diminuição significativa da população prisional. E tal só é possível com uma amnistia/perdão de penas, acompanhada de uma campanha de sensibilização contra a prática de atos anti-sociais.

Se tal não for feito continuaremos a gastar centenas de milhões de euros com prisões e com o pagamento de indemnizações a reclusos, criando o paradoxo de mandar pessoas para as prisões e pagar-lhes por isso. Temos de ter em conta que, com este modelo repressivo/punitivo, nos últimos 10 anos entraram nas prisões portuguesas cerca de 50.000 pessoas, muitas delas reincidentes, além das muitas dezenas de milhar de pessoas que cumpriram penas e medidas na comunidade. Isto num país de matriz católica que tem como pilares o perdão e a misericórdia.

Durante a audição parlamentar havida em 27.06.2024 nenhuma força política apresentou qualquer medida que coloque Portugal, pelo menos, na média da União Europeia de número de reclusos por habitante e de tempo médio de cumprimento de pena, assim como em acabar com a sobrelotação e as condições desumanas nos estabelecimentos prisionais, nem nos inúmeros aspetos que temos denunciado, apesar de dizerem ser inaceitável tal estado, agravado com os atrasos, excesso de prisão preventiva e pendências existentes no sistema judicial.

As denúncias da Provedoria de Justiça, do Comité para a Prevenção da Tortura do Conselho da Europa, do Conselho de Direitos Humanos da ONU e das múltiplas organizações nacionais e internacionais que têm condenado Portugal, parecem não estar a ser tidas em conta pelas autoridades políticas portuguesas. Parece que a classe política se quer manter conivente em sermos o país da União Europeia com maior tempo médio de cumprimento de pena e dos que tem maior número de reclusos por habitante. Parece que a classe política se quer manter conivente em continuar a pagar indemnizações aos reclusos por os manter presos em condições desumanas. Quem se sente confortável em votar com quem é conivente com tal situação?

Está petição tem de originar apresentações de projetos de lei, por parte das forças políticas que compõem a AR, que respondam aos objetivos da petição.

É com expectativa que estaremos presentes a assistir à discussão da petição no plenário da A.R.

 

17 de Outubro de 2024

O.V.A.R.-Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos/APAR-Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso

terça-feira, 24 de setembro de 2024

As Prisões Além do Sensacionalismo

 Uma definição para o sensacionalismo é a tendência para produzir grande impacto na sensibilidade dos outros através de notícias ou atitudes espetaculares ou chocantes (Infopédia). Tal aconteceu no episódio recente da fuga dos cinco reclusos da prisão de Vale de Judeus.

 No entanto, desde há muitos anos que temos vindo a denunciar os mais variados aspetos da situação prisional em Portugal, que vão além do sensacionalismo de fuga dos cinco reclusos, quer nos órgãos de comunicação social, quer nas audições parlamentares na Assembleia da República, quer, ainda, nas muitas reuniões com os Governos e a Presidência da República. Mas, apesar dessas denúncias, tudo continuou na mesma indigência, parecendo agora, com a fuga dos cinco reclusos, que houve um acordar coletivo para a situação nas prisões. Face ao passado, temo que este acordar dê lugar, muito rapidamente, à continuação da sonolência.     

 As prisões portuguesas são instituições cruéis, assustadoras, anacrónicas, medievais, medonhas, arcaicas, degradantes, ineficazes, violentas, desumanas e dispendiosas. Esta é a constatação a que chego com os muitos anos de voluntariado prisional, confirmada pelos relatórios de várias instâncias nacionais e internacionais (Comité contra a Tortura do Conselho da Europa, Mecanismo Nacional de Prevenção da Provedoria de Justiça, Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, etc…). Alguns órgãos de comunicação social afloram, a espaços, a questão prisional, com a colaboração de múltiplas entidades e aos quais temos enviado vários artigos e entrevistas. Por exemplo em Março do corrente ano, o 7MARGENS publicou um texto do podcast transmitido na Antena 1, com o título “O que nós temos são presos a mais”. Outros jornais, rádios e canais de TV vão passando reportagens sobre acontecimentos nas prisões. A SIC passou em 2020 uma série de reportagens, no programa “Mercado Negro”, em que ficou patente a podridão da vida no interior das prisões portuguesas, que voltaram a ser exibidas na segunda semana deste mês. Mas, desde há muitos anos, não se via tanta atenção como aquela que agora tem estado na ordem do dia com a fuga dos cinco reclusos.    

 A O.V.A.R. – Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos, tem tomado posições públicas, frequentemente, sobre aquilo que os seus voluntários encontram no interior das prisões (sobrelotação, alimentação deficiente, apoio para a reinserção social praticamente inexistente, consumo e tráfico de drogas no interior das prisões, violência entre reclusos e guardas prisionais, limitações nos contactos entre reclusos e suas famílias, arbitrariedade nas decisões dos conselhos técnicos para a concessão de saídas jurisdicionais, diferentes decisões dos Tribunais de Execução de Penas sem explicação política, deficientes condições sanitárias dentro das prisões, má prestação de cuidados de saúde e de educação, quase inexistência de apoio judiciário, opacidade na divulgação da atividade havida no interior das prisões com a suspensão dos relatórios individuais de cada estabelecimento prisional como se verificou até ao ano de 2010, não permissão da divulgação automática dos relatórios do Comité Contra a Tortura do Conselho da Europa, elevado tempo médio de cumprimento de pena que é cerca do triplo da média da União Europeia, utilização do trabalho dos reclusos configurando-o como “trabalho escravo” com ocultação pública dos protocolos com entidades privadas que utilizam mão de obra prisional (com eventual concorrência desleal com as entidades que têm pessoal próprio) e, mesmo assim, só uma parte dos reclusos é que tem ocupação diária, limitações à assistência espiritual e religiosa, etc, etc, etc…) . Documentos circunstanciados sobre tudo isto têm sido entregues a várias entidades, como, por exemplo, na audição parlamentar havida na Assembleia da República em 27 de junho último.      

 As prisões não têm sido prioridade para o poder político. Basta ler os programas de candidatura dos partidos políticos que concorrem às eleições legislativas, apesar de as prisões terem um peso superior a 300 milhões de euros no Orçamento Geral do Estado. Está pendente na Assembleia da República uma petição pública visando a aprovação de uma amnistia/perdão de penas no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e do pedido do Papa Francisco para o Jubileu2025, face ao estado atual das prisões portuguesas. Vamos estar atentos às declarações dos partidos políticos quando esta petição for discutida no plenário da Assembleia da República. 

 Há uma grande hipocrisia na abordagem da situação nas prisões. Todos declaram estar preocupados com os problemas existentes mas não vão além das declarações. A O.V.A.R. – Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos foi galardoada pela Assembleia da República com o prémio “Direitos Humanos 2018” pelo trabalho humanitário que desenvolvemos. Na cerimónia da atribuição do prémio tivemos ocasião de explanar o quão desumana era a situação nas prisões e temos vindo a repetir tais denúncias frequentemente. Atribuíram-nos o prémio mas não ligam ao que dizemos. Temos declarado que estamos solidários com o sofrimento das vítimas dos atos que levam à prisão dos perpetradores, insistindo na necessidade de uma forte dinâmica de prevenção da prática de atos anti-sociais, alguns dos quais tipificados como crimes, solucionando as causas de tais atos, o que levaria à diminuição da população prisional e, até, à desnecessidade de prisões (Há vários estudos defendendo o abolicionismo prisional). Os séculos XIX e XX foram tempos que levaram à abolição da escravatura e da pena de morte na maioria dos países do mundo, incluindo Portugal. O século XXI tem de ser o da criação de uma dinâmica da abolição das prisões. Num país de tradição cristã o perdão e a misericórdia têm de ter lugar presente nas prisões. 

 Face ao quadro da realidade prisional não é de admirar que os presos queiram fugir. E só não há mais tentativas de fuga, nos mais de 12.000 reclusos existentes nas prisões portuguesas, tal se deve ao caráter pacífico da maioria deles face à desumanidade em que são obrigados a viver.  Não podemos continuar a ter indicadores piores que a média dos países da União Europeia. Bastaria que o tempo médio de cumprimento de pena fosse igual à média da União Europeia para não precisarmos de mais guardas prisionais nem de mais prisões, com a consequente redução de despesa pública e diminuição da dotação do Orçamento Geral do Estado.

 Repescando o título da notícia do 7Margens de Março passado “O que nós temos são presos a mais”.

 Manuel Hipólito Almeida dos Santos

Presidente da O.V.A.R. – Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos – Sociedade de S. Vicente de Paulo – Conselho Central do Porto

 Porto, 15 de Setembro de 2024