quarta-feira, 30 de abril de 2025

Os Direitos Humanos em Retrocesso

 

Os Direitos Humanos em Retrocesso

No passado dia 29 de Abril a Amnistia Internacional divulgou o seu relatório anual 2024/2025, onde é feito o ponto de situação dos direitos humanos em todo o mundo. O panorama não é nada animador.

(https://www.amnistia.pt/relatorio-anual-2024-25-crise-global-dos-direitos-humanos-acelera-com-efeito-trump-2/).

A introdução ao relatório dá-nos logo uma ideia preocupante:

Relatório anual destaca o aumento das práticas autoritárias e a repressão cruel da dissidência em todo o mundo.

  • Os primeiros 100 dias do Presidente Trump intensificam as regressões globais e as tendências profundamente enraizadas de 2024.
  • As falhas globais na abordagem das desigualdades, o colapso climático e as transformações tecnológicas colocam em risco as gerações futuras.
  • A ascensão de práticas autoritárias e a aniquilação do direito internacional não são inevitáveis: as pessoas resistem e resistirão aos ataques aos direitos humanos; os governos podem fazer justiça internacional e devem continuar a fazê-lo. “

Na análise global são destacadas questões base:

“A investigação da Amnistia Internacional em 2024 destaca vários temas-chave que moldam as atuais tendências globais em matéria de direitos humanos: violações do direito internacional humanitário durante conflitos armados, repressão da dissidência, discriminação, injustiças económicas e climáticas e a utilização indevida da tecnologia para violar os direitos humanos. Apesar de alguns desenvolvimentos positivos limitados, muitas destas tendências representam retrocessos que correm o risco de ser exacerbados em 2025 e nos anos seguintes, à medida que os Estados, em especial os poderosos, continuam a minar o sistema internacional baseado em regras e as práticas autoritárias se espalham pelos diferentes continentes.

 

Os governos devem reformar o Conselho de Segurança das Nações Unidas de modo a que os membros permanentes não possam usar o seu poder de veto para bloquear ações destinadas a pôr termo e a reparar crimes de atrocidade. Devem também aumentar a ajuda humanitária aos civis necessitados.

Os governos devem apoiar o TPI, protegê-lo e ao seu pessoal de sanções e outras ameaças, e fazer cumprir os seus mandados. Devem também pôr termo a transferências irresponsáveis de armas.

Os governos devem deixar de utilizar ilegalmente armas letais e menos letais contra os manifestantes e redobrar os esforços para negociar e adotar um Tratado das Nações Unidas sobre o Comércio sem Tortura.

Os governos devem revogar as leis e pôr termo às práticas que violam os direitos à liberdade de expressão e de associação.

Os governos devem adotar políticas de migração que combatam eficazmente a desigualdade e a exclusão.

Os governos devem acabar com a discriminação racial incorporada nas leis e práticas, abordar a questão da justiça reparadora pela escravatura e pelo colonialismo e desafiar o legado destas injustiças históricas nas formas contemporâneas de racismo e desigualdade.

Os governos devem pôr termo à discriminação e à violência com base no género e revogar as leis repressivas e garantir o acesso a informações e serviços completos de saúde sexual e reprodutiva, incluindo o aborto seguro.

Todos os governos devem implementar uma eliminação rápida, justa e financiada dos combustíveis fósseis e deixar de subsidiar a indústria dos combustíveis fósseis. Os países com emissões históricas e outros países que estejam em posição de o fazer devem conceder subvenções para a adaptação às alterações climáticas nos países de rendimento mais baixo e mais prejudicados pelas alterações climáticas.

Os governos devem agir rapidamente para redigir, adotar e aplicar a convenção fiscal das Nações Unidas e, entretanto, tomar medidas para evitar abusos fiscais.

A UE deve rejeitar os esforços para enfraquecer as proteções em matéria de direitos humanos, ambiente e clima previstas na Diretiva relativa ao dever de diligência em matéria de sustentabilidade das empresas, e os outros blocos regionais devem seguir o exemplo com as suas próprias leis em matéria de dever de diligência.

Os governos devem proibir a vigilância ilegal e os instrumentos de vigilância ilegais e instituir salvaguardas sólidas para proteção contra os abusos e proporcionar reparação às vítimas.

Os governos devem fazer mais para regulamentar as tecnologias de IA e as empresas que as produzem, garantindo que os direitos humanos sejam parte integrante da conceção e da implantação de novas tecnologias.

Os governos devem regulamentar adequadamente as empresas de redes sociais para proteger os direitos humanos. As próprias empresas devem abandonar o seu modelo de negócio ilegal e baseado na vigilância.”

Relativamente à situação dos direitos humanos em Portugal, são destacados, no relatório, os maus tratos nas prisões portuguesas, o uso excessivo e desnecessário da força pela polícia, a violência doméstica, as limitações aos direitos sexuais e reprodutivos, a discriminação racial, o direito a um ambiente saudável e as limitações no direito à habitação.

Desde a sua criação em 1961, a Amnistia Internacional, que conta com mais de dez milhões de membros em todo o mundo, tem vindo a alertar a opinião pública para as violações de direitos humanos que infringem o direito internacional, ao cumprimento do qual os Estados estão obrigados.  Esta organização de direitos humanos é reconhecida pelo seu papel nesta área da cidadania (foi Prémio Nobel da Paz em 1977) e a sua isenção, independência e imparcialidade resulta das suas linhas gerais de ação mencionadas no relatório.

“A Amnistia Internacional é um movimento de dez milhões de pessoas que mobiliza a humanidade que existe em cada um de nós e faz campanha pela mudança, para que todos possamos usufruir dos nossos direitos humanos. A nossa visão é a de um mundo onde os que estão no poder cumpram as suas promessas, respeitam o direito internacional e são chamados a prestar contas. Somos independentes de qualquer governo, ideologia política, interesse económico ou religião e somos financiados principalmente pelos nossos membros e por donativos individuais. Acreditamos que atuando em solidariedade e compaixão com pessoas de todo o mundo podemos mudar a sociedade para melhor. A Amnistia Internacional é imparcial. Não tomamos posição sobre questões de soberania, disputas territoriais, acordos políticos ou jurídicos internacionais que possam ser adotados para implementar o direito à autodeterminação. Tendo em conta este facto e o nosso interesse em destacar a responsabilidade do Estado, organizamos a informação sobre os direitos humanos de acordo com a divisão dos Estados responsáveis pela situação no seu território.”

 

Infelizmente, a situação dos direitos humanos no mundo tem vindo a degradar-se, nomeadamente neste século XXI, e agrava-se de ano para ano. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Organização das Nações Unidas em 10 de Dezembro de 1948, começa a ser, cada vez mais, uma miragem.       

Temos a obrigação de não deixar que os ideais humanistas construídos, maioritariamente, na segunda metade do século passado, constantes dos múltiplos referenciais jurídicos internacionais (Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Convenção dos Direitos da Criança, Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, etc…), sejam esquecidos e atirados para o caixote do lixo da história. Levantemos bem alto este legado humanista que conduz à felicidade humana. Como exortou, muitas vezes, o Papa Francisco “Não Tenhais Medo!”  

Porto, 30 de Abril de 2025

Manuel Hipólito Almeida dos Santos

Ex-presidente da Amnistia Internacional Portugal

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Experiência Hospitalar


O relato que se segue refere-se a uma situação por mim vivida, diferente de tudo que tinha experienciado nos contactos hospitalares até então havidos. Como nota prévia, quero salientar a opinião positiva sobre a forma como fui atendido e acompanhado por todas as pessoas que estiveram comigo nesta minha experiência hospitalar (médicos, enfermeiros e assistentes operacionais). Já tal não se poderá dizer do funcionamento de algumas condições estruturais do sistema de saúde, como se poderá ver. Logo no início da minha estadia no hospital, após o regresso da unidade de cirurgia cardiotorácica para o serviço de urgência, dei-me conta de situações que não me pareceram bem, sentindo que as deveria anotar para construir um histórico dessa minha passagem pelo hospital. Neste sentido, pedi à médica cardiologista, Dra. Adelaide Dias, duas folhas de papel em branco, tendo a médica dito “Já me pediram muitas coisas neste serviço de urgência mas é a 1ª vez que me pedem folhas de papel para escrever. Vou já buscá-las”. E passei, desde logo a tomar notas.

Vamos, então, à história (apesar de conhecer a identidade de muitas das pessoas com quem contactei, não mencionarei o nome da maioria por não ver conveniência para tal). Faltava pouco para as nove horas da manhã do dia 12 de Janeiro de 2017, estando ainda na cama, quando senti uma dor na parte superior esquerda do peito, junto ao ombro, que se deslocou gradualmente para a zona do coração. Suspeitei de estar perante um enfarte de miocárdio e  coloquei imediatamente, debaixo da língua, um comprimido de Flindix que me tinha sido indicado, alguns anos atrás, para este tipo de situação. Como a dor não se atenuava, coloquei outro comprimido mas sem qualquer efeito. Tomei a decisão de telefonar para o 112 a comunicar o meu estado, tendo a chamada demorado menos de um minuto a ser atendida. Após comunicar os sintomas foi-me recomendado que não fizesse qualquer tipo de esforço e aguardasse, sentado, a chegada da ambulância. Passados menos de dez minutos tinha a ambulância à porta de casa que, de imediato, me conduziram ao hospital de V.N.Gaia aonde cheguei cerca das 9h30. Menos de um minuto após a chegada estava na triagem, que, após o relato dos sintomas, comunicou com a cardiologista de turno no serviço de urgência (Dra. Adelaide Dias) informando-a do meu caso, dando indicação a uma auxiliar para me levar à sala onde se encontrava a médica, tendo, esta, procedido, de imediato, à feitura de um eletrocardiograma. Ainda o eletrocardiograma estava a decorrer e já a médica estava a telefonar para a unidade de cirurgia cardiotorácica informando que eu iria para lá ser encaminhado. Foi-me pedida a minha autorização para ser sujeito a um cateterismo, a uma angiografia e a outros  atos médicos que se revelassem necessários, após o que entrei na sala da unidade de cirurgia (poucos minutos após), onde já se encontrava uma equipa de médicos e enfermeiros que, de forma sincronizada, me foram despindo e colocando os instrumentos necessários ao cateterismo, mantendo comigo uma conversa descontraída informando-me do procedimento que iria ocorrer e que, se eu quisesse, poderia visualizar no monitor o decorrer do ato clínico, desde a entrada do cateter até aos atos subsequentes. Foi detetado um trombo numa das artérias coronárias, no ventrículo esquerdo, tendo-se procedido à sua desobstrução, após o que deixei de sentir a dor que até então se localizava no coração. Os médicos aproveitaram a oportunidade para visualizar o estado de outras artérias coronárias, informando-me da necessidade de colocação de um stent numa delas, que se encontrava em mau estado, tendo decidido efetuar tal ato posteriormente. Estive consciente durante todo o processo, seguindo o procedimento executado.  O cateter foi introduzido pelo pulso.

Terminado o ato cirúrgico, a cardiologista, Dra. Adelaide Dias, retomou o contacto comigo, informando-me que iria estar um dia monitorizado, seguindo-se dois dias em observações, após o que iriam atuar sobre a artéria em mau estado. Manifestei o meu querer de sair após o 1º dia, voltando ao hospital, em ambulatório, para outros atos necessários, mas a médica disse-me que isso se veria após o 1º dia. A questão que se colocou naquele momento foi encontrar uma cama no serviço de observações para me colocarem, já que não havia vagas naquele serviço nem noutro serviço adequado. Voltei para a sala do serviço de urgência, assistindo às diligências da médica de procura dum lugar para onde me enviar. Passados alguns minutos, a médica informou-me que iria ter de permanecer na sala de cuidados do serviço de urgência, pois não tinha encontrado cama vaga nesse hospital, nem no hospital de Santo António para onde poderia ser transferido.

Eram cerca das 11h30 quando reentrei nos serviços de urgência e colocado numa maca dentro da sala onde estavam a decorrer os atos de tratamento urgentes aos doentes que iam entrando. Os serviços de urgência estavam sobre congestionados, assim como as salas de observações e de cardiologia. Todo o pessoal clínico estava em sobrecarga, parecendo terem em conta as prioridades, observando-se uma certa disciplina de trabalho. A macas estavam praticamente encostadas, umas às outras, tendo os médicos e as enfermeiras de as empurrarem para se poderem deslocar na prestação de cuidados aos doentes, tendo eu assistido a essa prestação de cuidados ao longo do dia.

Após a saída da unidade de cirurgia, foi colocada aos pés da minha maca o saco com as minhas roupas e pertences, mas eu não me podia movimentar para a eles ter acesso, pelo que pedi à médica que me permitisse utilizar o seu telefone para contactar a minha mulher, ao que ela acedeu (Foi nesta altura que lhe pedi as folhas de papel referidas no início deste relato).  Passado algum tempo, a médica veio dizer-me que uma sua colega, minha vizinha (Dra. Dulce), tinha indagado da minha situação, colocando-se ao meu dispor.

Durante a minha estadia no interior da sala operacional do serviço de urgência, enquanto aguardava vaga para onde me enviassem, observei casos dos mais díspares. Doentes a berrar e a gemer durante largos períodos de tempo, casos leves e outros de gravidade extrema, entrada sucessiva de novos doentes, mudanças de turno sem que os doentes ficassem desamparados, auxiliares em trabalhos de limpeza frequentes, atos médicos dos mais variados, etc… . Uma das doentes que ficou com a maca dela junto da minha, uma senhora idosa (96 anos) em estado bastante debilitado a quem os médicos que dela se ocuparam concluíram nada mais haver a fazer, estando eu a ouvir as suas trocas de impressões, tendo permitido que uma sua filha entrasse na sala para acompanhar os momentos finais da mãe, cuja consciência se foi apagando lentamente. Fomos falando um com o outro, enquanto ela cobria a mãe, durante as últimas duas horas de vida, de carícias e beijos. Foi emocionante este acompanhamento no final de vida de uma pessoa deitada na cama ao lado. Recordei-me, nesta altura, duma entrevista que tinha lido, tempos atrás, dum ex-presidente do conselho de administração deste hospital (Dr. Castanheira Nunes), nomeadamente quando o jornalista lhe perguntou, depois de serem enumerados os muitos problemas do hospital, qual seria o mais importante a relevar e o Dr. Castanheira Nunes respondeu: “Humanizar, humanizar, humanizar!”.

À meia-noite fui transferido para o Serviço de Observações. Durante as mais de 12 horas em que estive de novo no serviço de urgência, depois de sair da unidade de cirurgia cardiotorácica, apenas foi-me dado, a meu pedido, uma garrafa de 33 cl de água (marca Spring, com um ph de 5,8+-0,4. A passagem do serviço de urgência para observações foi como a passagem do inferno para o céu, em termos de instalações e sossego. Fiquei na cama 6, sendo vigiado frequentemente, pouco tendo dormido durante a noite, pelo que me apercebi do que se passava. Ouvi conversas das mais variadas, incluindo relatos sobre bens de doentes que desaparecem. Constatei os enormes consumos em seringas, gazes, pensos, adesivos, luvas, etc…, cujos custos devem ser elevadíssimos. Uma enfermeira referiu-me que há seringas usadas em cardiologia que chegam a custar mais de mil euros por unidade.  Ouvi, também, a doente que estava na cama a meu lado dizer a uma assistente operacional, em choro sentido e quase silencioso:” Peço tanto a Deus que me cure. Tenho uma filhinha de dois anos para criar”. Respondeu-lhe a assistente operacional: “Deus é grande e nunca nos abandona”.  

Pelas dez horas, desse dia 13, fui fazer um RX ao tórax, e já pude receber, durante meia hora, a visita da minha mulher, assim como recebi a visita de duas médicas amigas (Dra. Dulce, que é minha vizinha, e a Dra. Cristina Pinto, minha amiga de há dezenas de anos).

Às 18h30 fui transferido para a Unidade de Cuidados Intermédios de Cardiologia (cama 12 – Proc. 14318379). As condições são ainda melhores do que em observações. Foi-me feito o despiste de bactéria ultrarresistente com recolha de amostras das narinas e do ânus. Fui, ainda, informado que, logo que as condições o permitissem, iria voltar à unidade de cirurgia cardiotorácica para a colocação do stent na artéria que se encontrava em mau estado, pelo que iria continuar internado.  Passei a poder deslocar-me sem estar preso a monitores, tendo-me sido colocado um monitor de bolso, e já pude receber visitas com restrições, mas pedi para não informarem outras pessoas além dos familiares mais próximos, já que não queria incomodá-los. Não consegui impedir que a informação se espalhasse e tive a tentativa de visita de vários amigos mas as restrições de visitas não o permitiram, tendo que o contacto tivesse de ser telefónico.

A partir da noite deste dia passei a poder fazer refeições nos horários habituais. O jantar foi sopa de legumes e febra grelhada com batatas cozidas e legumes, além de uma peça de fruta.

No dia seguinte, dia 14, fui abordado pela técnica de reabilitação (Dra. Ana Vermelho) para iniciar um programa de exercícios físicos. Durante o dia, tive ocasião de constatar a rotina de funcionamento do serviço ficando com uma impressão geral de eficiência e competência tecnocrática, com as diferenças naturais das pessoas em afetividade e alegria. Há uma rotina sistematizada, havendo dificuldade de acorrer a situações fora do protocolo estabelecido. Os médicos, enfermeiros e assistentes operacionais são completamente absorvidos pelas rotinas programadas, quase não tendo tempo de folga. O almoço consistiu em sopa de legumes (igual em todas as refeições) e carne assada com arroz, além de uma peça de fruta ou pudim/gelatina (esta sobremesa repetiu-se nos restantes dias). Ao jantar foi servido abrótea estufada com batatas e legumes. Ao lanche (também igual todos os dias) era disponibilizado chá, cevada ou café com leite, acompanhado de pão com manteiga/marmelada ou bolachas. Neste dia fui visitado pelo amigo Dr. José Carlos Lawrence, médico no Hospital de Santo António.

Na noite deste dia, cerca das 21 horas, ocorreram dois episódios quase simultâneos de doentes, no quarto ao lado do meu, que precisaram de serem reanimados com massagens cardíacas, respiração assistida e técnicas de sustentação vital. As enfermeiras de turno e as assistentes operacionais entraram quase em pânico, com correrias, vozes exaltadas, gestos incontrolados, mostrando alguma impreparação para estas situações. Um dos doentes (uma mulher) teve de ser recolhida no meu quarto durante mais de três horas, até a normalidade do seu quarto ter sido restabelecida (esta doente tinha tido um enfarte de miocárdio, semelhante ao meu, quando se encontrava a dormir na casa do namorado, estando os seus dois filhos adolescentes na casa dela, pelo que estava com problemas de consciência).  O outro doente ficou inconsciente e foi submetido a exames complementares de diagnóstico. A situação só se normalizou cerca da uma hora da manhã do dia seguinte.

Iniciei a manhã dia 15, com as novas rotinas diárias; banho (duche) e medicação em jejum a que se seguiu o pequeno almoço (cevada e pão simples). Foi repetida a recolha de amostras de fluidos para despiste da bactéria multirresistente. Passei a tomar medicação para a tensão arterial, colesterol e fluidificação da circulação sanguínea. Entrei em dieta hipolipídica (pobre em gorduras).  Na visita desse dia a minha mulher levou-me o computador e um pequeno rádio portátil, o que passou a permitir uma melhor ocupação do tempo, apesar de haver acessos à internet que estavam bloqueados (ex. JN e RTP). Durante o dia alargou-se a conversa com os dois restantes ocupantes do quarto (um homem e uma mulher), tendo esta unidade de cuidados intermédios de cardiologia uma lotação de 12 ocupantes distribuídos por três quartos. A faixa etária dos doentes compreendia dez doentes com idades compreendidas entre os 65 e os 95 anos (só duas mulheres tinham entre 30 e 50 anos). Todas as camas estiveram sempre ocupadas durante o tempo do meu internamento. A partir deste dia passei a socorrer, várias vezes, a doente da cama em frente da minha (uma funcionária da RTP – D. Nazaré) cuja patologia atrofiava os movimentos e afetava a laringe, quase a impedindo de falar (para se perceber alguma coisa tinha-se de lhe pressionar a garganta). Ela chamava a atenção com gemidos, queixando-se de dores e incómodo por estar sempre na mesma posição. A doente não mexia os braços nem as pernas, pelo que não tinha possibilidade de tocar a campainha de alerta. No início eu chamava a equipa de enfermagem mas, muitas vezes, tal não tinha efeito rápido (os enfermeiros diziam “já lá vou” mas nem sempre tal acontecia, pois o conjunto de tarefas do protocolo a que estavam adstritos absorvia-os quase completamente). Eu tentava sossegar a doente movimentando-lhe, levemente, os braços, as pernas e a cabeça, o que permitia suspender os gemidos durante algum tempo.  O almoço do dia foi abrótea cozida com batatas e legumes e o jantar consistiu em nacos de frango com esparguete e couve de bruxelas.

Ao início da manhã do dia 16 fui informado que iria ficar em jejum até fazer uma angioplastia durante a manhã. Mais tarde informaram-me que tal procedimento foi adiado para a tarde pelo que iria poder almoçar. Manifestei o meu desapontamento pois tal iria atrasar a minha alta. Nessa manhã visitou-me um amigo cardiologista, Dr. Ricardo Lopes (GOL), que corroborou a informação de que iria ser feita a “reparação” da outra artéria durante a tarde e que deveria ter alta no dia 18. Voltei aos exercícios físicos com a técnica de recuperação, fazendo uma pequena caminhada pelo interior do hospital, ao mesmo tempo que tagarelávamos sobre as insuficiências  hospitalares e dos problemas do seu filho na escola. Também conversei com uma assistente operacional sobre as suas funções, tendo-me confidenciado que o trabalho tem aumentado por saída de colegas sem serem substituídas, só não mudando de emprego por dificuldade de o encontrar (auferia o salário mínimo nacional em contrato individual de trabalho com o hospital), mas mantem-se na ausência de alternativa, havendo muitas pessoas desempregadas desejosas do seu lugar.

A médica de turno informou-me, na visita diária de rotina, que não eram esperadas sequelas graves no meu caso, mas só após a realização de um ecocardiograma é que se poderia ter uma opinião fundamentada.

Como até ao final da tarde não fui chamado para a realização da angioplastia, protestei junto dos enfermeiros, tendo estes chamado a médica de serviço (Dra. Domingas). Esta informou-me que eu seria o primeiro doente da manhã do dia seguinte a ser chamado. Pedi o livro de reclamações e a consulta do meu processo clínico, tendo a médica dito que iria diligenciar nesse sentido. Até ao final da noite nada me foi facultado.

O almoço do dia foi bifes de peru com arroz branco e feijão verde, consistindo o jantar em pescada cozida com batatas e bróculos.

Pelas oito horas do dia 18 foi-me efetuado um ecocardiograma, que durou até às nove horas. Foi-me dito para continuar em jejum pois ainda iria fazer a angioplastia. Fui visitado por uma médica (Dra. Ana Isabel Mosalina) que procedeu a um inquérito geral sobre a minha saúde, informando-me do procedimento que se iria seguir e dos seus objetivos, pedindo-me para assinar a declaração de autorização da angioplastia. Admitiu que este ato médico poderia ser feito através de consulta externa, mas como eu já estava no hospital aproveita-se a oportunidade para completar o trabalho. O tempo foi passando e eu não era chamado, pelo que, cerca das 15 horas, pedi para falar com a médica, o que veio a acontecer cerca das 16h30. Foi-me dito que se a angioplastia não ocorresse até final do dia, eu teria alta e voltaria ao hospital em data a marcar. Cerca das 18h30 entrei na unidade de cirurgia cardiotorácica. Estive uma hora e meia em intervenção, tendo-se confirmado que a artéria que tinha estado bloqueada se encontrava em bom estado, procedendo-se à reparação de outra artéria coronária com a aplicação, na zona danificada, de um stent (rede cilíndrica metálica que alarga e reforça o diâmetro da artéria), já que a espessura da artéria se encontrava reduzida a pouco mais que um cabelo. O acesso do cateter foi pela virilha. 

Voltei para o quarto às 20h30, jantando bife de atum com arroz e salada (não almocei pois tinha de estar em jejum para a angioplastia). Tive de me manter imóvel até à manhã do dia seguinte (só podia movimentar a cabeça). Não dormi durante a noite, pois o desconforto da imobilização era quase insuportável. Tentava manter-se distraído ouvindo música no pequeno rádio portátil que tinha pedido para me comprarem, bebendo goles de água e mexendo a cabeça de um lado para outro.

Às 07h30 de dia seguinte (18/01) retiraram-me o cinto de imobilização do penso, preenchido com blocos de gelo, após o que senti um grande alívio por poder mexer o corpo, apesar de me sentir todo partido. Tomei um duche e o pequeno almoço, após o que adormeci tranquilamente.

Às dez horas fui visitado pela médica (Dra. Ana Isabel) que me informou dos aspetos técnicos da angioplastia havida e das implicações futuras. Pedi-lhe para ter alta imediatamente mas ela disse-me que, por precaução e segurança, seria melhor só sair no dia seguinte, indo-me ser fornecidas as recomendações e medicação que teria de passar a observar. Voltei a ser visitado pelo amigo Dr. Ricardo Lopes que me deu informações na linha das que me tinha dado a Dra. Ana Isabel.

Pelas 11h30 foram-me retirados os restantes pensos, ficando só o cateter da mão e o penso da virilha que se encontrava em bom estado.

O almoço do dia foi massa com duas fatias de carne e legumes, sendo o jantar red fish estufado com batatas e legumes.

No dia seguinte (19/01) tomei um duche logo ao início da manhã e efetuei as análises e exercícios do costume. O médico de turno (Dr. Pedro Gonçalves) esteve comigo, fez alguns exames (ECG, auscultação, tensão arterial, etc…), entregou-me a medicação que passaria a seguir, recomendou-me os procedimentos que deveria adotar e deu-me alta.

A D. Nazaré quando viu isto chamou-me e disse: “Vai fazer-me muita falta!”. Fiz-lhe uma carícia e despedi-me dos restantes doentes e equipa médica e de enfermagem, agradecendo as atenções que me dispensaram.

Dois meses após, na época da Páscoa, dirigi-me, novamente, ao serviço de cardiologia do hospital, entregando à Dra. Adelaide Dias (médica que me atendeu no serviço de urgência) uma caixa de porcelana com amêndoas, pedindo que as partilhasse com os restantes membros da equipa, como sinal da minha gratidão.

Fiquei com a convicção, alicerçada naquilo em que tive contacto direto, de que  o SNS tinha entrado em ruptura (instalações e recursos humanos), não tendo capacidade de resposta para situações já consideradas de rotina. 

domingo, 20 de abril de 2025

Fragmentos da Realidade social em 2025

 Um estudo publicado pela antropóloga Susana Narotzky da Universidade de Barcelona (UB) mostra que o capitalismo contemporâneo que opera na economia global está cada vez mais dependente de formas de trabalho precárias.

Este estudo, intitulado "Perturbações simultâneas: formas de subsistência, fragmentação das classes e trabalho social no século XXI", foi publicado na revista científica "Dialectical Anthropology".

A conclusão é que "a economia global assenta cada vez mais em formas de trabalho precárias, não reconhecidas e invisíveis, que fragmentam a classe trabalhadora e põem em causa as categorias tradicionais de trabalho e de classe".

Por outro lado, é noticiado neste Abril de 2025: 

"Já está quase tudo esgotado para as férias da Páscoa.

No site Sapo Viagens já se está a perguntar se já marcou as férias de verão. " Surpreenda amigos e familiares com estes destinos inesperados. Faça uma pausa, pelo menos este verão, de destinos como Algarve, Maiorca ou Formentera. Mostramos lugares, menos conhecidos, que provavelmente gostará de visitar."

No entanto, é conhecida a situação de agravamento das desigualdades, colocando-se as dificuldades dos pobres em contraste com este desafogo financeiro das classes média e alta. 

Quem trabalha nos locais de férias para onde vão os endinheirados? Obviamente, a esmagadora maioria são pobres trabalhadores!

E os endinheirados terão sensibilidade para atentarem na desigualdade que os separa de quem os serve?

"

Triste mundo em que vivemos!