segunda-feira, 13 de novembro de 2023

“Sociedade, Justiça e Prisões em Democracia”

 

Observatório Permanente da Justiça

Ciclo de Encontros 

“Sociedade, Justiça e Prisões em Democracia””  08.11.2023


(Para ver os quadros completos clicar sobre o quadro)

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1- A Obra Vicentina de Auxílio os Reclusos - O.V.A.R.,  é uma obra especial ligada ao Conselho Central do Porto da Sociedade S. Vicente de Paulo, vocacionada para as visitas e coordenação do apoio aos reclusos e suas famílias, com atividade no interior das prisões

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 A ação da O.V.A.R. é justificada pelo facto de ser reconhecida aos reclusos a necessidade de contacto com pessoas que os apoiem na sua vida pessoal e familiar e que lhes deem coragem e esperança para a integração na sociedade, libertando-os do estigma da prisão.                           .
                                 
A Assembleia da República distinguiu a O.V.A.R. com o prémio "Direitos Humanos” em 2018, pelo trabalho humanitário nos seus mais de 50 anos de voluntariado prisional.

 

2- A exposição e comentários que irei apresentar ligam-se aos poderes legislativo, executivo e judicial.

Tenho conhecimento do Plano Plurianual de Investimentos na Área da Justiça 2023-2027 e assisti à discussão, anteontem havida, do OGE 2024 na Assembleia da República, com intervenções da Ministra da Justiça e dos Secretários de Estado.

Cada prisão é uma realidade própria e distinta. Em cada prisão encontramos singularidades diversas. 

 

3 – População prisional em Portugal

•      Em 31/12/1972  havia  3.405   reclusos em Portugal

•      Em 31/12/1974    “      2.132        “         “          “            

•      Em 31/12/1984    “      7.993        “         “          “

•      Em 31/12/1994    “    10.035        “         “          “

•      Em 31/12/2004    “    13.152        “         “          “

•      Em 31/12/2014    “    14.003        “         “          “

•      Em 01/11/2023    “    12.301        “         “          “  (Covid19, JMJ23 e Lei de saúde mental, reduziram, recentemente, a população prisional em cerca de 2.500 reclusos)

•      Acresce cerca de 30.000 em cumprimento de penas e medidas na comunidade

      .      Lotação máxima das 49 prisões – 12.663 reclusos

3 - Penas e medidas na comunidade por tipo de medida em Agosto 2022 –Total de pessoas - 29.668

 

 

4 - Penas e medidas na comunidade por tipo de crimes em 2021 –Total de pessoas – 30821

 

 

 

5 - DGRSP – Recursos humanos planeados para 2023



 

6 – Orçamento Geral do Estado para o Sistema Prisional



 

7 – Exemplo do Volume II do relatório de atividades da DGRSP, que deixou de ser publicado a partir de 2011, o que impede de conhecer a realidade, em pormenor, existente em cada estabelecimento prisional( excerto)




 

8 – Situação prisional no mundo

- Em finais de 2021 havia mais de 10,7 milhões de pessoas presas em todo o mundo.

- Nos últimos 20 anos a população prisional no mundo cresceu cerca de 25%.

- Se diminuirmos o nº de reclusos deixará de ser tão premente o reforço de recursos humanos.

9 - Índice de reclusos nalguns países do mundo por 100.000 habitantes em 2021

•      Estados Unidos da América ………….…….…………………. 630

•      Brasil …………………………………………………………….. 380

•      Rússia ………………………………………….……….………... 360

•      Africa do Sul…………………………………………………….  250

•      Portugal …………………………………………………………  120

•      China ………………………………………..………………..,,,.   120

•      Japão ….……………………………………..…………………..    40

•      India ……………………………………………….…………. ..     30

•      Média da Europa Ocidental …………………………………...   70

 

10 –Relatório da Provedoria de Justiça 2022 - Mecanismo Nacional de Prevenção

 

            O MNP tem apontado anualmente (pág. 33 de 133 páginas):

     (i)        -    a desatualização de grande parte do edificado, a sua diversidade e assimetria,

  (ii)          -  as frequentes situações de sobrelotação e  ocupação excessiva dos alojamentos,

(iii)       -  as carências de recursos humanos e de meios materiais, que prejudicam, em várias dimensões, as condições da vida em reclusão.

 

  Em face do exposto, o MNP reitera a necessidade de se adotarem medidas para fazer cessar:

•      o reiterado incumprimento pelo Estado Português das condições mínimas para um alojamento digno de pessoas reclusas, que se manifesta:

•      (i) na sobrelotação de mais de metade dos EP,

•       (ii) no caracter coletivo da maioria dos alojamentos e

•      (iii) nas reduzidas áreas de alojamento por recluso, inferiores as orientações internacionais do CPT e do TEDH.

•      A este respeito, o MNP relembra e acompanha o apelo do SPT  (Subcomité para a Prevenção da tortura da ONU) ao Governo Português, no sentido de ser ampliado o uso de medidas alternativas à detenção.

•      A par da falta de oportunidades laborais, o MNP constatou, com apreensão, que a remuneração auferida pelos reclusos se mantem significativamente inferior ao standard praticado no exterior, existindo também uma grande disparidade entre o vencimento dos reclusos, consoante o trabalho seja prestado para o próprio EP ou para uma entidade externa.

•       O MNP ouviu várias queixas quanto a ausência de um rendimento digno, facto que impossibilita aos reclusos o aforro de quantias para a própria subsistência no regresso a liberdade. Exemplo disto e o EP de Tires, onde o MNP recebeu relatos de reclusas que auferem aproximadamente 70 euros mensais, apesar de prestarem seis horas diárias de trabalho para uma empresa externa.

 

11 – Condições nas Prisões

- Estimo que em Portugal cerca de 60% dos crimes praticados pelos homens e  80% dos praticados pelas mulheres estão ligados à droga, cujo tráfico continua dentro das prisões.

- Grande parte dos reclusos são toxicodependentes e consome drogas na prisão.

A Taxa de suicídios nas prisões é das mais elevadas da Europa . Em apenas três dias dois reclusos perderam a vida por suicídio no Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, no concelho de Azambuja. O primeiro foi Paulo Anjos, de 34 anos, que pôs termo à própria vida a 7 de Outubro e o segundo caso, ocorrido a 10 de Outubro, envolveu um homem estrangeiro, de 42 anos. Num outro estabelecimento prisional, na Izeda, um outro recluso suicidou-se no primeiro fim-de-semana de Outubro. O cenário negro levou a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) a alertar para as “péssimas condições de vida dentro das cadeias” que “levam a que o número de suicídios seja dos mais elevados na Europa, para vergonha de todos”.

 - Há uma grande opacidade sobre a vida no interior das prisões (ex: relatórios anuais de cada EP tal como foi feito até 2010). O Estabelecimento Prisional de Monsanto, por ex:, tem sido objeto de queixas frequentes.

 

 

12 – O Trabalho nas Prisões 

O trabalho nas prisões é pago, na generalidade,  a menos de €1,00/ hora

A maioria dos reclusos não têm trabalho regular e a maioria dos que trabalham só o fazem poucas horas por dia.

Não se conhecem os protocolos com as entidades que utilizam trabalho dos reclusos.

 

13 – Aspetos da Situação em Portugal

 - O tempo médio de cumprimento de pena dos reclusos portugueses é mais do que o triplo da média da União Europeia.

- As penas sucessivas podem levar a que reclusos cumpram mais de 25 anos consecutivos de prisão.

- Recentemente a Lei da Saúde Mental acabou com a prorrogação sucessiva das medidas de segurança que poderia levar à prisão perpétua.

 

14– Direitos Humanos nas Prisões

- O Estado de Direito fica à porta das prisões.

- Não há o direito à própria defesa previsto no PIDCP.

- As condições de vida são infra-humanas, apesar da melhoria recente na alimentação

- O quotidiano é de grande agressividade. Há alegações de tráfico de drogas, chantagem sobre as famílias, violência frequente, agressões sexuais e um clima de sofrimento para todos (reclusos, guardas prisionais e funcionários).

- Não há a divulgação dos relatórios individuais de cada E.P. tal como era feito até 2010.

- As Regras de Bangkok continuam ausentes do ordenamento jurídico português

- As prisões são instituições medonhas, arcaicas, medievais, ineficazes, violentas,  desumanas e dispendiosas.

- Há um deficiente apoio para a reinserção social.

- Os cuidados de saúde têm fortes restrições (ex:próteses).

- Há alegações de carência de bens básicos (papel higiénico, dentífricos, etc).

- A atuação do TEP arbitrária e inconsistente.

- Há sobrelotação em muitas prisões.

- Existem graves lacunas nas ações de educação e formação.

- Há dificuldade no prosseguimento de estudos. Acesso a meios informáticos está impedido.

- Há debilidade no apoio psicológico.

 

 

 

15 – Situação das crianças e Jovens em Portugal

 

- Temos mais de 70.000 crianças por ano em acompanhamento  nas CPCJs. 
- Há cerca de 900 crianças e jovens nos Centros Tutelares Educativos e estabelecimentos prisionais.
- Há cerca de 10.000 crianças e jovens em acolhimento.
- Temos milhares de processos disciplinares nas escolas.
- Uma em cada três crianças vive numa família com  rendimentos abaixo
   do limiar da pobreza e necessita  de  apoio da Ação  Social  Escolar.

 

16 – Opacidade e mistificação nas prisões portuguesas

 

A O.V.A.R. tem vindo a denunciar a não divulgação de relatórios do Conselho da Europa e da sua divulgação automática, dos estabelecimentos prisionais, dos protocolos com empresas que utilizam mão de obra prisional e sobre o direito à própria defesa, entre outras situações, sem que se assista à correção dos procedimentos indevidos.

 

17– A Assembleia da República e os estabelecimentos prisionais 

 

- Na anterior legislatura foi constituída uma Sub-Comissão para a Reinserção Social e os  Assuntos Prisionais dentro da CACDLG DA A.R.. Foram efetuadas audições de múltiplas entidades. Com a dissolução da AR o trabalho havido não teve consequências.

- Em 28.11.2022 foi aprovado, por unanimidade, na nova Sub-Comissão, a audição, novamente, de algumas dessas entidades, entre as quais a O.V.A.R.. Como os deputados mudaram na quase totalidade na Sub-Comissão, voltamos à estaca zero. Desconhecem-se os resultados dessas audições.

- Algumas forças políticas não apresentam iniciativas de benefício do sistema prisional pois temem consequências eleitorais desfavoráveis. 

 

18 – Declarações de personalidades ligadas ao sistema prisional

- O sistema penitenciário clássico falhou os seus propósitos - Dr. Alberto Costa Ex-Ministro da Justiça.

- Se o inferno existe ele está nas prisões – Dr. Alberto Martins - ex-Ministro da Justiça.

- As prisões são um absurdo. Um absurdo, por enquanto necessário, mas um absurdo. E só numa lógica de absurdo, já ela uma aparente contradição, é possível entendê-las e aceitá-las. - Dr. Álvaro Laborinho Lúcio – Ex-Ministro da Justiça e Juiz Conselheiro.

- A experiência dos últimos 200 anos tem sido um fracasso. (…)  A prisão não reinsere; por vezes fomenta a própria criminalidade.  Dr. Germano Marques da Silva - Professor de Direito Penal.

 - A cadeia é um lugar injusto. (….) Parte de um tipo de Estado que, com ela, busca fins de repressão e submissão (…) A cadeia tal como a conhecemos não foi inventada para curar ou reabilitar (…).  Pe. António Correia - Capelão Prisional do EPPF.

- “O condenado que entra numa penitenciária é como uma mercadoria que se arrecada num armazém e, pouco a pouco, vai entrando no abismo dos malditos, dos ex-homens, com os seus conflitos e farrapos de tragédia (…) 

Emídio Santana - Político, Ensaísta e ex-Recluso

- A Associação Sindical de Chefias do Corpo da Guarda Prisional (ASCCGP) alerta que se “avizinha o descalabro” nas cadeias e que não serão os “números de ilusionismo do Ministério da Justiça” a resolver os “indícios alarmantes, indesejáveis e perigosos” que já perturbam o sistema prisional. Num comunicado emitido nesta quarta-feira, 25/10/2023, os chefes da Guarda Prisional referem que estão cada vez mais céticos e já não acreditam em “melhorias” que evitem o “caminhar para um colapso sistémico” do sistema prisional.

 

19 – Necessidade de um novo paradigma

- O Pilar Social como eixo da sociedade.

- Subordinação da economia ao equilíbrio social.

- Afirmação dos valores de ética e cidadania.

- Prevenção de conflitos em vez de repressão.

- Cultura dos valores de liberdade, igualdade, fraternidade, paz, e tolerância, em substituição do ódio, vingança, egoísmo, violência e insensibilidade.

- A vivência dentro das prisões ´é geradora de sentimentos de frustração, desânimo e revolta, tendo em conta estarmos em presença de situações cruéis, desumanas e degradantes, sem que se vislumbre sentido útil na finalidade da sua existência, quer para os reclusos, quer para quem lá trabalha. As prisões são fonte de conflitos sociais e familiares, envolvendo reclusos e funcionários prisionais.

- As prisões não ressocializam nem promovem a paz social. Somente alimentam o desejo de vingança das vítimas e dalguma opinião pública, não tendo efeito relevante no ressarcimento dos danos dos crimes. Além de que promovem o sensacionalismo primitivista que alimenta certos órgãos de comunicação social.

A convicção de que essa desumanidade, provocadora de penas e tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, proibidas por tratados e convenções internacionais, não pode continuar a existir nem é passível de correção, aliada à ineficácia e fracasso do modelo penitenciário existente no mundo ocidental há pouco mais de 200 anos, não tem outro caminho que não seja a sua abolição..

As prisões são instituições cruéis, assustadoras, anacrónicas, medievais, medonhas, arcaicas, degradantes, ineficazes, violentas, desumanas e dispendiosas.

Tal constatação é reforçada pelo contributo retirado das bases filosóficas das maiores religiões professadas no mundo, que assentam nos pilares do perdão e da misericórdia e não na vingança, tendo em conta a imperfeição do ser humano e a sua condição de potencial pecador....

A alternativa passa pela assunção da prevenção da prática de atos anti-sociais como a via exclusiva e prioritária a implementar, complementada com o novo modelo de justiça preventiva/restaurativa que tem vindo a ser instaurado em vários países, deixando de se aplicar penas de privação da liberdade, abolindo-se as prisões.

 

20 - Por um Mundo Sem Cárceres - Pastoral Carcerária do Brasil

Um mundo sem cárceres não é utopia. Utopia é acreditar que encarcerar resolve os conflitos sociais. A Prisão é uma máquina de destruir pessoas, mata a dignidade, afeta sonhos e fomenta ódio, rancor e desejo de vingança.

•      Agosto 2021

 

 21 – Exemplo de opacidade nas prisões – Programa “Fechado” da RTP 2 - 2023

 


 

 22 – AVANÇOS CIVILIZACIONAIS

 Nos séculos XIX  e XX assistiu-se à aprovação de tratados e convenções abolindo a escravatura e a pena de morte. Não foi um caminho fácil.

O século XXI tem de ser o da abolição das prisões.

          


  

Manuel Hipólito Almeida dos Santos

Presidente da O.V.A.R. – Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos