segunda-feira, 7 de setembro de 2020
Quem são os responsáveis?
terça-feira, 21 de abril de 2020
Depois da Tragédia
É consensual definir a tragédia “como
uma forma de drama que se caracteriza pela sua seriedade e dignidade, pondo
frequentemente em causa os deuses, o destino ou a sociedade (Wikipédia)”. O que
temos visto, recentemente, em Portugal e em variados países do mundo, é uma
tragédia sustentada na ameaça da Covid19, já que o poder político, revestido de
ar sério, pôs em causa a estrutura da vida em sociedade, com a cobertura
amestrada da maioria dos órgãos de comunicação social.
Num curto espaço de tempo, de
poucas semanas, assistiu-se ao estabelecimento de Estados de Emergência, com a
suspensão e alteração do direito à liberdade de circulação e do direito de
resistência, com a legitimação do uso do poder arbitrário pelas forças
policiais baseado em “acções musculadas”, com o caos no funcionamento do
sistema produtivo, com o drama nas vidas das pessoas afectadas, com a alteração
profunda nas relações sociais e com a imposição do poder totalitário do Estado.
Este estado de coisas implementou-se
rapidamente, com a aquiescência receosa da esmagadora maioria das pessoas, já
que o medo da morte, em consequência de eventual contágio, impôs-se de forma
absoluta. De nada valeram algumas objecções levantadas por um pequeno grupo de
pessoas, suportadas pela relativização das implicações apontadas e pela
gravidade das consequências das medidas tomadas. A pandemia do medo suplantou,
inclusivamente, a pandemia da Covid19, esquecendo, deliberadamente, que viver
tem riscos e que a morte é o fim natural dos seres vivos. George Orwell, há
quase um século, enfatizou que “O importante não é mantermo-nos vivos, é
mantermo-nos humanos”. Ora, esta pandemia do medo sobrepôs a vontade de viver,
ainda que seja sobre a desumanidade imposta aos outros seres humanos. Foi a
vitória do egoísmo sobre a fraternidade.
Como consequência, o poder
político retirou enormes proventos da situação, já que ao apoiar essa
esmagadora maioria de pessoas medrosas, atraiu-as para o seu espaço político,
com o consequente crescimento eleitoral. Ficou-se a saber que um grande
argumento para a atração de simpatias pode ser a utilização do medo como fator
mobilizador.
Estamos, agora, a um passo de
alterar o Estado de Emergência, não se sabendo, ainda, se a tragédia vai acabar
ou, apenas, atenuar-se. Importa, todavia, alertar para princípios basilares que
devem nortear toda a acção humana, em quaisquer circunstâncias.
O futuro próximo tem de ser
construído no respeito pelos direitos humanos universalmente consagrados,
construídos na segunda metade do século XX e constantes, nomeadamente, na
Declaração Universal dos Direitos Humanos e normativos jurídicos dela derivados
(Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, Pacto Internacional dos
Direitos Económicos Sociais e Culturais, Convenção dos Direitos da Criança,
Convenção Europeia dos Direitos Humanos, etc…), tendo em conta que, de acordo
com a Declaração de Viena das Nações Unidas de 1993, todos os direitos humanos
são iguais, universais, indivisíveis e interdependentes (por exemplo, a vida é
tão importante como a liberdade ou a educação, nem mais nem menos). Neste
sentido, há que respeitar princípios que estão a ser desrespeitados dentro do
Estado de Emergência, nomeadamente, repondo a liberdade de circulação, o
direito de resistência e a não discriminação em razão da idade (é aviltante a
forma como estão a ser discriminados os idosos, infringindo gravemente o
direito à igualdade na dignidade). Como exemplos extremos do carácter desumano
imposto pelo Estado de Emergência, podem-se citar as restrições na prestação de
assistência a familiares e amigos internados nos hospitais e a cumprir penas
nas prisões, ou na participação nos funerais dos que nos são queridos, assim
como no acesso à igualdade na educação, já que se agravaram as desvantagens das
crianças oriundas de famílias pobres com as novas modalidades de ensino
adotadas, além da destruição significativa de postos de trabalho lançando na
pobreza e exclusão social largas camadas da população.
Importa, ainda, aproveitar a
oportunidade para implementar uma nova ordem política, económica, social e
cultural, assente nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, já que o
modelo anterior à pandemia do medo (Covid19), assente, de forma crescente, na
escravatura e exploração de seres humanos criando desigualdades gritantes, se
estava a afastar dos referenciais humanistas subjacentes aos normativos de
direitos humanos atrás mencionados. Tenhamos em conta que a democracia não se
esgota em eleições livres e periódicas, nem na vontade totalitária da maioria.
Relembremos o artigo 1º da
Declaração Universal dos Direitos Humanos; “Todos os seres humanos nascem
livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e consciência, devem
agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”
Porto, 21 de Abril de 2020
Manuel Almeida dos Santos
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Direitos Humanos. Que Futuro?
A promoção
da dignidade humana tem mobilizado um conjunto alargado de entidades,
nomeadamente desde a segunda metade do século XX, na sequência da proclamação,
em 10 de Dezembro de 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela
Organização das Nações Unidas. O mundo assistiu, a partir daí, ao crescimento
de organizações, ditas do terceiro sector, a um ritmo e dimensão tais que as
tornaram um pilar fundamental da vida em sociedade. Além das obediências
maçónicas, assistiu-se ao florescimento de associações de direitos humanos, ecologistas
ou de defesa do consumidor, até às fundações, instituições de solidariedade
social e agremiações de beneficência, dispondo estas organizações, hoje, dum
poder que as torna apetecidas por quem detém o comando governamental dos mais
variados países. Muitas delas são já parte de ramificações internacionais que
as tornam verdadeiras multinacionais da sua área de actividade, ombreando em
capacidade de influência com muitas multinacionais da economia com fins
lucrativos. Não é por acaso que estas se envolveram nos últimos anos com
entidades de políticas de responsabilidade social. O seu crescimento, a nível
nacional e internacional, tornaram-nas incontornáveis para os mais diferentes
governos, primeiro como organizações temidas e recentemente como parceiras.
Esta sua evolução deixa em aberto respostas para muitos dos problemas que
rodeiam o mundo na atualidade.
Chegados
ao segundo decénio do século XXI interessante é verificar alguns passos da
evolução histórica destas organizações, assim como perspectivar o seu papel no
futuro próximo, nomeadamente nas que se ligam aos direitos, liberdades e
garantias. Tendo muitas dessas organizações nascido ligadas a nobres
objectivos, esse seu cordão umbilical tem-lhes garantido a sobrevivência,
apoiada em actividades que fazem a ponte entre o passado e o presente. No
entanto, mesmo que algumas das actividades que desenvolvem continuem a ser de
interesse para comunidade, a sua existência tem-se vindo a tornar de grande
relevância para a credibilização do sistema político ainda vigente na maioria
dos países do mundo (pretensamente democrático), tonando-se numa muleta
fundamental para a sustentação do modelo político-económico-social ainda em
vigor, nomeadamente na generalidade do mundo ocidental, perdendo o estatuto
reconhecido, ainda não há muito tempo, de organizações isentas, independentes e
imparciais, temidas pelas instâncias governamentais. Não é por acaso que estão
a passar de organizações temidas e respeitadas para parceiros que contestam
alguns aspetos mas não põem em causa os pilares do sistema. Assim sendo, é
esperança vã que elas possam ser protagonistas de primeira linha numa tentativa
de melhoria significativa do actual modelo de sociedade, expectativa esta
agravada pelas alterações que se estão a verificar no comprometimento, para com
os direitos humanos, de governos recentemente eleitos.
Na época dourada da
explosão do activismo genuíno (dos anos setenta aos anos noventa do século
passado), muitas ONGs nasceram fruto da constatação da necessidade da sua
existência para pressionar o poder político, no sentido das causas que estavam
na sua identidade pudessem merecer uma maior atenção, como entidades
específicas de âmbito nacional ou como ramos de organizações internacionais já
existentes na área de intervenção. A Maçonaria, também, tem tido um crescimento
notável em tempos recentes.
A esta mudança do
paradigma de funcionamento não escapam organizações que granjearam
credibilidade e cujo prestígio obtido permite ainda alguma notoriedade pública.
Quase se pode dizer que vivem à custa do capital de reconhecimento alcançado no
passado. São disto exemplo ONGs de direitos humanos, sindicais, de defesa do consumidor,
de serviço à comunidade e de certas obediências da Maçonaria, cujas práticas
utilizadas, na importância que é dada à sobrevivência institucional, à gestão
financeira, aos modelos tecnocráticos da nova onda da governança, à angariação
de fundos e à constituição de provisões e aplicações financeiras de montantes
excessivos e em instituições financeiras de duvidosa postura ética, ou no
recrutamento de novos membros/associados sem identidade ideológica, quase faz
parecer que o que é importante é ter muitos associados e o recebimento do valor
da jóia e quotas, ou, ainda, utilizando na sua estrutura de funcionamento
posturas pouco recomendáveis na gestão de pessoal, recorrendo a trabalhadores
precários e/ou independentes ao arrepio das funções efectivamente exercidas.
Muitas das organizações estão a passar de organizações fraternas a organizações
quase sem calor, sem afecto, sem amor, sem alma, tratando as temáticas do seu
objecto social quase de forma tecnocrática, com recurso a trabalhadores
pressionados e desmotivados. Também, aqui, essas organizações, tal como os
governos, estão a hipotecar a coragem ao medo da opinião pública, não tendo em
conta o alerta do maçon e presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, na altura da
II guerra mundial: “Aquilo que mais devemos temer é o nosso próprio medo”.
Para a afectação da
sua imagem de independência, isenção e
imparcialidade tem contribuído, significativamente, a acção dos diferentes
tipos de lobbies que se têm
desenvolvido a um ritmo sempre crescente. O
lobby económico, o lobby ambientalista, o lobby militar, o lobby gay e as
variantes LGBTIQ+, o lobby social enquadrado pelas IPSS, etc…, são hoje forças
poderosas que influenciam fortemente o poder político e as obediência maçónicas
(em Portugal tivemos um exemplo recente com o projecto de lei sobre a coadoção,
em que o que se relevou foi a defesa da não discriminação dos casais do mesmo
sexo, quase omitindo que o que estava em causa, fundamentalmente, eram os
direitos das crianças, já que são estas que têm o direito a serem adotadas e
não são os adultos que têm o direito de adotar. O lobby LGBTIQ+ quase conseguiu
apagar a abordagem pelo lado dos interesses das crianças, parecendo que estas
eram mera mercadoria). O poder dos lobbies
na vida das ONGs leva já à participação de grandes multinacionais nas suas
actividades, gerando um pântano que já ganhou direito a denominação atractiva
como são as políticas ditas de responsabilidade social. Para promover este
pântano constituem-se entidades, como são a BCSD Portugal e a GRACE Portugal,
agrupando grupos económicos poderosos, que, sob a capa do altruísmo, albergam
empresas frequentemente alvo de denúncias de comportamento censurável. Basta
consultar os sítios na Internet destas entidades para termos conhecimento de
quem quer fazer passar a mensagem de que pratica políticas de responsabilidade
social, ao mesmo tempo que praticam dumping social, trabalho precário, salários
de miséria, marketing pouco ético, etc .
A evolução desta
estratégia dos lobbies leva a que o próprio
poder político acabe por ficar refém e, até, interessado nesta conjugação de
interesses entre os lobbies e as ONGs, incluindo as obediências maçónicas,
colocando estas como entidades credibilizadoras do sistema político vigente.
Temos de nos
libertar de tutelas e ser mais incisivos nas prioridades internacionais e
nacionais, de que destaco a pobreza, a exclusão social, o direito à própria
defesa, as prisões e as crianças, assim como temos de combater a escravatura
moderna com a precariedade e os baixos salários.
Importantes
organizações, tal como actualmente existem, não são já organizações
democráticas no seu funcionamento real. Convocam assembleias gerais (já não por
carta mas por anúncio nas suas revistas ou por email), realizam eleições,
difundem comunicados, editam revistas ou newsletters, mas os associados pouco
ou nada participam. Em consequência, há pouca rotatividade de dirigentes,
provocando a tomada do poder por militantes com interesses diretos nessa
qualidade, como trampolim para outros voos, introduzindo uma promiscuidade de
interesses nada prestigiante para o objecto específico das organizações.
Um outro exemplo pode ser a imposição da
concorrência como o primado da defesa dos cidadãos enquanto consumidores, que
tem vindo a ser seguido pela generalidade das associações de consumidores,
colocando em plano secundário, ou até esquecendo que há bens e serviços que não
podem ficar sujeitos à selva da concorrência, de que são exemplos a água, a
energia e a generalidade dos serviços públicos essenciais – o argumento de que
entidades reguladoras poderão disciplinar os sectores em questão tem-se
revelado uma falácia. Acresce ainda a dependência dessas entidades reguladoras
do poder político, quer na nomeação dos seus responsáveis, quer do quadro legal
que cerceia a sua independência e capacidade de decisão. A ineficácia, que
estas entidades reguladoras e de supervisão têm vindo a demonstrar, está
patente na realidade escandalosa que se vê no sectores financeiro, dos
combustíveis, das telecomunicações, da energia, etc…, fazendo-se acompanhar de
igual ineficácia nos mecanismos judiciais que são chamados a ajuizar os
procedimentos praticados.
Com tudo isto, este início de século está a colocar novas e
preocupantes facetas nas relações entre os cidadãos e entre estes e a
organização social. Valores inquestionáveis até há pouco tempo (ética,
honradez, civismo, gratidão, lealdade, etc...), valem pouco mais que nada no
modelo de sociedade em vigor, reduzindo à insignificância conceitos que
perduraram e modelaram sociedades durante longo tempo.
O poder na sociedade é hoje exercido longe dos valores
em que se baseava o conceito de democracia, que pugnava pela eleição dos
melhores e não dos mais bonitos ou daqueles que utilizam o marketing mais
agressivo e com exigência de elevados meios financeiros. Assiste-se ao
apagamento do ideal de servir no exercício da coisa pública, simultaneamente
com o apagamento da solidariedade como valor básico na consciência dos
cidadãos. É o ter pelo ter! Assim sendo, não é de estranhar a ausência da
rectidão e da coerência no quotidiano, renegando hoje o que se defendeu ontem
ou utilizando vias pouco claras no atingir de objectivos. Tudo isto em nome da
eficácia dum modelo de sociedade fria, oca, tecnocrática, que só apraz a quem
dela tem oportunidade de se aproveitar. Uma sociedade de mortos. Mortos de
sentimentos, mortos de humanismo. Mortos ou narcotizados. Mortos ou
anestesiados. Mortos ou inactivos. Mas mortos que votam!
Uma nova faceta que se impôs sorrateiramente, quase
sem se dar por isso, e que é uma nova concepção de Estado de Direito, traduz-se
na subversão dos princípios clássicos do Estado de Direito, com a crescente
implantação do Estado Totalitário de Direito. Estado este, em que o que conta
são os valores formais, manifestando pouco empenhamento na individualidade de
cada pessoa e no reforço do civismo. Já Afonso Botelho em “Origem e Actualidade
do Civismo” dizia:“... . Na
fraternidade profana em que vivemos só o acaso poderá permitir que a maioria
coincida com o juízo de Deus ou com a razão verdadeira. Quase sempre
corresponde a uma vitória do mais forte que não será, como é evidente, o mais
justo. Por ser assim, é que encontramos tão frequentemente usada a expressão:
maioria esmagadora. Não se repara, tal é o hábito, que ao usarmos esta
expressão não estamos a fazer o elogio da maioria mas a condená-la como, assim
desprevenida de qualquer virtude, efectivamente merece”. E Almada
Negreiros dizia a propósito da Arte:
“A opinião... abrange uma tão colossal maioria que receio que ela impere por
esmagamento.” É que a democracia não se esgota na existência de
eleições.
Uma sociedade assim conduz, inevitavelmente, à desigualdade, à insegurança e à repressão, contribuindo para a radicalização político-filosófica já que a radicalização entra quando as desigualdades e a injustiça se instalam. E isto é visível nas nossas cidades e nos cidadãos. A alienação do fait-divers (futebol, telenovelas, programas televisivos de sensacionalismo primário e concursos de chamadas de valor acrescentado, etc…) desvia as pessoas de valores elevados de cidadania. O leque entre ricos e pobres aumenta na sua acentuação. A segurança aparece como principal aspiração, apesar do elevado número de presos nas cadeias. A liberdade é cada vez mais, camufladamente, condicionada, etc,etc,etc... . É um escândalo e uma vergonha que se fique impávido numa altura em que 20% dos cidadãos mais ricos ganhem 150 vezes mais que os 20% mais pobres. Não é 1% nem uma franja marginal. São milhões de pessoas que vivem em cima de muitos outros milhares de milhões. A desigualdade no acesso ao desenvolvimento acentua-se, com o desencanto de se manipularem as estatísticas para demonstrar que o desemprego não é tão alto quanto isso. E como se fazem as estatísticas? E os que estão fora das estatísticas? E o crescimento do emprego precário? Não são seres humanos os sem-abrigo, os arrumadores, os mendigos, os excluídos, os trabalhadores a recibo “verde”? É que de acordo com o artº lº da Declaração Universal dos Direitos Humanos “ Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.
Por outro lado, a segurança e a liberdade não são
sinónimos de repressão nem são hierarquizáveis entre si. Todos os direitos
humanos não são só da direita ou da esquerda. São valores que têm de constituir
o cimento das relações entre todas as pessoas. Ainda há poucos anos, na
Declaração de Viena das Nações Unidas, ficou expresso que todos os direitos
humanos são universais, interdependentes e indivisíveis. A sociedade de hoje
não pode ver os seus cidadãos como potenciais criminosos ou delinquentes, vigiando-os
e controlando-os. É inaceitável que se assista, à boa maneira orwelliana, à
colocação de câmaras de vídeo nas ruas das cidades, deixando a liberdade e a
privacidade de qualquer cidadão à mercê de quem visiona o vídeo. E não se diga
que os inocentes não têm de ter medo. O simples facto de serem inocentes não os
pode colocar ao nível de suspeitos criminosos.
Os mecanismos de protecção dos cidadãos têm de ser
encontrados no reforço da educação para a cidadania e não no aumento da
repressão.
A sociedade tem de mudar. Temos de dizer não à
sociedade do medo, do rancor, da intolerância, policial, repressiva e
agressiva. Os cidadãos têm de assumir os seus direitos e, também, os seus
deveres. O dever da solidariedade, o dever da tolerância, o dever da honradez,
o dever da honestidade, o dever da lealdade. Estes deveres não estão
ultrapassados por muito que os apelos ao primarismo e à fruição egoísta o
queiram fazer crer. Os modelos governativos actuais, que a globalização mundial
torna quase todos iguais e que assentam na frieza tecnocrática e na repressão,
têm de ser combatidos
Isto exige que se reforce a componente humana da
sociedade e dos cidadãos. Havendo um manifestar frequente dalgumas feridas da
sociedade, continua-se a assistir ao agravamento das suas causas e efeitos.
Como exemplo, pode-se citar a inobservância dos direitos das crianças, a
abordagem ineficaz à problemática das drogas, a gravidade da dimensão dos
conflitos pessoais, a intolerância, o individualismo, etc… . E o que tem feito
a sociedade para curar estas feridas às pessoas? Tem-lhe dado uma educação
humanista? Tem contribuído para a sua estabilidade psíquica? Tem-lhe providenciado
referenciais morais, cívicos e de urbanidade? Infelizmente, parece-me não se poder
responder de forma positiva a estas interrogações.
A sociedade está mais virada para o engodo dos
eleitores do que em manter a humanidade do cidadão. A sociedade está mais
preocupada em recrear do que em formar ou cultivar. A sociedade está mais preocupada
em aumentar o ter do que em valorizar o ser. O repensar, o discutir, o
questionar do papel da sociedade e do cidadão é a chave para criação duma
sociedade mais humana, em que o cidadão goste verdadeiramente de nela viver. Passados
mais de 70 anos da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
importa ter presente que os direitos humanos são universais, indivisíveis e
interdependentes. Isto quer dizer que a eficiência económica não pode ter o
primado do que quer que seja. Os cidadãos devem assumir-se como cidadãos
enquanto é tempo. Não podem deixar que na sociedade impere o medo, a
intolerância, a polícia, a repressão. O pesadelo de George Orwell, em 1984, não
deve ser o guia da sociedade e do cidadão. Em 10 de Dezembro de 2018, na Assembleia
da República, ao receber o prémio Direitos Humanos 2018 em nome da Obra
Vicentina de Auxílio aos Reclusos, tive ocasião de manifestar esta visão
repressiva que impera na sociedade actual, no sistema prisional, sendo as
prisões instituições desumanas, medonhas, medievais, arcaicas e violentas,
impróprias do modelo humanista que está na base da Declaração Universal dos
Direitos Humanos.
Ao ver recentemente
uma reportagem televisiva questionei-me: o que dirão de nós, daqui por alguns
anos, ao assistirem, nessa altura, a um eventual programa de televisão com
retratos da situação social no ano de 2019? O que dirão de nós por assistirmos
quase passivamente à existência, só em Portugal, de mais de 400.000 inativos
adultos sem qualquer fonte de rendimento? O que dirão de nós que sabemos que
muitas dezenas de milhares de crianças vão para a escola sem terem feito os
trabalhos de casa por não disporem de luz em suas casas (cortada por falta de
dinheiro para a pagar)? O que dirão de nós que sabemos que essas mesmas
crianças já pouco têm que comer e beber em casa (a água também foi cortada pela
mesma razão de ausência de rendimento)? O que dirão de nós que sabemos pela
comunicação social da morte de idosos abandonados, sem nada mudarmos nas nossas
relações com os pais ou avós? O que dirão de nós que sabemos da existência duma
mendicidade institucionalizada e dum número crescente de sem abrigo? O que
dirão de nós que sabemos do despejo de famílias que deixaram de poder pagar as
prestações das suas casas, ficando estas vazias anos e anos após o despejo? O
que dirão de nós que exultamos com o bom negócio que fazemos ao arrematarmos
por tuta-e-meia, em leilões concorridos, os bens penhorados a quem deixou de os
poder pagar? O que dirão de nós que sabemos que esta pobreza coabita com ricos,
podres de ricos, e governantes bem instalados na vida? O que dirão de nós que
sabemos que esta pobreza convive com situações escandalosas de corrupção,
confisco, nepotismo e compadrio? O que dirão de nós que continuamos a mandar
para prisões medievais os desafortunados da vida? O que dirão de nós que
criamos um sistema dito democrático mas que tem agravado a injustiça e as
assimetrias sociais? O que dirão de nós que criamos organizações de direitos
humanos, de consumidores, de rotários, de obediências maçónicas, de confissões
religiosas, etc., que deviam impedir que isto acontecesse mas que parece que se
auto comprazem com pouco mais do que a sua mera existência, já quase não
restando esperança de que estas organizações possam protagonizar alguma
dinâmica de resistência ao retrocesso civilizacional em curso?
Muitos dos
responsáveis de há setenta e cinco anos, da II guerra mundial, alegaram que
desconheciam a situação. Nós não vamos poder apresentar a mesma desculpa. Como
disse a poetisa Sofia de Melo Breyner Andresen "Vemos, ouvimos e lemos,
não podemos ignorar".
E não temos vergonha
de estarmos a ter este comportamento cúmplice e comprometedor? Não temos
vergonha do que vão dizer de nós no futuro? Que raio de sociedade esta em que vivemos!
Analisando a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, vemos que estamos a regredir da
evolução conseguida em muitos aspectos nela consignados. Os seus defensores têm
de se assumir, afastando os hipócritas envergonhados, não abrindo caminho aos seus
opositores declarados, não premiando os silenciosos oportunistas. O crescente
apagamento das ONGs em geral, e da Maçonaria em particular, tem
significativa importância no estado
atual dos direitos humanos e na expectativa da sua evolução, já que a postura
reinante na esmagadora maioria dos responsáveis políticos que conduzem o mundo
não augura um futuro auspicioso para a vida quotidiana dos cidadãos, pelo que ressalta
a necessidade de repensar a cidadania na base do voluntariado nas ONGs,
aprofundando a prática efectiva da liberdade, igualdade e fraternidade no seu
quotidiano, com isenção, independência e imparcialidade. A Maçonaria, como
ordem universal, filosófica e progressista, não se pode alhear da importância e
influência dessas organizações, sob pena de apagamento dos seus valores na
condução dos destinos da sociedade.
A evolução política
verificada, nos últimos anos, nalguns países, vai tornar mais necessária a
acção das ONGs, fazendo-as voltar aos grandes valores, ainda que tal se possa
ressentir na diminuição da adesão dos cidadãos, já que o medo pode voltar a
instalar-se como condicionante do seu comportamento. Tempos difíceis se
avizinham e é nessas circunstâncias que a resistência à violação dos direitos
humanos se torna mais necessária. Contudo, a história mostra-nos que é nessas
alturas que a generalidade das pessoas de acobardam, ou, até, se colocam ao
lado do poder instalado, ficando uma minoria de corajosos humanistas sujeitos
às arbitrariedades do poder político despótico. A recente proposta do partido
político PAN sobre a declaração de pertença a organizações discretas, dando
como exemplo a Maçonaria, viola direitos fundamentais, pois qualquer
obrigatoriedade de declaração de pertença, seja a que entidade for, viola a
liberdade de associação e o direito à proteção da vida privada. Tal ressalta
claramente dos referenciais jurídicos internacionais de direitos humanos. Os
requisitos para a identificação das pessoas, devem ser, somente, os exigidos
para documentos pessoais (cartão de cidadão, carta de condução e passaporte). Se
qualquer pessoa é suspeita de pertencer a uma associação para a prática de atos
ilícitos, pode, na situação atual, ser sujeita a uma investigação e acusação. O
que não se pode é colocar todos os que pertencem a essa associação como
potenciais criminosos.
A actualidade da
filosofia e dos valores consignados na Declaração Universal dos Direitos
Humanos e a promoção da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, tem de envolver
todas as pessoas corajosas na sua defesa e aprofundamento, com a força, beleza
e sabedoria necessárias a todo o empreendimento de base humanista.
Como nos exorta o
filósofo contemporâneo Michel Onfray “Mais do
que nunca, a tarefa da filosofia é resistir, mais do que nunca ela exige a
insurreição e a rebelião, mais do que nunca ela deve incarnar os germes da
insubmissão.”
Manuel
Hipólito Almeida dos Santos
14/03/2020
quinta-feira, 26 de março de 2020
A Covid 19 e a Nova Ordem
Desde finais do século passado, tenho vindo
a defender a criação de uma nova ordem política, económica, social e cultural.
A situação que actualmente vivemos, provocada
pela doença Covid-19 (vírus SARS-CoV-2), está a ter consequências que podem vir
a conduzir a essa nova ordem. Tal constatação é reforçada pela visualização do
comportamento da maioria dos cidadãos perante a declaração do Estado de
Emergência em vários países.
Admito que, face ao clima de medo criado na
opinião pública, o poder instituído não tinha alternativa às medidas que tomou.
É um facto que
estamos perante uma pandemia. O que temos de ver é a melhor forma de a
enfrentarmos. As paranóias nunca foram a melhor solução. Temos de ponderar as
consequências de cada solução e os seus pressupostos. A solução adotada por
muitos governos, Portugal incluído, tem o pressuposto de achatar a curva de
evolução da doença e vai-se prolongar por vários meses.
No entanto, não estou de acordo, em
princípio, com algumas dessas medidas, já que infringem direitos fundamentais
consignados nos referenciais jurídicos internacionais de direitos humanos, de
que são exemplos a limitação à liberdade de circulação, direito à greve e
direito de resistência. Uma coisa é o comportamento cívico voluntário dos
cidadãos. Outra coisa é a acção coerciva do Estado. Além de que se está a
assistir à desarticulação da construção económico-social em que o mundo
assentava.
A solução em curso, além de outras implicações, afeta a
liberdade individual e cria graves problemas sociais, nomeadamente aos mais
pobres. Não tem qualquer estudo comparativo com as consequências de outras
soluções, nomeadamente nos efeitos sobre o desemprego, o agravamento da pobreza
e da exclusão social e o tipo de vítimas e mortes que todas as possíveis
soluções poderão provocar.
Os responsáveis políticos têm tido comportamentos flutuantes
desde o início da doença. Temos de ser céticos e firmes quanto ao não cedermos
ao Estado o poder de se substituir às decisões sobre a vida de cada indivíduo.
O mesmo estado que andou anos a delapidar o SNS e agora obriga os cidadãos a se
confinarem para não sobrecarregarem os hospitais.
A solução em curso
agrava a nova escravatura. Os novos escravos (os que têm de continuar a
trabalhar) só podem trabalhar mas não se podem deslocar para fora do itinerário
trabalho-casa É
espantoso verificar como a maioria das pessoas aceita, e aplaude, as limitações
à liberdade individual, com o argumento da preservação dum bem maior que é a
saúde pública, restringindo a capacidade de cada um avaliar o melhor
comportamento na sua relação com os demais. É o presumível interesse colectivo
a esmagar a liberdade individual. É o retorno à velha ideologia
soviética/maoista de triste memória. E não se argumente que a liberdade
individual pode causar prejuízos na saúde dos outros, pois, então, teríamos que
colocar em confinamento domiciliário todos os fumadores. E o argumento de que a
liberdade de circulação pode acarretar um maior recurso a cuidados hospitalares
leva, paralelamente, a ter de se limitar a quantidade de comida a muitas
pessoas pois torna-as obesas e carenciadas de maiores cuidados clínicos.
A opção entre liberdade e segurança/saúde é um erro. Estamos
a optar pela pulsão securitária à pala da saúde. Será que queremos cair no colo
de paranóicos que exigem a nossa liberdade, como referiu Henrique Raposo no
Expresso de 28/03/2020? Como interpretar a exigência de responsáveis de acções musculadas (força, violência) para impedir
deslocações? Há um fundamentalismo presunçoso e autoritário em muitos dos que
defendem a permanência em casa, que já vai na denúncia pidesca de quem age de
forma diferente.
Os Estados de Emergência são a delícia dos regimes
autoritários e ditatoriais. Os governantes estão-se a tornar entidades divinas,
que até muitos ateus veneram. O ministro Augusto Cabrita faz-me lembrar os
ministros do interior do anterior regime (os estudantes contestatários e os
comunistas agiam prejudicando os interesses do povo, pelo que tinham de ser detidos
e condenados).
Por
outro lado, importa ver se as consequências deste Estado de Emergência não
provoca mais danos e vítimas que as que se argumenta poderem resultar sem essa
instauração, de que o aumento da pobreza e exclusão social que se seguirá são
exemplos. Os adiamentos de actividades programadas que se estão a verificar nos
hospitais e centros de saúde (consultas, cirurgias e outras actividades), irão
trazer mais mortes evitáveis e mais custos no sistema de saúde. Evidentemente
que as consequências que se seguem irão recair, com maior gravidade, nos mais
pobres e desfavorecidos e, como se sabe, estes não ocupam parangonas nos órgãos
de comunicação social e só são necessários para exercerem as funções de que as
elites e a burguesia necessitam.
Acresce a panóplia de medidas legislativas,
em catadupa, que o poder político tem vindo a decretar, o que vai alterar as
regras de funcionamento da sociedade (moratórias de pagamento, subsídios de
vários tipos, proibição de despejos, alterações aos despedimentos, novo lay
off, etc…), o que vai trazer mais burocracia e complicações no quotidiano. Este Estado de
Emergência está a criar o caos, a arbitrariedade e o abuso do poder. (O DL
10/2020 já vai na letra K, além de 13 Declarações de Retificação e inúmeros
despachos, avisos e outras decisões casuísticas, e não fica por aqui. - coitados
dos juristas e dos cidadãos). Quantas complicações se vão desencadear?
Além de que está a fazer esquecer outros dramas bem piores
que existem no mundo (Síria, Refugiados, Líbia, Palestina, Venezuela, escravatura,
sistemas prisionais, etc…).
Todo este reboliço acarreta maiores
exigências, não só aos profissionais de saúde, como, também, a todos os que
mantêm actividade laboral (lixeiros, carteiros, trabalhadores fabris,
pescadores, agricultores, etc…). Não se está a ter em conta situações parecidas do
passado (no ano de 2017, em Portugal, houve 16.000 casos de tuberculose, 32.000
mortes de doenças do sistema circulatório, 16.000 mortes de doenças
infecciosas, 28.000 mortes de cancro, 13.000 mortes de doenças do sistema
respiratório). Em 2008, a gripe H1N1 matou mais de 200.000 pessoas no mundo – Jornal
Público de 27/11/2013. A Covid 19 , até 29/03/2020, tinha provocado cerca de
34.000 mortes.
Com este Estado de Emergência, a liberdade
do exercício dos direitos fundamentais de resistência e de greve está proibida.
Relendo, por exemplo, o artº 21º da Constituição da República Portuguesa (Artigo 21.º - Direito de
resistência - Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem
que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força
qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.) facilmente se
verifica a gravidade de tal cerceamento. E não nos espantemos ao sabermos de
casos de abuso de autoridade por parte das forças de segurança. Sobre a
limitação do exercício do direito à greve, também não é difícil vislumbrar o
que tal representa para a defesa dos direitos dos trabalhadores (em alguns
países onde foi declarado o Estado de Emergência não se proibiu o direito à
greve). É preocupante esta aceitação do autoritarismo e da repressão, havendo
já quem defenda o conhecimento da identidade das pessoas infetadas infringindo
o direito à privacidade e o direito à protecção de dados tão arduamente
conquistados e violados repetidamente.
Esta situação convida a reler o ensaio sobre a cegueira de
José Saramago. Já sugeri esta leitura no início desta crise da Covid 19.
Há uma demagogia lamentável em muitos comportamentos e
slogans Como exemplo o slogan “Vai ficar tudo bem!” é falso. Como muita coisa
vai mudar, pode ficar bem para alguns mas não vai ficar bem para os pobres,
Para estes vai ficar mal.
Por outro lado, como grande consequência
das medidas decorrentes do Estado de Emergência (desarticulação da construção
económico-social em que o mundo assentava) aparece a nu a falácia em que temos
vivido sob a tutela totalitária do orçamento geral do Estado. Ainda há pouco
mais de um mês tivemos ocasião de assistir à discussão do OGE para 2020, em que
foi objecto de polémica a não aprovação da redução do IVA na energia, o aumento
de 10 euros para as pensões mais baixas, a não proibição de venda de habitações
penhoradas da habitação familiar que geram pessoas sem abrigo, etc…, com o
argumento de não haver dinheiro para mais. Pois, agora, aparece bateladas de
dinheiro para as consequências do Estado de Emergência que, se tivesse sido
aplicado na combate à pobreza e exclusão social e no serviço nacional de saúde,
teríamos pessoas mais apetrechadas para fazerem frente a doenças, minimizando
os custos que estamos a ter de suportar.
E, agora, como vai ser construído o modelo
económico-social que foi desarticulado? Quantas mortes vão ocorrer fruto da
desarticulação? Qual será o custo em termos económico-sociais?
Se não fosse o sofrimento das vítimas e o esforço dos que se
mantêm em actividade (pessoal da saúde, lixeiros, carteiros, trabalhadores
fabris, agricultores, pescadores, etc…), que muito prezo, e atendendo a que
esta crise abre a porta para uma nova ordem política, económica, social,
cultural, apetece dizer: Bendita Covid 19!
sábado, 28 de dezembro de 2019
50º aniversário da O.V.A.R.
Intervenção na sessão solene
Excelências
Estamos
em dia de festa e de reflexão. Dia de festa pois a passagem de cinquenta anos
de vida é sempre motivo de celebração. Dia de reflexão já que a vida da
aniversariante tem sido dedicada a uma causa que continua a dar motivos de
preocupação do mesmo tipo que esteve na base do seu nascimento: o sistema
prisional e as suas consequências nas vítimas, nos reclusos e suas famílias.
Como
referimos na revista que hoje foi lançada (número especial da Escalada), o
principal enfoque deve ser dirigido aos fundadores da O.V.A.R. – Obra Vicentina
de Auxílio aos Reclusos, pela sua capacidade de iniciativa, coragem e espírito
vicentino que deram mostra ao assumirem a criação duma instituição para
praticar o bem, o sentimento humanitário e o espírito de ajuda que estão na
base da filosofia cristã que nos congrega. Ao assim procederem, corporizaram o
legado de S. Vicente de Paulo e de Fraderic Ozanam de irmos ter com quem
necessita de apoio, na perspetiva de minorar o sofrimento e, através da
caridade, desenvolver as acções necessárias para tal, com amor e
dedicação.
Analisando
as primeiras atas de reunião da O.V.A.R., de há cinquenta anos, constata-se a
mesma necessidade de dinamizar a vivência cristã dentro das prisões, com a
agravante do grande crescimento da população prisional e do alargamento da
componente punitiva na vida em sociedade. Se os fundadores da O.V.A.R. ainda
fossem vivos seria com indignação que assistiriam a situação actual nas prisões
portuguesas, já que a situação de desumanização que se vive no seu interior é
uma afronta aos valores cristãos de fraternidade e de paz.
Aquando
do recebimento dos galardões com que a O.V.A.R. foi distinguida, no último ano,
tivemos ocasião de referir muitas das grandes questões que envolvem o sistema
prisional nos dias de hoje. No último ano adicionaram-se três aspectos com
relevância especial: a greve dos guardas prisionais (com implicações profundas
no quotidiano dos reclusos e suas famílias, além do impedimento da prestação de
assistência espiritual e religiosa), o aumento duma política restritiva por
parte dos Tribunais de Execução de Penas na concessão de licenças
jurisdicionais (precárias e liberdade condicional) e o aumento do número de
pessoas em cumprimento de penas e medidas na comunidade que já se situam em
número superior a 30.000 (além das cerca de 13.000 que se encontram em
cumprimento de penas restritivas da liberdade em estabelecimentos prisionais).
As entidades oficiais com quem temos mantido contacto manifestaram
sensibilidade e abertura para essas questões, mas não se tem sentido alteração
significativa duma realidade que é chocante.
A
revista especial que hoje é lançada, contendo depoimentos de reclusos,
ex-reclusos, familiares de reclusos, sacerdotes, benfeitores e de várias
entidades é um testemunho dessa realidade que a O.V.A.R. tem vindo a denunciar.
Aos
vicentinos em particular, e à Igreja Católica em geral, cabe um papel relevante
no combate a tal situação, dada a sua influência na sociedade. A sensibilização
das comunidades para a implementação duma vivência cristã nas prisões tem de
ser tarefa prioritária. Neste sentido, alertamos, uma vez mais, para a
necessidade da criação dum secretariado diocesano da pastoral prisional, com o
objectivo de dinamizar toda a diocese para uma contribuição forte de
implementação dos valores cristãos nas prisões.
Os
exemplos seguintes, constantes da nossa intervenção na Audição Parlamentar na
Assembleia da República, de julho último, que não esgotam as situações
desumanas vividas nas prisões, podem-nos dar uma ideia do quanto há por fazer
para que a vivência cristã se instale no sistema prisional.
- É importante a criação duma
dinâmica de prevenção da criminalidade baseada numa via formativa e não
punitiva (utilização da sedução e não da repressão), relevando o respeito pelos
outros, substituindo o ódio e o egoísmo pela amizade e partilha, permitindo a
satisfação de necessidades básicas com recurso a rendimentos lícitos,
eliminando a pobreza e a exclusão social.
- É urgente terminar com a
possibilidade de cumprimento de prisão perpétua, proibida constitucionalmente,
nos casos de penas sucessivas e medidas de segurança aplicáveis a inimputáveis,
cumprindo, objectivamente, o disposto no Código Penal da pena máxima de 25 anos
consecutivos, assim como as disposições da Constituição da República
Portuguesa. A dimensão do problema, apesar da promessa do seu levantamento pelo
actual director-geral da DGRSP, ainda não é conhecida.
- Deve-se terminar rapidamente com
a violação do Direito Internacional no que toca à garantia do direito generalizado à própria defesa, previsto no
artº 14º, nº3,d), do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos de que
Portugal é Estado-Parte, pelo que temos sido acusados pela ONU pelo seu
incumprimento, sendo os reclusos particularmente injustiçados com tal situação,
independentemente da melhoria do apoio judiciário que se tem revelado frágil e
inadequado.
- É necessária uma modificação
profunda na abordagem duma política sobre drogas (responsável pela maioria
esmagadora da população prisional, pois a obtenção de dinheiro para a compra de
droga está na base do pequeno tráfico e dos crimes contra as pessoas, contra o
património e contra a sociedade), encarando a não criminalização de todo o
circuito produtivo e comercial (a exemplo do tabaco e do álcool) e promovendo
uma campanha alargada de sensibilização para as consequências de todas as
dependências. Faz algum sentido continuar uma guerra, que já dura há dezenas de
anos, sem perspetiva de a ganhar, antes pelo contrário, quedando-nos a olhar
para o nosso umbigo embevecidos com o passo positivo dado da descriminalização
do consumo? Não estamos a querer ver o falhanço da estratégia para ganhar essa
guerra pela via punitiva de combate e da repressão. Mais, estamos a sustentar
estruturas envolvidas nesse combate que não têm interesse no fim da guerra,
pois tal terminará com o seu modelo de negócio. Quer a Alta Comissária das
Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, quer M. Kazatchkine,
da Comissão Global de Políticas de Drogas, declararam, em Maio último na 26ª
Conferência sobre a Redução de Danos, que a guerra às drogas fracassou, sendo
favoráveis à legalização das drogas, mesmo das mais pesadas.
- Há que ter em consideração de
que todas as formas em uso nas tecnologias de informação e comunicação devem ser acessíveis aos
reclusos, incluindo o uso alargado dos equipamentos (telemóveis e
computadores), permitindo uma efectiva praxis para a ressocialização e
acompanhamento da vida no exterior, tendo em conta que a aplicação de penas de
prisão efectiva tem como consequência, apenas, a privação da liberdade de
circulação, mantendo o recluso todos os demais direitos de que dispõem os
cidadãos em liberdade plena (ver artigo de Diretor Geral
da DGRSP no jornal Público -
11/06/2019 – Um novo paradigma para o uso de telefone e privação da liberdade).
É positivo o aumento de períodos de comunicação telefónica dos reclusos, ainda
que este passo não vai impedir a continuação da entrada clandestina de
telemóveis nas prisões, já que as potencialidades destes equipamentos não são
supríveis com as comunicações telefónicas tradicionais (estas não permitem as
novas tecnologias de comunicação e não possibilitam os contactos quando os
reclusos estão fechados nas celas).
- Relativamente à política de
fomento da valorização académica dos reclusos e de contactos com o exterior,
saúda-se o protocolo de colaboração da DGRSP com a Universidade Aberta,
esperando-se que os estabelecimentos prisionais criem as condições para a
adesão dos reclusos ao prosseguimento dos estudos.
- Tendo o crime de condução de
veículos automóveis, sem carta de condução, significativa expressão, deve-se
procurar proporcionar ao recluso, preso por este crime, a possibilidade de
obtenção dessa habilitação enquanto se encontra em cumprimento de pena.
- É urgente a admissão da
necessidade de alargar a formação para os direitos humanos dos efectivos
prisionais e de concretizar o recrutamento de recursos humanos para as áreas de
apoio aos reclusos (médicos, psicólogos, assistentes sociais, etc…). É
necessária a promoção dum clima de dignidade e humanismo, com a melhoria das
condições prisionais e de respeito pelos normativos aplicáveis dentro das
prisões, nomeadamente o CEPMPL, acabando com a ideia de que o Estado de Direito
fica à porta das prisões. As instituições nacionais e internacionais de
direitos humanos (Conselho da Europa, Nações Unidas, Provedoria de Justiça ,
etc…) continuam a manifestar a sua insatisfação e perplexidade com a situação
existente.
- As prisões devem ter uma
dimensão e localização que permitam a proximidade do recluso à sua área de
residência, promovendo uma política de transferências de reclusos para tal,
assim como evitando instalações de dimensão elevada que introduzam grandes
aglomerados de reclusos dificultando a humanização da vida prisional, assim
como combatendo a existência de grupos de liderança que praticam a extorsão e a
violência nas prisões. Para análise individual de cada estabelecimento
prisional, o relatório de actividades anual, publicado pela DGRSP, deveria
incluir o relatório pormenorizado de cada estabelecimento prisional a exemplo
do que foi feito até ao ano de 2010, tornando transparente a sua situação e o
conhecimento da vida interna que tal desenvolvimento do relatório permitiria.
- Sendo Portugal frequentemente
visado pelas organizações internacionais
de direitos humanos de que faz parte, nomeadamente das Nações Unidas e
do Conselho da Europa, os relatórios produzidos por estas instituições só podem
ser divulgados depois da autorização do governo português, o que não abona a
favor da transparência e da boa fé. Torna-se necessário que Portugal prescinda
desta prerrogativa e retire a restrição à divulgação desses relatórios logo que
essas instituições os produzem.
- Deve-se ter em consideração que
Portugal tem o tempo médio de cumprimento de pena mais elevado da União
Europeia. É injustificada a persistência
nas penas mais longas da União Europeia (o tempo médio de cumprimento de pena
em Portugal é cerca do quádruplo da média da U.E.),
pelo que reduzindo este tempo não precisamos de mais prisões nem de mais
recursos humanos. Precisamos é de reduzir o tempo médio de cumprimento de pena,
que levará à redução da população prisional, com a óbvia e consequente economia
de meios financeiros, humanos e materiais. A aprovação duma amnistia
contribuirá para este objectivo, corporizando, além do mais, os pilares
cristãos do perdão e da misericórdia que fazem parte da matriz social
portuguesa. O poder político não tem de ter medo da reacção dos portugueses a
este respeito e uma amnistia, assim justificada, será apoiada pela opinião
pública.
- Há que considerar a
aplicação das Regras de Bangkok (Regras das Nações Unidas para o
tratamento de mulheres presas e medidas
não privativas de liberdade para mulheres infratoras) às
reclusas com filhos, abolindo o cumprimento de penas de prisão que, por
arrastamento, cumprem as crianças inocentes.
- Há que tomar medidas de
prevenção de represálias sobre os reclusos para os condicionar na sua forma de
ser e estar, represálias estas que consistem em pareceres injustos para a
concessão de licenças jurisdicionais, na atribuição de tarefas ocupacionais
remuneradas e enquadramento no Regime Aberto, no caso de reclusos
reivindicativos dos seus direitos.
- Os tribunais de execução de penas persistem em
decisões restritivas na concessão de licenças jurisdicionais (precárias) e na
liberdade condicional, ao arrepio do recomendado pelos instrumentos de
reinserção social, raramente concedendo uma licença com 25% do cumprimento de
pena, apesar de tal possibilidade ter consagração legal, sem possibilidade de
recurso por parte dos reclusos, além do desrespeito dos prazos processuais.
Por outro lado, deveria ser obrigatória a presença física dos reclusos e seus
advogados em todas as reuniões que
apreciam o seu caso, assim como de ser-lhes fornecida cópia dos relatórios e
pareceres que lhes dizem respeito, com a sua inclusão no respectivo processo
individual existente no estabelecimento prisional.
-
Continua a retenção indevida do dinheiro do trabalho dos reclusos, infringindo
o imperativo constitucional do direito de propriedade, com o argumento da
constituição dum fundo de reserva. Tal só deveria ser feito com a concordância
do recluso. Por outro lado, o trabalho nas prisões,
sendo escasso, é remunerado com valores tão baixos, de alguns cêntimos por
hora, que se pode equiparar a trabalho escravo, além de que os bens produzidos
pelos reclusos, ao serem vendidos, configuram concorrência desleal com as
entidades que produzem o mesmo tipo de bens tendo de suportar salários e
encargos legais.
-
Assiste-se, no interior das prisões, a alegações de prática de tráfico de
drogas e bens, homossexualidade forçada, violações, roubos, violência,
chantagens sobre as famílias, autoritarismo e prepotência, situações
inaceitáveis que urge acabar.
- A assistência espiritual e religiosa é feita com grandes
limitações de tempo de contacto com os
reclusos, agravada com a sua
impossibilidade no caso das greves dos guardas prisionais (A
assistência espiritual e religiosa deve fazer parte dos serviços mínimos).
- A dinâmica de reinserção social em muitas prisões, a partir
do início do cumprimento de pena, é claramente insuficiente, para não dizer
quase inexistente, situação esta que continua a persistir devido a um patente
autismo da sociedade em geral, e do poder político em particular, perante as
denúncias, quer da própria Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais,
através dos seus relatórios de actividades, quer de algumas ONGs, situação esta
agravada pelo recurso a técnicos com vínculo precário.
- Os serviços de saúde são objecto de grandes limitações, em
recursos materiais e humanos, como, por exemplo, no fornecimento de próteses
dentárias, auditivas e oculares, situação esta agravada pelo recurso a técnicos
com vínculo precário.
- É imperioso que se dê andamento à implementação de
protocolos com autarquias visando a criação de “casas de saída”, permitindo a
existência dum local aonde os reclusos podem recorrer quando não dispõem duma
morada no exterior, permitindo a sua ressocialização e reintegração,
minimizando os custos sociais do crime e da reincidência.
- A alimentação é manifestamente pobre e insuficiente, em
qualidade e quantidade, bastando constatar que o valor diário, por recluso,
para as quatro refeições, fornecidas por entidades com fins lucrativos, é inferior a € 4,00.
E poderia continuar a acrescentar
outras situações que são atropelos aos referenciais de direitos humanos. Os
organismos de direitos humanos das Nações Unidos e do Conselho da Europa são
claros nos seus relatórios sobre as violações de direitos humanos nas prisões.
O Estado de Direito não pode ficar à porta das prisões.
Como
corolário desta situação, em 31 de Dezembro do ano findo tínhamos 12.867
reclusos a cumprir penas de privação da liberdade, sendo cerca de 70%
superiores a 3 anos de prisão, e em 31 de Dezembro de 2017 havia 33.143 pessoas
a cumprir penas e medidas na comunidade na área penal, das 51.413 condenadas
nesse ano e dos cerca de 340.000 crimes registados. Esta dimensão coloca-nos
nos países da U.E. com maiores taxas de pessoas em cumprimento de penas e
medidas punitivas. Temos de nos afastar, decididamente, da afirmação do médico
psiquiatra Miguel Bombarda que, há um século atrás, declarou “A Inquisição fazia mortos mas a Penitenciária faz
doidos.” No ano de 1969 em que a O.V.A.R. foi fundada a população
prisional era de cerca de 5.000 pessoas. Isto numa altura em que havia presos
políticos e limitações à liberdade de expressão e associação.
O arrepiar do caminho que nos está a levar para um beco sem saída,
que não reinsere os delinquentes nem assegura a reparação às vítimas (estas são
duplamente vítimas – do crime que as afectou e deste sistema de justiça), tem
de passar pela prioridade à diminuição da conflituosidade, ao invés do que se
tem passado em que a
prioridade foi dada aos meios repressivos. A sucessiva dotação de mais
meios para a repressão – mais tribunais, mais magistrados, mais oficiais de
justiça, mais prisões, mais guardas prisionais, mais polícias, mais esquadras,
mais multas e mais pesadas, etc… - não
tem tido resultados. Se este reforço de meios fosse dedicado a uma política
assumida de prevenção da conflituosidade na sociedade, os resultados seriam
muito melhores, em todos os sentidos. A aposta na repressão nunca, ao longo da
história, foi o caminho para uma sociedade melhor. Mesmo na actualidade, nos
países em que o sistema penal é mais repressivo (China, Rússia, Estados Unidos
da América) é onde se verifica maior taxa de criminalidade e de reclusão. Logo,
o modelo repressivo não é dissuasor
da prática criminosa, quase parecendo provar-se o contrário; quanto
maior é a repressão maior é a taxa de criminalidade. Temos de adotar o lema “Por
um mundo sem cárceres”. Temos de colocar os valores da liberdade, igualdade e fraternidade como centrais na
nossa relação para com os outros, assentes nos pilares do perdão e misericórdia.
A melhor forma de homenagearmos os fundadores da O.V.A.R. é
empenharmo-nos no trabalho de continuidade por eles iniciado, valorizando o seu
legado na linha da ação de S. Vicente de Paulo e Frederic Ozanam. É esse o
compromisso que os atuais vicentinos e vicentinas da O.V.A.R. assumem
convictamente.
Muito obrigado
Manuel Hipólito Almeida dos Santos
Presidente da O.V.A.R. – Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos
Sociedade de S, Vicente de Paulo – Conselho Central do Porto
27/11/2019
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
A Sociedade para uma Utopia Económica e Social
“A Sociedade para uma Utopia Económica e
Social”
O tema “A
Sociedade para uma Utopia Económica e Social”, é de particular relevância e
actualidade no momento histórico que atravessamos. Tal importância tem vindo a
ser despoletada por vários ensaístas e filósofos, preocupados com o retrocesso
humanista que as relações económicas e sociais têm vindo a sofrer, desde finais
do século passado, começando a tornar utópica a Declaração Universal dos
Direitos Humanos e os Pactos dela derivados, nomeadamente, para o tema deste
artigo, o Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais.
Aquilo que a comunidade das nações, reunida sob a égide da Organização das
Nações Unidas, quis tornar real há algumas dezenas de anos, está, agora, a ser
considerado como uma irrealista utopia económica e social.
Ainda, recentemente, o Prof. António Rial Sanchez, da
Universidade de Santiago de Compostela disse, em artigo publicado na revista [1]
“Dirigir e Formar”, que “A sociedade
foi, é e será sempre evolutiva e, em cada momento histórico, é necessário repensar a partir do presente, sem
esquecer nem deixar de ter em conta o passado para poder construir o futuro.
Acreditamos em algumas das premonições, como as que Aldous Huxley escreveu em
1931 no livro Admirável Mundo Novo, relativamente ao facto de as tecnologias
poderem vir a condicionar as nossas vidas e melhorá-las, mas também sobre o
prenúncio de que podem dar origem a uma sociedade de «castas», que é o que tem
de ser evitado. É certo que Aldous o matiza, dizendo que isso apenas irá
ocorrer se a sociedade, ou parte dela, mantiver o modo de pensar, que surgiu de
correntes psicológicas clássicas imobilistas. Penso que hoje em dia a maioria
dos cidadãos considera estas abordagens ultrapassadas, mas todos sabemos que
«ainda resta alguma coisa» desses pensamentos e, se não estivermos atentos,
podem voltar a rejuvenescer velhas perversões, embora prefira deixar este
último ponto, apesar de o entender deste modo, à interpretação do leitor e à
sua maneira de pensar.
O antídoto
para isso é aspirar a ter uma sociedade que, em primeiro lugar, não se esqueça
dos princípios humanistas. O ser humano reage tarde ou é facilmente enganado perante
qualquer genialidade, quer seja tecnológica ou abstrata, como o podem ser,
atualmente, conceitos manipulados num mundo de pós-verdades, como «o mercado »,
os «fundos abutres» ou outras genialidades, para as quais não faltam atores, em
todas as classes sociais, trazendo, como consequência, decisões que favorecem
uns para escravizar outros. Para lutar contra isto, a sociedade actual, e a que
se aproxima, possuem recursos materiais, ferramentas e capital humano para
reajustar os elementos essenciais, a formação, o trabalho digno, a investigação
e a inovação, que têm de preconizar novas fórmulas e preparar-nos para uma nova sociedade, que está a
surgir.
Encontramo-nos
no limiar de um novo paradigma, cunhado por Klaus Schwab[2] como
Quarta Revolução Industrial. É uma revolução «coperniciana» no que diz respeito
aos outros mas com uma voracidade incalculável quanto às alterações que
provoca, deixando muito pouca margem para erros quanto aos seus efeitos. Esta
revolução é fruto da evolução tecnológica, gerada, em parte, pelas anteriores
revoluções industriais, com o apoio da investigação, verdadeiro motor de
mudanças e de efeitos que, até ao momento, eram pouco previsíveis e,
atualmente, fazem, inclusive, com que existam tecnologias que estão
ultrapassadas antes de serem colocadas em funcionamento. Aponta, e, de facto,
assim está a acontecer, para alterações sustentadas na robótica, na
inteligência artificial, na nanotecnologia, na biotecnologia, na computação
quântica, na Internet das coisas, na impressão 3D, que dão lugar a uma segunda
ou terceira era do maquinismo, que as torna inteligentes e com uma ampla margem
de autonomia. Um reflexo anedótico desta revolução pode ser «um agricultor a
tomar o pequeno-almoço no terraço enquanto o seu trator está a arar, a preparar
e a semear o seu terreno».
O cenário é
um mundo globalizado onde o trabalho é o meio para satisfazer as necessidades
das pessoas. Atualmente, estas necessidades só são compreensíveis a partir do
conceito do «trabalho digno», termo que a OIT cunhou e utiliza, principalmente
desde o início deste século, para tentar alcançar este objetivo, mobilizando as
envolventes do trabalho, procurando apoio e criando ferramentas, como a
implementação da educação, da saúde, da
igualdade de oportunidades, a eliminação da exclusão, a democratização, a
personalização dos serviços e, de um modo geral em relação à formação, o
aumento e generalização da formação básica
e a continuidade da formação
contínua... e, em relação ao trabalho, a «concretização desse trabalho digno (decente), tanto para o homem
como para a mulher, remunerado em condições de liberdade, segurança e dignidade
humana», lançando um desafio aos «políticos» para que deixem de tratar o
emprego como um tema residual e coloquem o trabalho digno no centro da política.”
A invocação de Aldous Huxley e o seu
“Admirável Mundo Novo” é oportuna e merecedora da reflexão. A reedição deste
livro pela “Antígona” em 2013 (a primeira publicação data de 1932, tendo sido
escrito em 1931), refere, na dobra da capa, a apreciação do autor, pouco antes
da sua morte em 1963, de que o livro[3] “…é
uma parábola fantástica sobre a desumanização dos seres humanos. Na utopia
negativa descrita no livro, o Homem foi subjugado pelas suas invenções.
A ciência, a tecnologia, e a organização
social deixaram de estar ao serviço do Homem; tornaram-se os seus amos. Desde a
publicação deste livro, o mundo rumou a passos tão largos na direcção errada,
que, se eu escrevesse hoje a mesma obra, a acção não distanciaria seiscentos
anos do presente, mas somente duzentos. O preço da liberdade, e até da simples
humanidade, é a vigilância eterna.”
Se Aldous Huxley fosse vivo, hoje diria que
a parábola que escreveu, prevista para a sociedade do ano de 2540, está a
concretizar-se na actualidade. Isto mostra a velocidade a que estão a acontecer
as mudanças sociais, antecipando, no tempo, visões de futuros, ainda
recentemente, parecendo longínquos.
Sobre os novos tempos que se avizinham,
retomemos o Prof. António Rial Sanchez, quando constata: “Estamos a iniciar a
Revolução 4.0, que representa uma mudança exponencial em relação ao que a
Terceira Revolução Industrial nos concedeu, dado que aproveita a totalidade da
sociedade do conhecimento.
A OIT faz
uma retrospetiva dos seus 100 anos e uma previsão dos novos cenários que se
presume irão exigir novas formas de trabalhar e as medidas que têm de ser
adotadas para mitigar os seus efeitos no «trabalho digno».
Estes novos
desafios vêm juntar-se aos já existentes e ameaçam agravá-los (OIT 2018). Até
2030 é preciso criar 344 milhões de empregos, além dos 190 milhões de empregos que
são necessários para pôr fim ao desemprego atual, ou seja, um total de 534
milhões de novos empregos.
Outros
problemas que os Estados têm de solucionar de imediato em muitos países é o
acesso aos meios digitais. Apenas 53,6% dos lares têm acesso à Internet. Nos
países emergentes, a percentagem é de apenas 15%. É necessário corrigir muitos desajustes
e abusos que estão a ocorrer. (…)
Estabelecer
uma Garantia Laboral Universal que proporcione uma base de proteção social para
todos os trabalhadores, designadamente direitos fundamentais dos trabalhadores,
organização e limite do tempo de trabalho, apesar de ser um feito alcançado na
Segunda Revolução Industrial tem permanecido esquecido. Assegurar a representação
coletiva dos trabalhadores e empregadores através do diálogo social, promovido
através de políticas públicas. Potenciar e gerir a tecnologia a favor do
trabalho digno e adotar uma abordagem da inteligência artificial baseada no
controlo humano. Aumentar o investimento no trabalho digno e sustentável. Criar
incentivos para promover investimentos em áreas-chave para o trabalho digno e sustentável.
Rever as estruturas de incentivos às empresas a favor de abordagens de
investimento de mais longo prazo na economia real e explorar indicadores
adicionais de desenvolvimento humano e bem-estar.”
Tendo as
previsões e propostas da OIT sido elaboradas no ano passado, já olhamos para
elas como utópicas e ultrapassadas pela realidade vigente. Basta atentar na
situação, dos professores contratados em Portugal, que, mesmo com mais de 20
anos consecutivos de serviço, em múltiplas escolas e com horários frequentemente
incompletos, continuam precários, com o salário de início de carreira, violando
o princípio, comparativamente com os professores efectivos, de para trabalho
igual, salário igual.
Desde há
alguns anos tenho vindo a reflectir e a escrever sobre o desfasamento entre o
consignado nos grandes referenciais políticos económicos e sociais (utopias?) e
a evolução da realidade, constatando que não é cómodo, para mim, viver
com muitas das facetas que hoje caracterizam o mundo. Atualizando o que tenho
dito, nos mais de 70 anos que levo de vida, sinto que se assiste a uma dinâmica
de retrocesso naquilo que de mais importante existe nas relações entre pessoas:
uma cultura humanista de liberdade, de tolerância, de fraternidade e de paz.
Há
um retrocesso numa cultura de liberdade já que as formas de intimidação e
repressão são cada vez mais assustadoras, impondo às pessoas uma postura de
medo e cobardia inibidoras duma vivência em liberdade. Quem se assume
livremente quando a necessidade de ganhar dinheiro obriga à aceitação de
salários e condições de precariedade próximas dos regimes de escravatura? Quem
se assume livre perante a vigilância a que se é sujeito nas mais variadas
formas e pelas mais diversas entidades?
Há
um retrocesso numa cultura de tolerância já que se assiste a uma não aceitação
do outro com a sua identidade que deve ser respeitada. Veja-se o que se passa
com a dificuldade da integração dos jovens em que a escola e a entrada no mundo
do trabalho são cada vez mais obstáculos de monta, não reconhecendo às crianças
e aos jovens que são portadores de grandes valias a quem os adultos devem abrir
portas e não criar problemas acrescidos.
Há
um retrocesso numa cultura de fraternidade com exemplos bem patentes no
vergonhoso desastre humanitário dos refugiados e no fosso escandaloso entre
pobres e ricos, provocando situações de marginalidade e exclusão social
indignas duma sociedade humana. Isto potencia a criminalidade social o que leva
à destruição da estrutura familiar e às prisões (instituições medievais
impróprias duma sociedade do século XXI).
Há
um retrocesso numa cultura de paz já que se há característica bem marcante dos
dias de hoje é a agressividade entre as pessoas, entre as instituições e entre
os Estados. São cada vez mais os desajustamentos familiares com os divórcios
consequentes (processos dolorosos nomeadamente quando os filhos inocentes são
os que mais sofrem), são cada vez mais os processos judiciais com as penhoras e
execuções sempre lamentáveis, são cada vez mais insultuosas as trocas de “piropos”
entre os partidos políticos (que deviam ser a fonte do exemplo), existindo
espalhadas pelo mundo guerras e conflitos entre Estados e organizações que
provocam vítimas e ódios difíceis de esquecer (Afeganistão; Iraque; Síria, Congo;
País Basco/Catalunha; Palestina; etc…). Há um crescendo de formas de exercício
do poder político que se assumem autoritárias, prepotentes, nepotistas,
cleptocratas e fomentadoras do ódio e da discriminação (USA, Brasil, Filipinas,
Arábia Saudita, Itália, Rússia, Hungria, China, Líbia, Coreia do Norte, etc…).
Como
não me revejo neste estado do mundo só me resta deixar este testemunho às
minhas filhas, aos meus netos e a todos os jovens de que isto que se está
passar, e que os afecta gravemente, não tem o meu acordo. Não em meu nome!
Na construção
desta sociedade perversa, assustadoramente, assistimos neste início dum
novo século a novas e preocupantes facetas nas relações entre os cidadãos e
entre estes e a organização social, parecendo que se está a construir um novo
modelo ao arrepio daquilo que era apontado como os melhores suportes da
estrutura social.
Mas é
inquestionável que a solidez de todas as construções está intrinsecamente
ligada à boa resistência e harmonia dos seus pilares, nos quais se apoia a
malha envolvente que explicita a estética idealizada. Sem pilares sólidos toda
a construção é vulnerável, tornando-se efémera e de pouca confiança.
Assim, também,
se passa na construção das relações humanas que, para ser sólida e harmoniosa,
necessita de pilares consistentes e bem construídos, desempenhando papel mestre
os pilares da ética e da cidadania.
Para a sua
execução é imprescindível que todos os obreiros sejam exímios nos domínios do
bem, de que se destacam a verdade, a honra, a vergonha, o brio, a solidariedade
e a tolerância. Sem a observância destes domínios, a construção das relações
humanas não resistirá à mais pequena brisa.
A sua concepção
e manutenção têm de integrar a força, a beleza e a sabedoria, colunas mestras,
estas, sempre necessárias a toda a obra que aspira à perfeição. A força da
vontade, a beleza dos olhos nos olhos e a sabedoria do conhecimento certo.
A ética e a cidadania são pilares em que tem de assentar toda a construção das relações humanas, sendo obrigatório que a liberdade, a igualdade e a fraternidade, sejam o cimento que os solidifica. A liberdade do respeito pela diferença, sem imposições do lobby e da ditadura da maioria ou da sabotagem da minoria; a igualdade tal como ela é proclamada no artº 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”; a fraternidade da partilha, bem expressa no lema “Por pouco que se tenha deve chegar sempre para ajudar os outros”.
Todavia, outros materiais tentadores e, porventura, mais fáceis, são colocados à nossa disposição: a inveja, a vingança, a ingratidão, o egoísmo, a intolerância, a demagogia, a ambição desmedida, o ódio, etc..., são elementos que poderão edificar ilusoriamente uma construção faustosa mas que ruirá, mais tarde ou mais cedo, deixando a quem nela se abrigou o relento da frustração, se ainda não tiver sido bloqueado o domínio do seu livre pensamento.
A ética e a cidadania são pilares em que tem de assentar toda a construção das relações humanas, sendo obrigatório que a liberdade, a igualdade e a fraternidade, sejam o cimento que os solidifica. A liberdade do respeito pela diferença, sem imposições do lobby e da ditadura da maioria ou da sabotagem da minoria; a igualdade tal como ela é proclamada no artº 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”; a fraternidade da partilha, bem expressa no lema “Por pouco que se tenha deve chegar sempre para ajudar os outros”.
Todavia, outros materiais tentadores e, porventura, mais fáceis, são colocados à nossa disposição: a inveja, a vingança, a ingratidão, o egoísmo, a intolerância, a demagogia, a ambição desmedida, o ódio, etc..., são elementos que poderão edificar ilusoriamente uma construção faustosa mas que ruirá, mais tarde ou mais cedo, deixando a quem nela se abrigou o relento da frustração, se ainda não tiver sido bloqueado o domínio do seu livre pensamento.
E quando isto
acontece, quando a consciência fica obliterada, quando a escuridão ameaça tapar
a luz, meditemos no que disse o poeta e filósofo francês do século XVI, Etienne
de la Botie,[4]: “Dignos de dó são aqueles que vivem com a canga no pescoço. Devem ser
desculpados e perdoados, pois, nunca tendo visto sequer a sombra da liberdade e
ninguém nunca lha tendo mostrado, não sabem como é mau serem escravos. Há
países em que o sol aparece de modo diverso daquele a que estamos habituados:
depois de brilhar durante seis meses seguidos, deixa-os ficar mergulhados na
escuridão, nunca os visitando durante meio ano; se os que nasceram durante essa
longa noite nunca tivessem ouvido falar do dia, seria de espantar que eles se
habituassem à treva em que nasceram e nunca desejassem a luz?”
Etienne de la
Botie viveu numa época em que a escravatura era assumida como realidade social,
sendo os escravos uma mais valia a quem os seus “senhores” proporcionavam
condições de alojamento, saúde e alimentação para permitir disporem de mão de
obra para os trabalhos necessários. A escravatura moderna do século XXI
desonerou os “senhores” da necessidade de sustento dos seus escravos,
pagando-lhes, apenas, salários exíguos, em situações instáveis e de precariedade,
e os novos escravos que tratem dos meios para viverem. Há escravos a competirem
por condições de sobrevivência, em quantidade suficiente, que permitem o
funcionamento da economia sem grandes compromissos dos seus “senhores” e da
nova burguesia de serventuários medianamente remunerados.
Relativamente
à perda de controle que os seres humanos estão a ter na sua vida, o escritor
contemporâneo Amin Maalouf[5], em
entrevista ao jornal Público de 20/07/2019, declarou: “Estas tecnologias que
tanto nos dão no domínio do conhecimento e da comunicação, estão a fazer-nos
derrapar cada vez mais para o controlo por causa do medo. Um controlo que pode
tornar-se incontrolável: podemos ouvir tudo, o que toda a gente diz, escreveu,
para onde vai. Estamos num mundo em que as tecnologias colidem cada vez mais
com as liberdades e, ainda por cima, concordamos com isso.”….” Mas a dado
momento será preciso pensar num sistema que possa fazer ao conjunto da
população que é parte envolvida no progresso. Desde há 40 anos, temos tendência
a aceitar que alguns possam tornar-se muito ricos e os outros que se safem. É
um quadro perigoso. Em França tivemos um alerta com os coletes amarelos. Não
sei em que momento poderá degenerar. Sente-se um mal-estar e isso poderá
revelar-se explosivo.”
Este
mal estar é patente em todos aqueles que, ainda, resistem em pensar “fora da
caixa”, em terem pensamento próprio. O jornal de expressão anarquista “A
Batalha”[6]
conclama, na sua edição de Mai/Jun 2019, com um artigo “Abandonai os vossos cartazes” em que termina: “ (…) Não vai haver mudanças vindas de cima. Devemos parar de
pedir aos nossos governantes que façam o oposto dos seus interesses – devemos,
isso sim, vencer quem nos domina e os seus interesses. (…)
Chegamos
à destruição irreversível dos espaços poéticos.(…)”
Resta a questão: Como construir uma sociedade que integre uma
utopia económica e social? Vivemos tempos que apelam às utopias ou estamos
perante distopias? Como encarar o número cada vez maior de personalidades
relevantes, de vários quadrantes políticos, que assumem estarmos perante uma
distopia com uma dinâmica de opressão, assustadora e totalitária?
Como ligar este processo em curso com “O Processo” de Franz
Kafka, de há um século?
Desde há mais de dois séculos que os ideais de liberdade, igualdade
e fraternidade fizeram parte da utopia desejada, com solidez filosófica e
construção prática em crescendo. Tais valores começaram a ser questionados a
partir de finais do século passado, assistindo-se, hoje, a um recuo na sua
vivência, podendo-se constatar que as grandes causas estão a ser postas em
causa, de que a escravatura moderna é um exemplo. A Paz, a Liberdade, a
Justiça, a Dignidade, a Solidariedade, a Educação, A Moral, a Ética, o Amor, a
Fé, etc..., sendo pilares necessários à solidez das relações humanas, correm o
risco de se desagregarem, já que assistimos, com justificações em que se
encontra ausente a sensatez e a sabedoria, à tentativa da sua subalternização
por pseudovalores que se querem colocar acima do Homem, quando deveriam estar
ao serviço do Homem. Os direitos básicos de dignidade humana como a saúde, a
alimentação, a educação, a habitação, o trabalho digno, a justiça, o usufruto
de serviços públicos essenciais, etc…, estão em regressão, sendo substituídos
por bens sujeitos às leis do mercado, deixando de fora quem não dispõe de poder
económico para a eles aceder.
A manipulação através dos órgãos de comunicação social está a
atingir níveis tais como os que George Orwell descreveu no seu livro 1984 e nos
deixou em antevisão (escrito há 70 anos), já que os seres humanos têm cada vez
menos controle sobre as suas competências emocionais. Os grandes referenciais
de vivência da Humanidade, nomeadamente os construídos na segunda metade do
século XX, que incluem os da economia e da sociologia, estão-se a tornar-se
utopias cada vez mais distantes, parecendo que a sociedade está a desistir da
sua defesa e aprofundamento.
É urgente a construção duma nova ordem política, económica,
social e cultural.
Tempos difíceis se avizinham.
Manuel Hipólito Almeida dos Santos
Referências bibliográficas:
Botie, Etienne de la – “Discurso Sobre a
Servidão Voluntária”
Huxley, A. – “Admirável
Mundo Novo”- Ed. Antígona [2013]
Kafka, Franz – “O Processo”
Orwell, George – “1984”
Pimprenelle – jornal “A Batalha” [Mai/Jul 2019]
Rial Sanchez, A. - “O Futuro do Trabalho” - revista “Dirigir e Formar”, - [Jul/Set 2019]
Santos, M. Almeida dos – “Questões de Ética
e Cidadania” [2000]
Santos, M. Almeida dos – “ONG’s Passado e
Presente – Uma experiência pessoal” [2014]
Schwab, K., -
“Fórum Económico Mundial 2016”
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
RESUMO
A felicidade, enquanto utopia objectivamente indefinida, tem
sido uma desejada constante de referência na vida de todos os seres humanos.
Como todas as utopias, a sua construção permanente assenta numa multiplicidade
de factores, de que os económicos e sociais são parcela relevante, com uma
flutuação evolutiva inconstante de que a história nos dá o seu registo. Neste
início de século XXI estamos a assistir a uma regressão nos caminhos para a
utopia da felicidade, nomeadamente nos económicos e sociais, com uma
passividade espantosa daqueles que mais são atingidos.
[5] Maalouf, A., - “jornal
Público de 20/07/2019”
[6] Pimprenelle – jornal “A
Batalha” – Mai/Jul 2019
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