quarta-feira, 7 de abril de 2010

Serviços Públicos Essenciais - Um Direito

Senhor Primeiro- Ministro Engº José Sócrates
Excelência
Encontrando-me ligado como voluntário a entidades de cariz humanitário tenho vindo a constatar o aparecimento, cada vez mais frequente, de situações de famílias privadas do fornecimento de energia eléctrica e de água da rede pública, por razões de incapacidade económica para o pagamento dos respectivos consumos e encargos obrigatórios. Face aos padrões civilizacionais considerados mínimos neste início do século XXI ocorre perguntar: Como é possível viver sem água e sem luz de acesso assegurado? Como é possível que as crianças tenham aproveitamento escolar sem água e sem luz acessíveis? Como é possível assumirmos que vivemos no conjunto de países mais desenvolvidos de mundo se não conseguimos assegurar o acesso à água e à luz a todas as famílias? E poderia continuar por aqui fora a fazer perguntas. Senhor Primeiro-Ministro Solicito-lhe que considere a seguinte sugestão: Estabeleça-se uma capitação mínima gratuita de água e luz a que todos os cidadãos tenham direito e que lhes permita a dignidade exigível para uma vida civilizada. Acima desta capitação as tarifas seriam ajustadas de forma a contemplar os valores do fornecimento gratuito básico. Não é difícil fazer o estudo económico desta medida de grande alcance social. Estou disponível para participar em qualquer grupo de trabalho que se disponha a estudar a execução desta sugestão. Certo de que Vossa Excelência será sensível ao exposto, apresento os meus cordiais cumprimentos

A Conflituosidade nas Escolas

Senhora Ministra da Educação
Senhoras Deputadas e Senhores Deputados

Encontro-me ligado ao sistema educativo há dezenas de anos, como professor e formador, como pai e membro de associações de pais, como dirigente e activista de ONG(s) que trabalham em áreas com ligações estreitas à educação. Como tal, tenho vindo a acompanhar com interesse os recentes desenvolvimentos, nomeadamente os que se encontram ligados em particular à conflituosidade nas escolas.

É a segunda vez que em poucas semanas me dirijo a Vossa Excelência e a razão principal prende-se com a dinâmica recente de centrar a responsabilidade dessa conflituosidade nos alunos (crianças), parecendo esquecer que se trata de seres humanos de especial vulnerabilidade, inimputáveis até aos 16 anos, relegando para o quase esquecimento a responsabilidade principal que cabe a quem tem as funções de gerir a escola – os professores, na sua qualidade de directores de escola ou de turma, e dos conselhos e outras estruturas que a constituem. Para reivindicarem diminuições de horário ou remunerações acrescidas os professores não se cansam de apontar as responsabilidades dessas funções, mas para enfrentarem as dificuldades inerentes a tais funções preferem atirar as culpas para os alunos (crianças).

Eu próprio tive uma experiência recente onde pude comprovar tal. Um neto meu, aluno da Escola EB 2/3 Soares dos Reis em V.N.Gaia, foi objecto dum procedimento disciplinar injusto nessa escola, que é neste momento objecto de recurso hierárquico para o Director da DREN, em que eu, por razão circunstancial (a escola alega que não conseguiu contactar o encarregado de educação do meu neto – meu genro), participei em quase todo o processo subsequente à ocorrência. Pois desde negligência e incapacidade da professora da aula em que ocorreu o incidente (Profª. Cristina Santos de Português) precedido de acções de bullying, ao procedimento incorrecto da Directora da Escola (Profª Manuela Machado) e à postura de dar o dito por não dito e de uso excessivo de força física por parte do Prof. Francisco Faria, foram os professores os maiores responsáveis por um incidente grave que levou a que os pais do meu neto (ambos professores) tivessem de imediato desencadeado o processo de transferência de escola (em anexo envio o depoimento que prestei no procedimento disciplinar instaurado).
Em acréscimo, o procedimento disciplinar instaurado está eivado de irregularidades formais e de omissões fundamentais, o que não abona em favor daquilo em que os professores não podem falhar: o dever de darem o exemplo na defesa da verdade, da verticalidade de atitudes e do rigor dos procedimentos.
Este caso é um exemplo que deveria ser exaustivamente investigado para efeitos de natureza pedagógica e de responsabilização de quem tem de ser responsabilizado.

Excelentíssima Senhora Ministra - Senhoras e Senhores Deputados

É com alguma mágoa que constato o que atrás exponho. Faço-o com o conhecimento da experiência que advém de em toda a minha vida ter tido ligações ao sistema educativo como atrás refiro (acresce que sou avaliador externo dos Centros Novas Oportunidades acreditado pela Agência Nacional para a Qualificação). Uma das facetas do desajustamento das crianças no meio escolar radica na maior cultura de muitos alunos relativamente a muitos adultos, incluindo professores. Dominam melhor as tecnologias de informação e comunicação, sabem melhor línguas estrangeiras, são mais conhecedores de actividades curriculares e extra-curriculares (música, desporto, artes plásticas, etc…). Só numa coisa são sempre inferiores aos adultos: não têm personalidade jurídica, nem maturidade, nem organizações ou estruturas para se defenderem dos atropelos dos adultos. Eu sei que este discurso é contra a corrente actualmente em voga. Mas ao longo da história as correntes minoritárias tiveram sempre dificuldade em fazer passar a sua mensagem ainda que o futuro, muitas vezes, lhes tenha vindo a dar razão.
As crianças são as menos responsáveis pela conflituosidade nas escolas. Antes delas há que olhar para os professores, para os encarregados de educação e para a comunidade. As crianças são o produto das acções destas entidades. Se as crianças têm um comportamento desadequado é porque os professores, os encarregados de educação e a comunidade não estão a portar-se bem. E não é justo imputar a responsabilidade a quem não tem as possibilidades de defesa que têm os adultos, não tem sindicatos que as represente, nem têm a experiência suficiente que lhes permita conhecer os meios que as protejam. Quantas crianças conhecem a Convenção dos Direitos da Criança ou o Estatuto do Aluno?
Citando Pedro Dores – Revista A Ideia – Março 2010: “ Perante a violência, não nos resta outra coisa senão tomar partido. O meu é claro e assumido: na dúvida vou pelo lado dos mais fracos. Sinto-me forte suficiente para tal e não saberei ser mais forte ainda se não elevar o meu nível de repugnância pela violência do Estado e das instituições. Não por a culpa dos fracos ficar diminuída. Sim, por serem menos violentos, seja em qualidade seja em quantidade, independentemente da vontade que tenham. Precisamente por serem fracos.”

No processo em curso de revisão do estatuto do aluno as crianças não podem ficar com o ónus dos maus da fita. Não nos esqueçamos do que Fernando Pessoa nos legou “…Grande é a poesia, a bondade e as danças. Mas o melhor do mundo são as crianças”.

Estou ao dispor para o que entender no sentido de defender os mais vulneráveis e indefesos: As Crianças.

Abril 2010

As crianças são as maiores vítimas da violência nas escolas

As Crianças são as Maiores Vítimas da Violência nas Escolas


Tem vindo o País a ser alertado para o problema da violência escolar e todos nós temos obrigação de estarmos atentos aquilo que rodeia as nossas crianças.
Sou avô de dois netos e pai de duas filhas, pertencendo aquilo a que se convencionou chamar de família tradicional, e fiquei preocupado com o centrar da culpabilidade da violência escolar nas crianças.
Da minha experiência retiro a convicção de que as crianças são as menos culpadas, já que antes temos de averiguar qual a responsabilidade da sociedade no seu todo (responsáveis políticos, pais, familiares e professores). E os exemplos que estão por todo o lado destas entidades não são os mais recomendáveis. Como podemos exigir das crianças respeito pelos colegas e pelos professores se os membros dessas instituições da comunidade se insultam, caluniam e agridem impunemente, sendo um mau exemplo de cidadania? Como podemos querer que as nossas crianças se pautem pelo respeito de valores éticos e comportamentais se aquilo que vêem nos adultos com responsabilidades é o contrário do que lhes é exigido? Como queremos que as crianças respeitem os professores se aquilo que vimos nos últimos anos nas relações entre estes e o Governo foi o que se pode dizer de mais anti-pedagógico e não fomentador dum clima de paz, civismo e concórdia?
É urgente respeitar as crianças e não lhes imputar culpas que são mais exigíveis aos adultos. O estatuto do aluno não deve ser alterado retirando aquilo que defende as crianças. Não é o estatuto do aluno que está errado. O que está errado são os maus exemplos dados pelos adultos, havendo que responsabilizar os pais e os professores pela sua incompetência e irresponsabilidade.
No meio de tudo isto as crianças são as maiores vítimas.
As crianças são o elo mais fraco da cadeia até porque não têm voz audível, não votam, nem podem ameaçar fazer greve. Querer agora colocá-las ao nível dos criminosos mais graves, atribuindo o estatuto de crime público às reacções das crianças em meio escolar é uma violência e uma desproporcionalidade que me choca. Além de ser uma forma de admissibilidade de fraqueza por parte dos professores, inadmissível em quem quer ser responsável pela nobre tarefa de participar na educação de crianças.
Porque estamos obrigados a respeitar a Convenção dos Direitos da Criança (Portugal é Estado-Parte), tenhamos cuidado na fragilização da condição das crianças.
É arrepiante que as crianças, quando ouvem os noticiários, sintam que os responsáveis políticos as estão a culpar por coisas cuja responsabilidade é, em muito maior grau, de quem as culpa.
Nunca esqueçamos o que Fernando Pessoa nos deixou em legado sobre as crianças. "Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do Mundo são as Crianças".


22 de Março de 2010

terça-feira, 5 de maio de 2009

O Exemplo de S. Martinho


Dois aspectos principais se associam a este santo: O magusto que tem o seu ponto alto no dia de S. Martinho (11 de Novembro) e a lenda a que se encontra ligado.
O magusto é definido por ser uma festa popular de celebração comunitária em que pessoas unidas por laços afectivos se juntam comendo castanhas em espírito de partilha e de fraternidade.
A lenda de S. Martinho transporta-nos para o sublime acto de partilha e caridade demonstrado pelo santo, quando, num dia de mau tempo, dividiu ao meio a sua capa com um pobre tiritando de frio que encontrou no seu caminho, acto após o qual se deu o milagre da transformação do frio e chuva desse dia numa temperatura estival de céu soalheiro e quente (O chamado verão de S. Martinho). Esta lenda colocou a cidade francesa de Tours, onde o santo foi sepultado, num ponto alto de peregrinação religiosa em tempos ainda recentes, a seguir a Roma e Jerusalém (S. Tiago de Compostela é posterior a Tours como cidade de grandes peregrinações).
Portanto, a comemoração do S. Martinho tem como grandes valores de base os sentimentos de partilha e fraternidade.
E aqui encontramos profunda identificação com os valores que deviam nortear a nossa acção de cidadãos, sendo uma boa oportunidade para reflectirmos sobre o que podemos fazer com os necessitados que connosco se cruzam no nosso caminho. Perguntou o santo ao mendigo se ele já tinha procurado trabalho? Perguntou o santo ao mendigo se ele aplicava bem as esmolas que lhe davam? Perguntou o santo ao mendigo se ele não tinha família ou amigos que o ajudassem? Não. Perante alguém que precisava de ajuda partilhou aquilo que possuía, sem perguntas que lhe dessem a desculpa de seguir em frente passando a responsabilidade para o mendigo que estava naquela condição por sua própria culpa.
E o que vemos nos dias de hoje? Não é confrangedor assistirmos ao bradar constante das organizações que apoiam os necessitados de que não estamos no bom caminho? Ainda no fim de ano passado a organização ecuménica Comissão Nacional Justiça e Paz exortou a sociedade a fomentar uma cultura de «aversão a desigualdades», denunciando preconceitos como os que consideram os pobres preguiçosos, incompetentes, dependentes, responsáveis pela sua situação, não credíveis e perigosos. É que a maioria dos pobres trabalha, tem um emprego pesado, longo e mal pago, além dos muitos que estão desempregados (há por ex: em Portugal 60.000 desempregados licenciados) e sem apoios de qualquer natureza, já que na maioria dos casos as próprias famílias são carenciadas. Neste encontro, que contou com a presença de altos responsáveis do Estado foi perguntado pela presidente da CNJP Dra. Manuela Silva: Quem aceita estes preconceitos associados aos pobres consegue viver, de forma diga, com 370 euros por mês?” (Indicador para Portugal do limiar de pobreza).
A realidade que ninguém contesta de que há um agravar do fosso entre abastados e necessitados tem de nos chocar. Quando comemorarmos o magusto de S. Martinho olhemos como ele olhou para o caminho e certamente encontraremos muitos com quem poderemos partilhar o que temos, com aqueles que pouco ou nada têm. É que lembremo-nos que por pouco que se tenha deve chegar sempre para ajudar os outros.
Ainda não há muito tempo um insigne cidadão da cidade do Porto, Engº Francisco de Almeida e Sousa, assumia na sua coluna periódica no Jornal de Notícias que, na dúvida, prefiria dar a quem não precisa do que não dar a quem precisa. Cá temos um bom seguidor de S. Martinho. Porque não o imitamos?

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A construção duma Sociedade Preversa

Assustadoramente, assistimos nesta transição de século a novas e preocupantes facetas nas relações entre os cidadãos e entre estes e a organização social, parecendo que se está a construir um novo modelo ao arrepio daquilo que era apontado como os melhores suportes da estrutura social.

Mas é inquestionável que a solidez de todas as construções está intrinsecamente ligada à boa resistência e harmonia dos seus pilares, nos quais se apoia a malha envolvente que explicita a estética idealizada. Sem pilares sólidos toda a construção é vulnerável, tornando-se efémera e de pouca confiança.

Assim, também, se passa na construção das relações humanas que, para ser sólida e harmoniosa, necessita de pilares consistentes e bem construídos, desempenhando papel mestre os pilares da ética e da cidadania.
Para a sua execução é imprescindível que todos os obreiros sejam exímios nos domínios do bem, de que se destacam a verdade, a honra, a vergonha, o brio, a solidariedade e a tolerância. Sem a observância destes domínios, a construção das relações humanas não resistirá à mais pequena brisa.
A sua concepção e manutenção têm de integrar a força, a beleza e a sabedoria, colunas mestras estas sempre necessárias a toda a obra que aspira à perfeição. A força da vontade, a beleza dos olhos nos olhos e a sabedoria do conhecimento certo.
A ética e a cidadania são pilares em que tem de assentar toda a construção das relações humanas, sendo obrigatório que a liberdade, a igualdade e a fraternidade, sejam o cimento que os solidifica. A liberdade do respeito pela diferença, sem imposições do lobby e da ditadura da maioria ou da sabotagem da minoria; a igualdade tal como ela é proclamada no artº 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”; a fraternidade da partilha, bem expressa no lema “Por pouco que se tenha deve chegar sempre para ajudar os outros”.
Todavia, outros materiais tentadores e, porventura, mais fáceis, são colocados à nossa disposição: a inveja, a vingança, a ingratidão, o egoísmo, a intolerância, a demagogia, a ambição desmedida, o ódio, etc..., são elementos que poderão edificar ilusoriamente uma construção faustosa mas que ruirá, mais tarde ou mais cedo, deixando a quem nela se abrigou o relento da frustração, se ainda não tiver sido bloqueado o domínio do seu livre pensamento.
E quando isto acontece, quando a consciência fica obliterada, quando a escuridão ameaça tapar a luz, meditemos no que disse o poeta e filósofo francês do século XVI, Etienne de la Botie, no seu livro Discurso Sobre a Servidão Voluntária: “Dignos de dó são aqueles que vivem com a canga no pescoço. Devem ser desculpados e perdoados, pois, nunca tendo visto sequer a sombra da liberdade e ninguém nunca lha tendo mostrado, não sabem como é mau serem escravos. Há países em que o sol aparece de modo diverso daquele a que estamos habituados: depois de brilhar durante seis meses seguidos, deixa-os ficar mergulhados na escuridão, nunca os visitando durante meio ano; se os que nasceram durante essa longa noite nunca tivessem ouvido falar do dia, seria de espantar que eles se habituassem à treva em que nasceram e nunca desejassem a luz?”

Na convicção de que a felicidade humana está ligada, umbilicalmente, à existência em paz duma consciência esclarecida, importa intervir para que o trilhar do caminho da vida seja feito sobre pilares de ética e cidadania, construídos com o esquadro, o nível e o fio de prumo, instrumentos indispensáveis à edificação de construções sólidas e duradouras de rectidão e justiça.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Uma visão humana das prisões

O testemunho sobre uma realidade como aquela que se vive nas prisões, numa perspectiva evangelizadora, não é fácil já que se tem de ter em conta os tipos de pessoas que lá se encontram e a natureza e finalidade desses espaços.
Há já alguns anos que contacto frequentemente com a realidade prisional, quer como activista de direitos humanos, quer como visitador católico. O contacto pessoal e fraterno que tenho tido com quem se encontra em situação de reclusão confirma que por detrás das grades não se encontram monstros ou seres horríveis, por muito grave que tenha sido o acto que para lá os atirou, sentindo que a responsabilidade por esses actos não se esgota no delinquente. João Paulo II na sua mensagem como Sumo Pontífice para o Jubileu nos Cárceres em 9 de Julho do ano 2000, constatava que “estamos ainda longe do momento em que a nossa consciência poderá estar certa de ter feito tudo o possível para prevenir a delinquência”.
A minha colaboração na acção evangelizadora junto dos presos nas cadeias tem-se processado nos estabelecimentos prisionais de Custóias, Paços de Ferreira e na cadeia masculina de Santa Cruz do Bispo, quer no apoio aos respectivos capelães prisionais, quer no contacto pessoal e directo com os reclusos. É uma acção de grande enriquecimento espiritual e de desenvolvimento lento ao longo do tempo. Os reclusos não se abrem facilmente, sendo poucos aqueles que estão disponíveis para os valores da fé e do espírito. No entanto, quando conseguimos ultrapassar a barreira da desconfiança e da descrença, surge um espaço de abertura que possibilita a aceitação da nossa acção evangelizadora. O ambiente pouco humano em que se desenrolam os dias nos espaços prisionais não facilita a disponibilidade de quem se encontra em reclusão para outra realidade que não seja aquela que se traduz em benefício concreto imediato. Por tal razão, a presença de reclusos nos espaços e momentos em que se desenvolvem as acções de evangelização é normalmente reduzida.
Deixem-me dizer-lhes de coração aberto. Por muito que tenhamos feito, por muito que tenhamos ajudado, não temos conseguido sequer beliscar o falido modelo de construção duma sociedade com criminosos. Não sou só eu que o digo. Têm-no dito os mais altos responsáveis a todos os níveis. Ainda não há muito tempo o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público declarou que “O actual sistema prisional está fora deste tempo e deste modelo de sociedade”. O padre Georgino Rocha, professor da Universidade Católica, disse-nos há pouco tempo que “Enquanto a situação nas prisões estiver como está não nos encontramos em vivência cristã”.
Como cristão devo ajudar sempre quem de mim precisa, independentemente das circunstâncias. Como cidadão quero dizer que temos de acabar muito rapidamente com este modelo de encarceramento de pessoas. As prisões não previnem o crime. As prisões não reparam os danos provocados às vítimas. As prisões não promovem a reinserção da maioria dos reclusos após o cumprimento da pena.
Vou referir brevemente três vivências pessoais que testemunhei.
Numa das visitas a uma reclusa encontrei na fila de entrada na prisão um homem jovem com uma criança ao colo, de 4/5 anos, com um ar triste e apagado. Por acaso voltamos a encontrar-nos na sala de visitas, lado a lado, e assisti à alegria da criança a saltar para os braços da sua mãe que se encontrava a cumprir pena de prisão, assim se mantendo agarrada durante a uma hora que dura a visita. E no final quem conseguia tirar a criança dos braços da sua mãe? Quantos gritos e choros, com a guarda prisional a insistir que a mãe tinha de regressar à cela e a criança a não querer deixá-la. Como é desumano uma criança ter de passar por tal sofrimento!
Num outro caso, durante uma campanha eleitoral um eminente político perguntava a um grupo de crianças o que é que elas iam pedir ao Pai Natal. Umas pediram bonecas, outros pistas de carrinhos. etc.., mas uma criança fez um pedido singular: só queria a mãe dela que estava presa há muito tempo. Nem bonecas, nem computadores, nem roupa nova. Só uma coisa: a sua mãe. Não é desumano que se prive uma criança da sua mãe?
Como irão comportar-se estas crianças quando adultas? Não é difícil prever quando se sabe que mais de 50% dos jovens reclusos vêm de famílias com pais de passado prisional.
Um outro caso ainda de há uma semana atrás. Um recluso ainda jovem (35 anos), que anda pelos estabelecimentos prisionais há quase 15 anos, por furto, tráfico de droga e assalto à mão armada, disse-me há oito dias: A vida nunca me deu oportunidade de me encontrar comigo mesmo. Não deveria ser necessário entrar na via do crime para nos descobrirmos interiormente. Assumo a responsabilidade por aquilo que fiz mas a contribuição para a construção do caminho que trilhei é mais alargada. Estou a perder aqui dentro uma fase importante da minha vida.
Não podemos continuar a viver numa sociedade de grandes injustiças em que as prisões são o lugar para muitos deserdados da fortuna que os levou, ou obrigou, a praticar actos que para lá os atiraram.
Esta realidade tem de ser mudada. Como todos os estudiosos da matéria nos têm dito, a experiência dos últimos 200 anos em que vigora este modelo penal mostra-nos o seu fracasso.
No passado mês de Janeiro, D. Carlos Azevedo, bispo com a responsabilidade na Conferência Episcopal pela pastoral prisional declarou no Encontro Nacional de Capelães e visitadores prisionais: Não só os que estão dentro das grades necessitam da conversão do olhar. Toda a sociedade necessita.
O exemplo de Cristo perante a mulher adúltera que queriam condenar como era uso no tempo deve ser o caminho a seguir. O que disse Jesus Cristo? Aquele que nunca errou que atire a primeira pedra. Como todos se retiraram Cristo disse à mulher: Também eu não te condeno. Vai e não voltes a pecar.
É neste comportamento de Cristo que temos de nos converter. Prevenir o pecado, reparar as suas consequências e perdoar quem errou. Não é isso que dizemos no Pai Nosso? (…perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…).
É isto que temos de fazer com aqueles que por vicissitudes da vida erram. Dar-lhes a oportunidade de não voltar a errar sem o ferrete da prisão, abrindo-lhes os caminhos que muitas vezes fomos nós que fechamos.
Assim sendo, a acção evangélica nas prisões é fundamental para que a vivência cristã não fique do lado de fora dos muros. Com os reclusos ouvindo-os e ajudando-os a abrir os caminhos da esperança. Com as suas famílias auxiliando-as nas necessidades evidentes que a prisão de um dos seus membros sempre acarreta, no objectivo de evitar que esta situação provoque a desestruturação da família, situação esta, infelizmente, muito frequente.
Termino, citando uma intervenção do capelão prisional do E.P. de Paços de Ferreira, Padre António Correia: A cadeia, tal como hoje a conhecemos, não foi inventada para curar ou reabilitar, mas para excluir, segregar ou marginalizar. E reconheça-se que o tem conseguido! O fim reabilitador da cadeia é um acrescento recente, mais ideológico que real, quando já não se podia suportar mais a sua crueldade inútil. A cadeia não reabilita porque não pode reabilitar! Ela não foi inventada para isso. Por isso, este tipo de cadeia só pode estar condenado a desaparecer. É óbvio que dá menos trabalho e despesa manter a situação como está. Sobretudo porque, diferentemente do hospital, quase só os que vivem nos porões da escala social, os que não têm relevo e peso social, vão parar à cadeia. E não são esses que decidem ou influenciam as mudanças…
Eu e os visitadores vicentinos tentamos possibilitar a presença de Jesus Cristo na cadeia. Contudo sabemos que não levamos Cristo à cadeia, pois quando chegamos para a visita, Cristo já lá está na pessoa do preso. Mesmo do preso que não aparece à nossa visita, que não vai à missa ou não conhece a Cristo. Não vamos lá salvar ninguém nem converter ninguém, a não ser nós próprios, talvez! É por isso que, em relação a nós, vamos aceitando tudo, silenciando vexames, injustiças, anomalias… Já em relação aos reclusos, a desatenção, os maus tratos, a negligência institucional e o incumprimento da lei e do regulamento penitenciário não deviam permitir que nos mantivéssemos calados. E por vezes fazemo-lo porque pesa mais a defesa da nossa presença nas cadeias do que os direitos dos reclusos.

Os reclusos e reclusas, todos os que se encontram dentro dos muros das prisões são nossos irmãos em Cristo. Temos de estar com eles.

terça-feira, 20 de maio de 2008

A Cerâmica no Dia a Dia

Cerâmica no dia a dia

NOÇÕES PRÁTICAS

Introdução

Apesar da cerâmica acompanhar a presença humana à face da Terra desde há milénios, continuamos a conviver com os mais variados produtos cerâmicos sem conhecer muitas das suas características, as formas mais adequadas de uso, os cuidados a ter na sua utilização, os inconvenientes de certos produtos e suas limitações, enfim, ignorando as qualidades e defeitos duma companhia com quem contactamos todos os dias, não tirando as vantagens que esse conhecimento proporciona.
A necessidade duma melhor compreensão das diferentes características dos produtos cerâmicos é cada vez mais pertinente, tendo em conta que o avanço científico e tecnológico nos põe em presença de exigências novas, sem que tenhamos tempo de sedimentar o saber da experiência que nos possibilite acompanhar e assimilar as principais e mais importantes potencialidades daquilo com que nos confrontamos.
Certamente que já nos interrogamos muitas vezes sobre certos aspectos inerentes à utilização de materiais cerâmicos. Quem é que já não se questionou sobre:
- Será que esta chávena pode ir ao micro-ondas?
- Será que os pratos que usamos são os mais adequados para lavar na máquina de lavar louça?
- Será que a louça com dourados tem algum inconveniente ou fragilidade?
- Porque é que algumas jarras marcam os fundos nos móveis e outras não?
- Porque é que alguns tipos de azulejos caem das paredes e outros não?
- Quais são as decorações que resistem à máquina de lavar?
- Qual o melhor tipo de louça para ir ao forno, ao congelador e à máquina de lavar?
Muitas destas e outras perguntas colocam-se-nos frequentemente, mas, por ausência de informação, passamos adiante e continuamos a usar os produtos orientados quase exclusivamente pelo preço, pela estética e pelo nome da fábrica. Ora, qualquer destes critérios pode nada ter a dizer com o fim a que destinamos as peças cerâmicas. Há peças caras que não são as melhores para fins comuns (Ex: as peças com ouro não devem ser utilizadas frequentemente em fins utilitários nem quando a louça é lavada em máquinas); há decorações bonitas mas que são desaconselháveis para colocar alimentos; há louças cuja composição mineralógica e porosidade são potenciais focos de doenças; etc. ...
Nos capítulos seguintes procurar-se-à responder a estas e outras questões, relacionadas com a cerâmica doméstica e decorativa.
A abordagem é feita propositadamente em termos práticos, procurando que os aspectos técnico‑científicos sejam expostos de forma mais acessível, deixando de lado questões e conceitos, assim como cerâmicas especiais e de consumo restrito, que por não se revestirem dum interesse mais imediato para o comum dos consumidores, poderiam tornar mais longa e menos prática esta publicação.

O que são Produtos Cerâmicos?

É clara a definição dum produto cerâmico: é todo o produto resultante da transformação irreversível de matérias primas naturais por acção do calor. O que quer dizer que misturando matérias primas naturais, em quantidades proporcionalmente calculadas, e submetendo esta pasta a uma temperatura suficientemente elevada para transformar essas matérias primas, estamos na presença dum produto cerâmico. Se é barro, faiança, grés, porcelana, vidro, etc. ..., isso depende das matérias primas, percentagens e temperaturas de cozedura que utilizamos . Mais adiante veremos as diferenças entre cada um dos produtos e suas formas de identificação. Mas quando falamos de cerâmica estamos a falar dum conjunto alargado de produtos, pelo que precisamos sempre de especificar mais pormenorizadamente aquilo a que nos queremos referir.
E quais são as matérias primas mais importantes usadas no fabrico das peças cerâmicas?
Tal como se disse, são naturais (existem tal e qual na natureza) e são do domínio comum: quartzo (a areia corrente é constituída maioritariamente por quartzo); feldspato (outro mineral comum e que é um dos constituintes do granito); misturas argilosas (a mais conhecida é o Caulino); outros materiais em menor percentagem mas que permitem efeitos e comportamentos necessários caso a caso (carbonatos, fosfatos, óxidos metálicos, etc. ...)
Estes materiais são tratados adequadamente (por ex: o quartzo e o feldspato têm de ser finamente moídos já que as dimensões em que aparecem na natureza não são ideais para fabricar pastas cerâmicas), misturados segundo proporções estudadas para cada produto (por ex: para fabricar porcelana é necessário preparar uma pasta com, aproximadamente, 50% de Caulino, 25% de quartzo e 25% de feldspato), moldados de acordo com as formas pretendidas, e submetidos a uma, ou mais, cozeduras. No final estamos na presença dum produto cerâmico e as matérias primas usadas na composição da pasta já se encontram transformadas, de forma que já não é possível separá-las e fazê-las voltar ao estado inicial, quer sob o ponto de vista químico, quer sob o ponto de vista mineralógico.Estamos então na presença dum produto cerâmico que resultou da transformação de matérias primas naturais por acção do calor.

Caracterização Básica dos Produtos Cerâmicos

Pode dizer-se que há uma característica (a porosidade) que divide os produtos cerâmicos em dois grandes grupos: produtos porosos e produtos não porosos.
Como a própria palavra indica os produtos porosos são aqueles que contêm poros na sua constituição, isto é, existem pequenos espaços (microscópicos) entre a estrutura constituinte do produto.
Por outro lado, os produtos não porosos são compactos, não tendo, portanto, qualquer poro na sua estrutura constituinte.
Como exemplos de produtos porosos podem referir-se os barros e as faianças.
Como não porosos temos o grés, a porcelana e o vidro (ou o pirex).
Esta característica (porosidade) é a primeira grande referência que devemos ter em conta na utilização dum produto cerâmico, já que a sua não observância pode proporcionar-nos surpresas desagradáveis. Esta característica é por si só indicativa sobre algumas aplicações utilitárias de peças correntes. Tratando-se de produtos porosos, o corpo da peça é constituído por materiais sólidos e espaços vazios (ainda que microscópicos), pelo que as peças porosas absorvem substâncias líquidas com que estejam em contacto (ex: água e gorduras) assim como outras substâncias que contenham líquidos (alimentos cozinhados por ex), não sendo, portanto as mais indicadas para usos alimentares ou para serem usadas em máquinas de lavar. É certo que a sua superfície é normalmente vidrada para proporcionar um certo isolamento, mas esta protecção é insuficiente na quase totalidade das utilizações domésticas. Mais adiante voltaremos a esta questão com mais pormenor.Os produtos não porosos são compactos pelo que não absorvem quaisquer outras substâncias com que estejam em contacto.
Há algumas maneiras simples de se diferenciar um produto poroso dum produto não poroso. Vamos só referir as quatro mais exequíveis por qualquer pessoa, sem necessidade de recurso a técnicas ou instrumentos complicados .
- Uma peça porosa é sempre mais leve que outra peça com as mesmas dimensões mas não porosa. Logo, se segurarmos em duas peças iguais em dimensões (comprimento, largura, espessura, etc...) e sentirmos diferença no peso, então a mais leve é porosa.
- Encostando a língua na parte desvidrada das peças (ex: no frete ou no pé das peças) se sentirmos que a língua fica ligeiramente presa é sinal que a peça está a absorver a saliva e, portanto, estamos na presença duma peça porosa.
- Encostando a ponta duma caneta de feltro, ou qualquer caneta com tinta líquida, à superfície desvidrada duma peça, se verificarmos que o ponto de contacto da caneta alastra é sinal de que a peça está a absorver a tinta e, portanto, estamos na presença duma peça porosa.
- Pesa-se uma peça seca e a seguir mergulha-se em água durante, por ex: duas horas. A seguir retira-se da água, limpa-se bem e volta-se a pesar. Se o peso aumentou é sinal de que a peça absorveu água e, portanto, estamos na presença duma peça porosa.

Produtos Cerâmicos Porosos

Os dois produtos mais conhecidos neste grupo são o barro e a faiança.
Sendo dois produtos classificados no grupo de materiais porosos, têm, no entanto, diferenças de composição e apresentação que os distinguem fácilmente.
O barro é o produto cerâmico constituído por matérias primas menos exigentes, normalmente de uma argila ou mistura de argilas, e com baixa temperatura de cozedura (cerca de 600 – 800 ºC). São exemplos deste tipo de produtos o barro vermelho ou o barro negro. Quando se destinam a usos utilitários (assadeiras, tigelas, pratos, etc...) são vidrados com vidros de baixa temperatura, sendo ainda, frequentemente, usado o chumbo como fundente do vidrado, o que torna este tipo de produtos desaconselhável já que o seu uso pode provocar problemas de saúde, tendo em conta que o chumbo quase não é eliminado pelo organismo, acumulando-se nos rins e no fígado, além de que a porosidade permite a infiltração de resíduos alimentares na estrutura das peças, podendo provocar distúrbios gastrointestinais. São produtos com baixa resistência mecânica (quebram-se com facilidade) e mais adiante abordaremos as implicações destes produtos com os seus usos.
A faiança é um produto cerâmico que, continuando a ser um produto poroso, já é obtido a partir duma composição mais elaborada, não necessitando, todavia, de matérias primas de grande exigência. Contém, na sua composição, os três grandes constituintes duma pasta de cerâmica fina (argilas, areias e fundentes), tratados individualmente antes da mistura, com cozedura a uma temperatura próxima dos 1.000 ºC, tendo um campo de aplicação que vai desde utensílios domésticos à azulejaria. São produtos com fraca resistência mecânica. A sua utilização tem, também, limitações semelhantes às do barro, que veremos mais adiante.

Produtos Cerâmicos não Porosos

Os produtos cerâmicos mais comuns existentes neste grupo são o grés, a porcelana e o vidro/pirex/cristal.
Todos são caracterizados por não absorverem quaisquer ingredientes com que estejam em contacto, já que a sua estrutura é compacta e impermeável. Apresentam, também, composições e características diferenciadas, assim como podem ter aplicações distintas.
O grés tem uma composição mineralógica já com características de alguma elaboração, tendo em conta a necessidade da sua impermeabilidade e a exigência dos usos a que se destina (desde a louça doméstica até aos usos industriais, como tubos de saneamento, sanitários, pavimentos, etc...). É cozido a temperaturas entre os 1.100 ºC e os 1.250 ºC. Apresenta-se no mercado, normalmente, em cores variadas (castanho nos usos industriais até ao branco ou beje nas usos domésticos), não tem translucidez e a sua resistência mecânica e refractária é alta.
A porcelana é a mais elaborada das pastas cerâmicas correntes. Obtida a partir de matérias primas de boa qualidade (Caulino, quartzo, feldspato e outras argilas em quantidades menores), é cozida a temperaturas entre os 1280 ºC e os 1400 ºC. É, geralmente, branca e tem uma alta resistência mecânica e refractária. Uma característica que a distingue de todas as outras pastas cerâmicas é a sua translucidez (deixa-se penetrar pela luz), o que lhe confere particularidades estéticas duma maior beleza e profundidade. É a pasta utilizada para peças de prestígio e de elevada exigência qualitativa.
O vidro é um produto cerâmico constituído esmagadoramente por quartzo (areia), com um alto grau de pureza. É cozido a temperaturas entre os 1.400 ºC e os 1.600 ºC, e, geralmente, é transparente. Frequentemente, com o objectivo de obtenção de efeitos estéticos especiais produzem-se vidros opacos ou coloridos. Tem baixa resistência mecânica e refractária.
O pirex e o cristal distinguem-se do vidro tendo em conta o objectivo de efeitos especiais tais como, por ex:, o aumento do grau refractário no pirex e um aumento de brilho e sonoridade no cristal com a adição de chumbo na sua composição.

Como se Produzem as Peças Cerâmicas?

Duas formas bem distintas se podem empregar na produção de peças cerâmicas: moldando a composição das matérias primas à temperatura de fusão (família das areias - vidro/pirex/cristal) ou à temperatura ambiente (família das argilas - barro/faiança/grés/porcelana).Enquanto que na produção de peças da família das areias a composição é injectada nos moldes no estado de fusão, ou trabalhada manualmente no estado plástico próximo da fusão, na família das argilas a composição é trabalhada antes da fusão, quer no estado líquido (as matérias primas estão numa suspensão com água), quer no estado plástico, depositando, ou prensando, a pasta em moldes com a forma da peça pretendida.
A formação das peças na família das areias é feita de acordo com o molde onde é injectada a composição com os materiais fundidos, ou trabalhada manualmente, ou por prensagem, de acordo com a forma pretendida pelo artesão.
A formação das peças na família das argilas é feita de forma semelhante à anterior, exceptuando no que toca ao estado das matérias primas como atrás se disse. Quando a composição contém água necessária ao processo de fabrico, a formação da peça obtem-se pela absorção, pelos moldes de gesso, da água existente na composição da pasta (é frequente designar este tipo de composições por barbotinas), ficando aderente à parede dos moldes de gesso a peça pretendida na espessura desejada. Na prensagem, como a quantidade de água pode ser quase nula na composição da pasta, utilizam-se moldes de gesso, de aço e de materiais sintéticos.Daqui se vê que, para se obterem peças mais finas, basta diminuir a quantidade de matérias primas ou o tempo de contacto com os moldes. Logo, uma peça mais fina gasta menos matéria prima e o tempo de fabrico é menor. Só que é mais leve e frágil além de, esteticamente, ser diferente.Na família das areias, as peças, depois de moldadas, à temperatura de fusão, têm de ter um arrefecimento gradual, após o que se segue o acabamento final, ou sem acabamento nas peças correntes.Na família das argilas o processo de fabrico é mais extenso. Após a moldação, geralmente à temperatura ambiente, segue-se o acabamento; 1ª codezura ou chacotagem (nalguns produtos existe só uma cozedura – por ex: pavimentos, cuja decoração, normalmente por serigrafia, e vidração são feitas antes da cozedura); pintura de grande fogo, se for o caso; vidração; 2ª cozedura – grande fogo; pintura ou aplicação de decalcomanias, de baixo fogo; cozedura da decoração de baixo fogo; acabamento final.A decoração com ouro, nas peças de ambas as famílias, tem de ser feita numa cozedura de baixo fogo, já que o ouro, nas suas diferentes composições, não suporta temperaturas acima dos 800 ºC.
Como atrás se diz, para se poder falar de produto cerâmico este tem de ser produzido a partir de matérias primas naturais transformadas pela acção do calor. Por conseguinte, é obrigatória, pelo menos, uma cozedura para se poder obter um produto cerâmico.As temperaturas a que são cozidos os produtos cerâmicos mais correntes são:
- Família das areias:
- Moldagem: 1400 ºC a 1.600 ºC
- Recozimento: 600 ºC
- Família das argilas:
- Chacotagem (ou primeira cozedura): 900 ºC a 1.000 ºC
- Cozedura:Barro: 600 ºC a 800 ºC
- Faiança: 900 ºC a 1.000 ºC
- Grés: 1.100 ºC a 1.250 ºC
- Porcelana: 1.280 ºC a 1.400 ºC
- Cozedura da decoração (baixo fogo): 600 ºC a 800 ºC

Em certos casos, e com pastas de características especiais, estas temperaturas poderão ser diferentes.

Principais Formas de Decoração nas Peças Cerâmicas

De uma forma simplificada, podemos dizer que são três os processos mais utilizados na decoração das peças cerâmicas:
- Decalcomania;
- Serigrafia;
- Pintura à mão.
A decoração por decalcomania caracteriza-se pelo facto dos motivos decorativos serem executados com recurso, na maioria das vezes, a processos fotográficos, informáticos e de impressão mecânica, que possibilitam a obtenção da decoração, com todas as cores necessárias, antes da sua aplicação nas peças cerâmicas.Depois de produzidos os decalques, estes são colados em folhas de papel, com uma cola sem resíduos minerais, de forma a que, após a sua aplicação na peças, a cola desapareça, através da cozedura, sem deixar vestígios. Para essa aplicação nas peças, torna-se necessário destaquar os motivos decorativos das folhas de papel onde estão colados e aplicá-los no local das peças cerâmicas onde se deseja a decoração.É um processo que recorre a meios mecânicos para a sua produção e usa-se, normalmente, quando é necessária uma grande quantidade de peças com o mesmo motivo, já que os custos envolvidos na preparação e execução dos decalques só são rentabilizados com séries de significativa dimensão.
A decoração por serigrafia, processo em diminuição de utilização, tem algumas semelhanças com a decoração por decalcomania. Mas não há produção de decalques, sendo os motivos “picotados” numa tela serigráfica e, por sobreposição da tela nas peças cerâmicas, procede-se à passagem da tinta, com a cor desejada, através desse “picotado” para a peça a decorar.Este processo de decoração por serigrafia tem vindo a perder campo de aplicação, à medida que a mecanização da decoração por decalcomania atinge produtividades e potencialidades significativamente superiores.Prato de porcelana com decalcomania.
A decoração por pintura à mão processa-se por acção directa, sobre a peça a pintar, dos procedimentos para a obtenção do efeito decorativo desejado. Para tal, utilizam-se pincéis adequados que o pintor manuseia de forma a que, gradualmente, a pintura vai-se desenvolvendo na superfície da peça. Com este processo nunca se consegue obter duas peças iguais, por muito que o pintor tente aproximar-se. No entanto, se esse for o objectivo desejado, é possível conseguir peças com uma aproximação que permite dizer que se trata de peças semelhantes.
Qualquer dos três processos de decoração pode ser utilizado nos diferentes tipos de produtos cerâmicos, após o processo de fabricação estar terminado, pelo que a decoração é mais uma operação subsequente à fabricação da peça, sujeitando as peças, quase sempre, a mais uma cozedura de “baixo fogo”. Em produtos de pouca qualidade, esta decoração é feita com tintas plásticas que não são sujeitas a cozedura, pelo que a sua aderência à peça é muito fraca.
Nos produtos da família das argilas é possível efectuar a decoração numa fase intermédia do fabrico das peças (decoração em crú e decoração sobre o chacote), chamando-se, normalmente, a este tipo de decorações de “grande fogo”, já que as tintas são cozidas simultâneamente com o vidrado à temperatura máxima do fabrico das peças. Num dos capítulos seguintes iremos ver o interesse particular deste tipo de decorações de grande fogo.
As formas de distinguir qual dos três processos de decoração existe numa peça cerâmica são, por vezes, pouco acessíveis ao utilizador comum. No entanto, há algumas regras práticas que, na maioria dos casos, possibilitam uma aproximação grande à identificação do processo de decoração.
- Na decoração por decalcomania e por serigrafia, os diferentes elementos que compõem a decoração são sempre, rigorosamente iguais;
- Na decoração por pintura à mão, nunca se consegue pintar, rigorosamente, dois elementos iguais;
- Nas decorações por decalcomania, as superfícies adjacentes aos contornos das diferentes cores aparecem sempre com igual distância e na mesma posição;
- Nas decorações por serigrafia e pintura à mão, as superfícies adjacentes aos contornos das diferentes cores dificilmente aparecem sempre com igual distância e na mesma posição;
- A linearidade dos traços em pintura à mão nunca se consegue com total rigor geométrico, sendo visível a expressão do trabalho manual, ao contrário das decorações por decalcomania e serigrafia em que os traços podem ter uma forma geométrica totalmente definida.
Convém, no entanto, ter em atenção que, com o objectivo de imitar a pintura manual, já se fazem decalcomanias e serigrafias com elementos diferentes e propositadamente não rectilíneos. Neste caso, deve-se observar duas peças e verificar se essas diferenças propositadas são iguais em ambas as peças. Se o forem estamos em presença de decoração por decalcomania ou serigrafia. Se forem diferentes poderemos estar em presença duma pintura manual.

Principais Aplicações dos Produtos Cerâmicos

Os produtos cerâmicos são utilizados em vários domínios da actividade humana, desde a física nuclear até à simples chávena de café com que todos os dias contactamos. Tendo em conta o carácter prático desta publicação, referimos a seguir, apenas, as utilizações mais comuns:
Na construção civil
- Tijolos- Telhas- Azulejos e ladrilhos- Sanitários- Lavatórios- Pavimentos- Etc...
Na indústria
- Material de laboratório- Revestimento de fornos- Suportes refractários- Acessórios de equipamentos- Material eléctrico- Isolamento térmico- Etc...
Na habitação
- Louça de mesa, chá e café- Louça de forno- Peças decorativas- Utilidades de jardim- Paineis de azulejos- Acessórios diversos- Etc...

Recomendações, Inconvenientes e Precauções a Observar na Utilização de Produtos Cerâmicos.

A evolução registada, durante a segunda metade do século XX, nas exigências legais a observar em todo o tipo de produtos, obrigaram os fabricantes cerâmicos a adequarem os seus métodos e formas de fabrico às novas realidades, com a consequente necessidade de acompanhar as inovações e a responder às novas solicitações dos consumidores.Tendo em conta o fim a que se destinam, podemos sintetizar as recomendações, inconvenientes e precauções a ter nos quatro tipos de utilizações que requerem cuidados particulares:

1 - Produtos cerâmicos que contactam com alimentos
Todas as peças que contactam com alimentos devem, quando decoradas, ter a decoração por debaixo do vidrado, de forma a evitar o contacto directo dos alimentos com a tinta das decorações, prevenindo eventuais contaminações, assim como a descoloração das decorações (frequentemente olhamos para as peças dum serviço e verificamos estarem com cores muito diferentes, principalmente quando têm filagens ou outras aplicações de ouro – as peças com decorações por cima do vidrado, ou com aplicações de ouro, devem ser evitadas nos usos domésticos, nomeadamente quando são sujeitas aos fornos micro-ondas ou às máquinas de lavar louça). Para minimizar o eventual efeito da contaminação dos alimentos com as tintas, quando a decoração é por cima do vidrado, tem vindo a ser imposto, pelas autoridades de quase todos os países, um controlo apertado do teor máximo que pode ser libertado dos metais empregues nas tintas, nomeadamente de chumbo e cádmio.Por outro lado, não é recomendável (nalguns países até é proibido) usar produtos cerâmicos porosos na confecção e transporte de alimentos, já que há o forte risco de se infiltrarem resíduos de alimentos nas partes não vidradas e fendilhadas das peças, com a consequente criação de germens patogénicos que poderão causar perturbações gastro-intestinais, além de os produtos cerâmicos porosos serem mais susceptíveis de racharem, nomeadamente quando usados nos fornos micro-ondas e nas máquinas de lavar louça.Como exemplo de produtos a serem evitados para confecção de alimentos, apesar de muito populares e, até, serem recomendados por “especialistas” de culinária, são alguns tipos de barro vermelho. Trata-se dum produto poroso, logo dos mais frágeis, como, também, ser ainda frequente o uso de chumbo na composição do seu vidrado (cozido a baixa temperatura), pelo que é fácilmente atacado pelos elementos ácidos existentes nos alimentos, nomeadamente o limão ou o vinagre, que, atacando a superfície do vidrado, transportam para os molhos e para os alimentos os metais existentes na composição desse vidrado.Não é por acaso que se diz que os assados nas assadeiras de barro vermelho ficam mais saborosos, principalmente quando as assadeiras são novas com aquele aspecto brilhante tentador. Na verdade, ficam mais saborosos porque o chumbo é um metal com sabor agradável. Só que é tóxico!Como recomendação, quando queremos peças cerâmicas para confeccionar e transportar alimentos, devemos optar por produtos cerâmicos não porosos (porcelana, grés, vidro e pirex) e com decoração por debaixo do vidrado. Para distinguirmos se um produto é ou não poroso basta seguir as hipóteses práticas atrás enunciadas na caracterização básica dos produtos cerâmicos. Para distinguirmos uma peça com decoração por cima do vidrado de outra com decoração por debaixo do vidrado, basta passarmos os dedos levemente por cima dos locais decorados. Se sentirmos alguma aspereza é porque estamos a contactar directamente com a decoração, logo é decoração por cima do vidrado. Se não sentirmos qualquer aspereza e, apenas, o toque macio da superfície vidrada, então estamos na presença duma peça com decoração por debaixo do vidrado.Existe, ainda, uma outra forma de decoração: incorporada no vidrado, o que quer dizer que a decoração foi aplicada por cima do vidrado e foi cozida à temperatura de fusão deste. Este tipo de decoração tem, praticamente, o mesmo campo de aplicações das decorações por debaixo do vidrado.

2 – Produtos cerâmicos sujeitos a condições ambientais adversas
Várias situações se podem colocar neste capítulo: locais exteriores, sujeitos ao sol, à chuva e a temperaturas extremas; locais interiores sujeitos a humidades e a amplitudes térmicas significativas; locais com forte probabilidade de ocorrência de solicitações ao choque.Como exemplos poderemos citar os painéis de azulejos, os objectos decorativos de exterior e os objectos de natureza lúdica (peças de jogos).Em todos estes casos, estamos perante situações em que é conveniente dispormos de peças cerâmicas com um reduzido, ou quase nulo, coeficiente de dilatação, para suportarem variações de temperatura sem o risco de fendilharem ou partirem. É, também, necessário que as peças não disponham de qualquer possibilidade de absorverem água e de aguentarem esforços mecânicos razoáveis, tendo em conta que os materiais cerâmicos não são inquebráveis.Neste sentido, é fundamental que a opção se diriga para produtos cerâmicos não porosos, resistentes a algumas solicitações mecânicas, de que são exemplo o grés e a porcelana, que, sendo decorados, o sejam por debaixo do vidrado (ou com a decoração incorporada no vidrado).

3 – Produtos cerâmicos para fins sanitários e de revestimento
Neste caso, estamos perante situações comuns e que, normalmente, dependem mais dos construtores civis do que do consumidor no seu dia a dia.No caso dos produtos cerâmicos para fins sanitários, de que os exemplos mais frequentes são os lavatórios, bidés e sanitas, em que só se utiliza, e ainda bem, o grés e a porcelana, já que é absolutamente necessário que se utilize produtos não porosos e com resistência mecânica. No entanto, ainda há no mercado algumas peças deste tipo em faiança, o que é fortemente desaconselhado.No caso dos materiais de revestimento para chão e paredes, importa ter em conta que, tratando-se, normalmente, de áreas com dimensões significativas, tem-se cedido a qualidade dos materiais em detrimento dos custos. Podemos dizer que, actualmente, todos os pavimentos são já (e bem) em grés, mas no caso da azulejaria de revestimento ainda se utiliza, na maioria dos casos, azulejos de faiança, com inconvenientes consideráveis, mas que, dado o custo significativamente inferior os torna ainda fortemente presentes no mercado. É que, como já sabemos, a faiança é porosa e tem baixa resistância mecânica, pelo que é frequente, num tempo de vida curto, o aparecimento de azulejos fendilhados e, até, partidos, danificando uma estética que, em muitos casos se deseja manter, além de se perder a capacidade de isolamento que se requer a um revestimento. Pelo menos, nas zonas contíguas aos lava-louças, lavatórios, banheiras e outras zonas afins, dever-se-á aplicar azulejos de grés ou porcelana. Mas, recomenda-se que todos os revestimentos sejam constituídos por materiais não porosos e mecanicamente resistentes (grés e porcelana),pois, além dos requisitos físicos serem melhores, possibilitam uma estética decorativa de maior alcance, nomeadamente quando se trata de azulejos de porcelana. Tal recomendação é mais fortemente sugerida quando se trata de revestimentos exteriores, assim como nos revestimentos de tanques e piscinas, em que devem ser feitos somente com materiais não porosos e resistentes mecanicamente.Refira-se, ainda, o caso das lareiras e fogões de sala, cujo revestimento é feito de placas e tijolos refractários. A composição e fabrico destes materiais refractários têm em conta a necessidade de resistirem a grandes amplitudes térmicas e a solicitações mecânicas consideráveis. Também aqui o consumidor, normalmente, não interfere na escolha dos materiais, já que os fogões de sala e as lareiras vêm equipadas de origem na sua quase totalidade. Importa, no entanto, ter em conta que na proximidade das lareiras e fogões de sala não devem ser aplicados materiais com grandes coeficientes de dilatação, nomeadamente nas paredes adjacentes em que os azulejos, caso existam, devem ser de grés ou porcelana.

4 – Produtos cerâmicos para fins decorativos de interior
Trata-se da situação menos exigente do ponto de vista das solicitações a que os produtos cerâmicos vão ser sujeitos.Logo, aqui, pode ser o efeito estético o mais preponderante, pelo que qualquer produto cerâmico pode ser utilizado. Importa, no entanto, ter em conta as características de cada produto de forma a que não surjam surpresas desagradáveis, Por exemplo, no caso de se optar por produtos porosos, é natural o aparecimento de fendilhagem nas peças ao fim de algum tempo (por vezes já estão à venda com o vidrado fendilhado). No caso de jarras este aspecto é grave, pois, tratando-se dum produto poroso, a água que se encontra no interior escorre pelo corpo da jarra (é um produto poroso) para o pé e marca os móveis onde está pousada.Por outro lado, tendo em conta que os efeitos decorativos desejados são valorizados com as peças cerâmicas utilizadas, convem ter em conta que quanto melhor for o produto cerâmico mais se valoriza esteticamente o espaço. Por exemplo, utilizando a porcelana pode-se tirar partido da sua capacidade de translucidez o que valoriza extraordinariamente qualquer efeito decorativo.

A Relação Qualidade/Preço
O preço não é tudo num produto cerâmico. De que adianta comprar um painel de azulejos mais barato se passado pouco tempo o vidrado começa a fendilhar e os azulejos caem , destruindo aquilo que queriamos que fosse um adereço de longa duração? De que adianta comprarmos uma peça mais barata se ela vai partir com mais facilidade nos fornos ou na máquina de lavar louça? De que adianta comprarmos uma peça com uma decoração muito rica se essa decoração vai descorar fácilmente perdendo-se todo o efeito de conjunto e estético? De que adianta comprarmos uma jarra mais barata se passado algum tempo (ou até logo no dia seguinte) ela passa a deixar a marca do fundo nos móveis estragando-os e degradando a estética da peça?Muitas vezes (quase sempre) somos condicionados pelo preço, na compra de um produto cerâmico, esquecendo que uma peça barata, mas que, por exemplo, quebre mais facilmente, acaba por ficar, ao fim de pouco tempo, mais cara do que outra peça com preço mais alto mas com maior resistência mecânica. Além de que as peças com melhores características físicas produzem efeitos estéticos de maior beleza.Espero que o que atrás fica dito, num tom que quis leve e fácil de entender por não especialistas, possa ser útil para quem gosta de saber o que utiliza e porque utiliza.

Características dalguns Materiais Cerâmicos
Porosidade(absorve resíduos)
Tendência para a fendilhagem
Resistência
Adequação
Estética
Choque mecânico
Choque térmico
Micro-ondas
Máquina de lavar
Congelador
Barro11231111
Faiança22221113
Grés55455553
Vidro55114453
Pirex55144453
Porcelana
55555555

1 – Pior
5 – Melhor

Ficha TécnicaTítulo:A Cerâmica no dia-a-dia
Autor:Manuel Almeida dos Santos
Composição Gráfica:Alexandra Manuela Santos MartinsFernando Manuel Sousa MartinsTiragem:100 Exemplares
Depósito Legal nº:244298/06Junho de 2006