quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Reflexão sobre a pobreza e a exclusão social

Exmas. Senhoras Deputadas e Senhores Deputados da Assembleia da República

Uma grande parte da minha vida tem sido dedicada ao voluntariado, nomeadamente da área da pobreza e exclusão social. Tendo em conta os múltiplos casos que tenho vivenciado, deixo à consideração de V. Exas. o abaixo exposto. Sou reformado, fui empresário e, entre outras coisas, fui professor do ensino superior e avaliador externo do Ministério da Educação e do Ministério da Segurança Social. Para evitar conotações com subjectividades e de meras opiniões pessoais, baseio-me em notícias extraídas de órgãos de comunicação social, de fontes oficiais e de intervenções públicas de pessoas de mérito reconhecido. Termino  com propostas que reputo de necessárias e urgentes que deverão ser consideradas na discussão do OGE 2018 em curso na Assembleia da República.

1 - Pobreza é a privação das condições necessárias para termos acesso a uma vida digna (REAP – Rede Europeia Anti-Pobreza).

2 - (…) antes e depois da política há, no país dos incêndios, uma solidão de pobres, os pobres que estão, os pobres que ficam, os pobres que ficam como estão. Expresso 9/9/2017 – Pedro Guerreiro.

3 - As desigualdades entre pobres e ricos acentuam-se por todo o mundo. Portugal não é exceção. E ter um salário pode não ser significado de ter o mínimo para viver com dignidade. Entre nós, 22% dos que vivem abaixo do limiar da pobreza, têm emprego. (Comunidade da Serra do Pilar – 12/02/2017).

4 – (…) Rui Fidalgo, recepcionista de um hotel de quatro estrelas: “ perguntei à directora do hotel quanto me ficaria depois dos descontos, e ela respondeu: entre 490 e 500 euros.(…). Expresso 03/11/2017.
Há licenciados no turismo a receber 2,5 euros à hora. (Público 15/12/2016).

5 – “Em Portugal, um milhão de pessoas vive com menos de 250 euros todos os meses. E dois milhões vivem com menos de 420 euros, o que equivale a um quinto da população. (Notícias ao minuto– 30/11/2016). 30% dos trabalhadores portugueses ganham menos de 600 euros mensais e 80% dos pensionistas recebem menos do que o salário mínimo nacional. (DN 07/02/2017).

6 - Limiar da pobreza em Portugal está subestimado. Estudo mostra qual o rendimento mínimo necessário para que se possa viver em Portugal com dignidade. Valores são superiores aos calculados como limiar da pobreza. Um indivíduo em idade activa a viver sozinho deveria ganhar, por mês, 783 euros para ter um nível de vida digno e um casal com um filho menor deveria auferir cerca de 1.800 euros, revela um estudo hoje apresentado. As conclusões são do estudo “Rendimento Adequado em Portugal (RAP) – Quanto é necessário para uma pessoa viver com dignidade em Portugal?”, que resulta de uma parceria entre várias universidades, entre as quais a de Lisboa e a Católica, e a REAP, e que demonstra que o limiar da pobreza em Portugal está subestimado. Os valores de rendimento estimados neste estudo para que cada um dos agregados familiares viva com dignidade são superiores aos 422 euros mensais definidos em 2014 como limiar da pobreza ou aos 439 euros de 2017 ( 60% da mediana do rendimento por adulto equivalente de cada país). (Lusa – 04/07/2017).

7 - Os pobres não beneficiaram da alegada reposição de rendimentos pois como não os tinham, ou eram míseros, não tiveram a reposição do complemento extraordinário de solidariedade, do desagravamento do IRS e descongelamento de carreiras. Também não beneficiaram da descida do IVA de 23 para 11% na restauração pois não vão a restaurantes. Mas foram afectados pelo agravamento do IVA na electricidade e noutros bens essenciais, pelo agravamento do custo dos transportes públicos, pelo agravamento das taxas moderadoras na saúde (consultas e medicamentos), pela redução dos apoios sociais (RSI e subsídios pontuais), pelo agravamento das rendas, pela diminuição das esmolas fruto da contenção que a classe média se auto-impôs. Olhemos para as empregadas de limpeza, lixeiros, carteiros/carteiras, pescadores, trabalhadores dos escalões mais baixos das actividades produtivas, etc… . A pobreza não pode ser suporte da escravatura moderna. (Intervenção pública - Outono 2017). 
                                             
8 - Há mais 1300 milionários em Portugal do que há um ano – (JN 22/11/2016).  
Atualmente, Portugal tem mais de 54 mil milionários e três pessoas com mais de mil milhões de euros. (Lusa Nov 2016).

9 – A proposta de  Orçamento Geral do Estado para 2018 contempla pagamentos de cerca de 1500 milhões (1498 milhões) de euros nas parceiras-público privadas rodoviárias, à semelhança do que vem acontecendo nos anos transactos. A avaliação do Eurostat é de que a renda adequada para um património desta dimensão é de cerca de 400 milhões/ano. (Grazia Tanta 04/11/2017). No mesmo OGE 2018, a revisão dos escalões de IRS vai ter um impacto de 230 milhões de euros, enquanto a actualização extraordinária das pensões será apenas de 154 milhões de euros (Expresso – 11/11/2017) 

10 - Um terço dos portugueses não tem dinheiro para ter uma vida digna –(JN– 24/11/2016).

11 - Mais de metade dos consumidores portugueses (51%) afirmam que não paga as faturas dentro do prazo por falta de dinheiro, segundo um estudo divulgado esta quinta-feira. (JN– 24/11/2016).

12 - Aumentou o número de famílias sobreendividadas a recorrer à DECO. Em 2017 a Deco recebeu pedidos de ajuda de 26.080 famílias sobreendividadas até 25 de outubro, mais do que nos anos anteriores.  (JN 31/10/2017).

13 - 583.000 famílias não conseguiam pagar os seus débitos aos bancos no final de 2016. (JN 03/03/2017).

14 - Há professores  do ensino básico e secundário que são contratados há mais de 20 anos seguidos, mas como os seus contratos são feitos de forma a não terem uma duração de 12 meses ininterruptos, obriga-os a recorrerem todos os anos ao subsídio de desemprego, apesar de poderem vir a ser novamente contratados algum tempo depois, na mesma ou noutra escola. Tal situação leva a que a sua remuneração seja sempre a mais baixa da carreira, sem diuturnidades nem progressão na carreira, auferindo baixos rendimentos (professores com dezenas de anos de docência auferem o mesmo valor que professores em início de carreira) e, quando no desemprego, o valor da prestação do subsídio é muito baixo. Além de que, todos os anos têm de concorrer às escolas onde há vagas no seu grupo de recrutamento, podendo ser colocados em escolas a centenas de quilómetros da sua residência com as implicações familiares inerentes e sendo a maior parte da sua remuneração consumida com as despesas de transporte, restando-lhes um rendimento abaixo do limiar de pobreza. Os professores nesta situação continuam a ficar de fora dos critérios que o Ministério da Educação divulgou para vincular alguns professores. (Vários órgãos de comunicação social )

15 - O malparado superava os 16 mil milhões de euros. 115 mil fiadores foram chamados a pagar dívidas de terceiros. (JN 03/03/2017).

16 - Em 2016 fisco bate recorde e efetua quatro milhões de penhoras. Autoridade Tributária registou no ano passado uma subida de 55% das execuções em relação a 2015. (CM – 09/07/2017).

17 - O Estado concedeu em 2016 mais de 4.000 milhões de euros em subvenções públicas a empresas e instituições. (Conta Geral do Estado).

18 –Excertos da Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial dos Pobres - 19 Novembro de 2017
(…)
Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida. (…).
Portanto somos chamados a estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. A sua mão estendida para nós é também um convite a sairmos das nossas certezas e comodidades e a reconhecermos o valor que a pobreza encerra em si mesma.(…).
Conhecemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, de poder identificar claramente a pobreza. E todavia esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!
Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade.(…).
Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade.(…).
Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade.

19 – “(…) Os miseráveis ficam sempre melhor dentro das páginas de um romance ou num retrato estético do sofrimento.
Há miseráveis a mais nas nossas ruas.
Nas ruas de Londres, Paris, Madrid, Bruxelas…Lisboa. Os miseráveis são normalmente, para alívio da consciência, tratados com romantismo kitsch. (…)
Não existe uma solução óptima para a nova vaga de miseráveis e nómadas com sacos de plástico. A caridade não resolve tudo, e as pessoas passam numa indiferença mais gelada do que a temperatura de inverno. Esta gente tornou-se invisível. E muito pouco romântica. Não pedincham porque ninguém lhes atira a moeda que reserva para os músicos do metro. No pires das moedas jazem moedas negras. De vez em quando, numa noite fria, um transeunte baixa-se e pergunta a um destes miseráveis se está bem. As organizações de samaritanos, religiosas e laicas, dão-lhes cobertores e alimentos. O resto das pessoas levanta o pé e segue em frente. Desde quando é possível a achar isto normal? Seguir em frente? Tornar invisível uma parte da humanidade? (…)
A desigualdade aumentou tanto nos últimos tempos que se tornou um monstro que nos abocanha a todos. Somos monstruosos. (Clara Ferreira Alves – Expresso- 18/02/2017).

20 – Bruxelas avisa que emprego criado em Portugal é mal pago e pouco qualificado (JN-13/11/2017)

I Daniel Blake (filme estreado em 2016) – Ken Loach realizador
Aos 80 anos Ken Loach continua socialmente zangado e solidário com os deserdados.
 – Como é que eu poderia não ter toda esta raiva contra a humilhação?
(JN – 05/12/2016). (Expresso 02/12/2016)


Não deixe que a pobreza se transforme em paisagem

  

Ai dos pobres! Há sempre uma boa razão para lhes dizer não.
 Sofia de Melo Breyner Andresen



Proposta de medidas políticas imediatas:

- As pessoas não devem poder ser despejadas da sua habitação devido a carências económicas. A Segurança Social deve constituir um fundo para pagamento das rendas não pagas.

- Deve ser estabelecida uma capitação mínima de sobrevivência, nos serviços públicos essenciais, gratuita para todos os cidadãos, financiada pelos consumos acima da capitação mínima.

- Os serviços públicos essenciais (energia, água, saneamento, transportes públicos, comunicações) não podem ser cortados, quando os consumos são abaixo da capitação mínima. 

- O IVA dos serviços públicos essenciais deve ser 0 até ao valor da capitação mínima.

- Deve ser alargado o cabaz de alimentos com taxa de IVA reduzida.

- O Estado deve integrar os trabalhadores precários que ano após ano são necessários para a sua acção governativa (Exemplo: professores com dezenas de anos de docência, de duração irregular, com contratos renovados anos a fio). 

- Devem ser aumentados significativamente os valores mais baixos dos salários e pensões.

- Deve ser subido o limite inferior do escalão mais baixo do IRS.

- O combate ao desemprego e à precariedade deve ter a máxima prioridade.


V,N,Gaia, 14 de Novembro de 2017

Manuel Hipólito Almeida dos Santos
Rua General Humberto Delgado 151
4405-863 Vilar do Paraíso – Vila Nova de Gaia


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Meu querido genro Fernando Martins

Meu querido genro Fernando Martins
Estamos hoje aqui consigo para lhe mostrar o quanto o admiramos, e o quão grato lhe estamos por nos ter mostrado como se pode ser um bom pai, um bom marido, um bom filho, um bom professor, um bom genro, um bom amigo e um bom cidadão. Estamos nós aqui, nesta cerimónia que quisemos ser íntima, mas estão aqui, em espírito, muitos mais que consigo conviveram, o admiraram e que só não estão fisicamente porque me disseram respeitar este nosso desejo de privacidade.
A sua passagem por este mundo deixou marcas que passarão a ser fontes para que nós tentemo-nos aproximar dos seus bons exemplos.
Tudo aquilo que o seu legado cívico e humano nos deixa, foi fruto de muitos sacrifícios, sofrimentos e generosidade em que assentou o comportamento do Fernando.
A sua capacidade de suportar esses sacrifícios e sofrimentos, que se tornaram bem visíveis nos últimos anos da sua vida, são prova da dedicação que deu mostras em não regatear esforços em prol da sua família, dos seus amigos e da sua profissão.
Fernando
Há um compromisso que quero assumir, aqui, perante si. Farei tudo o que estiver ao meu alcance, no pouco tempo que me resta de vida, para que aqueles a quem mais se dedicou continuem a sentir a sua presença como no passado.
O seu filho Tiago, a sua esposa Alexandra, a sua mãe Helena, a sua sogra Lurdes, os outros membros da família, os seus amigos, os seus colegas, os seus alunos, vão continuar a tê-lo presente como esteve até agora. Não tenho a menor dúvida sobre isto.
Digo muitas vezes, e muitas pessoas sabem disso, que, além de muitas outras qualidades, as minhas duas filhas mostraram uma muito importante.  Souberam escolher os melhores genros do mundo com que me presentearam. Estou-lhes grato e vou continuar a retribuir esta gratidão. No evangelho segundo S. Lucas é dito: “Aqueles que cumprem todas as normas e regulamentos e nada mais fazem são servos inúteis”. O Fernando foi um servo muito útil pois fez muito mais do que apenas cumprir normas e regulamentos. O estar esta cerimónia a decorrer no Dia de Todos ao Santos é uma divina coincidência. O Fernando, por tudo quanto passou na vida foi um santo, um santo mártir.
Luís de Camões, no canto I dos Lusíadas exalta as pessoas que deixam marcas neste mundo, que se aplicam a si, Fernando: “… E aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando, cantando espalharei por toda a parte se a tanto me ajudar o engenho e arte”. É isto que me vou empenhar a fazer cultivando a memória do Fernando.
Também o escritor Antoine Saint Exupery constatou: “Aqueles que partem de nós não vão sós. Deixam algo de si. Levam algo de nós”. O muito que nos deixou de si, Fernando, vai fazer com que o seu espírito continue presente em nós.
Meu querido genro Fernando: A minha gratidão por tudo quanto me deu. Encontrar-nos-emos no Oriente Eterno.    

01/11/2017

domingo, 24 de setembro de 2017

Equinócio de outono - 2017

Equinó 
Celebra-se, nestes dias, o equinócio de outono, caracterizado pelo facto de no hemisfério norte, em que nos situamos, a noite passar a predominar sobre o dia e muitas mudanças se processarem no ciclo da natureza, reflectindo-se no comportamento dos seres humanos.
Para se conhecer melhor o que é este equinócio devemos  atentar no simbolismo prático do Outono. O calor, a claridade e os sentimentos de verão, dão lugar à riqueza cromática que antecede a quelha das folhas, às temperaturas amenas que antecedem o frio e a uma maior tendência para a introspecção, preparando-nos para uma maior disponibilidade para o amadurecimento, seguindo o curso da natureza.
A Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, a cuja defesa estamos comprometidos, têm tido denúncias do seu atropelo, a que vamos ter de dar combate. Recentemente, o presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, juíz desembargador Orlando Nascimento, lembrou que a justiça, ela mesma, vai muito além da ação dos tribunais, lançando a questão: "Haverá alguma justiça numa sociedade em que todos os dias aumenta o número de pobres e em que os ricos são contemplados com volumosos subsídios, escondidos sob os mais variados pretextos, de investimento, de criação de emprego, de interioridade, de estímulo da economia?". Por sua vez, em artigo publicado na revista Dirigir e Formar do IEFP, o prof. Luís Capucha constata: “Não há progresso económico e social que possa deixar para trás os mais desfavorecidos. E como são acolhidos os mais desfavorecidos no sistema educativo, na justiça, no acesso aos serviços públicos essenciais, no emprego com remuneração digna?”. É de notar que cerca de 30% dos trabalhadores portugueses recebe menos de 600 euros mensais, que 80% dos pensionistas da segurança social têm reformas abaixo do salário mínimo nacional e que cerca de 50% dos portugueses não paga IRS devido ao seu baixo rendimento.
Considerando que vivemos um alegado período de saída da austeridade, devemos ter em conta que os pobres não beneficiam de reposição de rendimentos, pois como os que tinham eram míseros, não tiveram cortes com o complemento extraordinário de solidariedade, agravamento do IRS e congelamento de carreiras. Também não beneficiaram da descida do IVA de 23 para 11% na restauração pois não vão a restaurantes. Mas foram afectados pelo agravamento do IVA na electricidade e noutros bens essenciais, pelo agravamento do custo dos transportes públicos, pelo agravamento das taxas moderadoras na saúde (consultas e medicamentos), pela redução dos apoios sociais (RSI e subsídios pontuais), pelo agravamento das rendas, pela diminuição das esmolas fruto da contenção que a classe média se auto-impôs. Os mais desfavorecidos, incluindo as crianças com necessidades educativas especiais, não podem viver na solidão, no esquecimento, nem serem objecto de aumentos insultuosos de meia dúzia de euros por mês, não podem ser servos da escravatura moderna. 
Os conceitos da liberdade, igualdade e fraternidade têm de ser considerados de valor igual, universais, indivisíveis e interdependentes, pelo que aos mais desfavorecidos deve ser dada a prioridade para o acesso a condições de vida dignas.
Estas, e outras, considerações terão de ter, nesta passagem para o predomínio da escuridão sobre a luz, que nos vai acompanhar nos próximos seis meses, repercussão no nosso posicionamento. Temos de ter  a coragem de enfrentar o desafio que o filósofo contemporâneo, Michel Onfray, nos coloca quando diz: “O livre arbítrio é uma fábula que mascara o desconhecimento dos determinismos que nos programam. Nós, que nos cremos autónomos e portadores duma multiplicidade de coisas e de potencialidades, não fazemos mais de que obedecer.”
Estou certo que, independentemente do aumento da escuridão trazido pela passagem do equinócio do outono, saberemos, sempre, guiarmo-nos pela luz do oriente, que nos proporcionará a clarividência necessária à nossa acção de força, beleza e sabedoria.

22/07/2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

O 25 DE ABRIL, A LIBERDADE E A FAMÍLIA

  
Comemoramos, hoje, uma data relevante da história de Portugal e da Maçonaria Portuguesa, celebrando a queda de um regime fundado sobre a censura, com polícia política, restrição das liberdades, prisões e tortura, guerra colonial, etc…, com implicações profundas na vida em sociedade e familiar, assente numa filosofia ditatorial imperfeita, já que, como nos disse o filósofo e romancista Aldous Huxley “A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.”. Passados 43 anos dessa data histórica será que existe solidariedade entre a ditadura imperfeita para a ditadura perfeita de Aldous Huxley?

Rizzardo da Camino, no sua edição do “Breviário Maçónico”, define a solidariedade como a correspondência daqueles que estão unidos por um ideal, sendo uma acção recíproca, e que o maçon cultiva a solidariedade, não apenas no aspecto da sociabilidade, mas na forma de misticismo, na permuta dos pensamentos, na cadeia de união, nos bons e nos maus momentos. Estará ferida a solidariedade demonstrada no 25 de Abril?

O escritor francês Pierre Bordieu disse a propósito do que titula “ O terrível descanso que é o da morte social”: “... Excluídos do jogo, cansados de escrever ao Pai Natal, de ficar à espera de Godot, de viver no não-tempo em que nada acontece, em que nada há a esperar, os homens desapossados da ilusão vital de terem uma função ou uma missão, de deverem ser ou fazer qualquer coisa, podem a certa altura, para se sentirem existir, para matarem o não-tempo... procurar... um meio desesperado de se tornarem “interessantes”, de existirem perante os outros, de acederem, em suma, a uma forma reconhecida de existência social.
... Talvez haja, ..., uma filosofia da miséria, mais próxima da desolação dos idosos reduzidos à condição de apalhaçados vagabundos de Beckett do que do optimismo voluntarista tradicionalmente associado ao pensamento progressista. Um dos méritos do registo positivista é deixar-nos ouvir, melhor do que os clamores indignados ou as análises arrazoadas e racionalistas, o imenso silêncio dos desempregados e o desespero que exprime.”

O que há de possível associação entre a solidariedade que Rizzardo da Camino pugna para os maçons e o terrível descanso da morte social de Pierre Bordieu?
É que a solidariedade de Rizzardo evita qualquer tipo de morte social.
Digo-o pelo sentir testemunhado ao longo do tempo que tenho estado entre vós, e digo-o por experiência própria que, com grande afeição e generosidade, me tendes dado a usufruir.
A riqueza dos sentimentos não se mede pela dimensão do valor material. O sentimento que nutrimos pelos nossos familiares, que muito nos alegra, é disso prova. Há já alguns anos, escrevi em dois pequenos painéis cerâmicos que “Não há maior prazer que o prazer de dar” e “ Por pouco que se tenha deve chegar sempre para ajudar os outros”. Nessa altura, participei numa homenagem a um ilustre cidadão, que muito deu à sua terra, em que o lema era: “ A gratidão é um dom das pessoas boas e justas” e esta expressão passou a constar de mais um painel de azulejos.   
Mesmo que nem sempre consigamos ser pessoas boas e justas, tenho a certeza de que sentimos sempre um grande prazer quando damos e que sentimos uma profunda gratidão quando somos tocados pelo altruísmo e solidariedade dos nossos semelhantes.
Quando as minhas filhas e os meus netos eram crianças ouvia, com eles, uma história da literatura infantil chamada “A Festa da Malta”, constante dum disco antigo, ainda em vinil, já gasto pelas muitos anos a tocar. Uma das canções desta história assenta no seguinte poema.

Na música, uma nota de sol sozinha faz dó,
                            Pois não faz uma cantiga,
                            Assim como um só grão
Não faz uma espiga

Olha à volta e saberás
Que o lugar onde tu estás
Só é teu se o partilhares.
Abre as portas e as janelas
Anda ver que as coisas belas
Não são belas se as guardares

Se o teu braço não é forte
Pede a ajuda do outro braço,
                               Pois só se é forte acompanhado.
                              
Já que não há força que sustente
                            A força de muita gente
                            A puxar para o mesmo lado

E, já que chamo as crianças para esta intervenção, exorto a que as coloquemos sempre em primeiro lugar, como o que de mais belo existe, tendo presente a proclamação de Fernando Pessoa na seu poema Liberdade “Grande é a poesia, a bondade e as danças, mas o melhor do mundo são as crianças”. E para todos os pais, os seus filhos, ainda que já adultos, são sempre o que há de mais querido no mundo, de elo solidário inquebrável.
Há já alguns anos participei numa acção de solidariedade internacional para com grupos sociais carenciados do Uruguai. O cartaz que foi afixado nos locais em que as acções decorreram teve por lema: “ A melhor forma de agradecer a solidariedade é retribuí-la.” Nunca mais esqueci este lema. Podem acreditar que nunca o esquecerei.

Que a solidariedade que hoje nos une e iguala na proclamação da liberdade e do amor familiar, simbolizada na data bonita do 25 de Abril, reforce os laços familiares e de fraternidade que temos vindo a construir. Olhemos para o mundo à nossa volta e tentemos praticar essa fraternidade em todos os lugares da sociedade: na família, nas manifestações do 25 de Abril, nos bairros sociais, com os mendigos que nos abordam, com os desempregados, com os inactivos e nos precários, com os jovens sem caminho para o futuro, com os sem abrigo, no inferno das prisões, com os pobres e escravos que nos servem em muitos lugares. Lembremo-nos que o pior cego é aquele que não quer ver. Sophia de Mello Breyner Andresen, alertando para os males do seu tempo, legou-nos o belo poema “Cantata da Paz”, que foi musicado e tem um refrão com profunda filosofia maçónica: “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”.

Na cerimónia de iniciação é-nos dada a luz para que possamos ver, ouvir e ler. Com estas faculdades vivas exaltemos os laços de apego familiar, de liberdade, de igualdade e de fraternidade que hoje vivenciamos.


Viva o 25 de Abril!


sexta-feira, 17 de março de 2017

OS VALORES DA MAÇONARIA NO VOLUNTARIADO DAS ONGs

OS DEVERES SOCIAIS DE UM FRANCO-MAÇON - Maçonaria e Cidadania no Séc.XXI

OS VALORES DA MAÇONARIA NO VOLUNTARIADO DAS ONGs - Uma Experiência Pessoal

A noção de cidadania abrange toda a acção da vida social, ambicionando direccionar o conjunto de direitos e deveres das pessoas, podendo-se entender a cidadania a englobar posturas como reivindicações, interesse pela coletividade, envolvimento na família, no bairro, no trabalho, na escola e, nomeadamente, com a participação em associações.

O mundo assistiu, a partir do início da segunda metade do século XX, a um florescimento de organizações, ditas do terceiro sector, a um ritmo e dimensão tais que as tornaram um pilar fundamental da vida em sociedade. Desde associações de direitos humanos, ecologistas ou de defesa do consumidor, até às fundações, instituições de solidariedade social e agremiações de beneficência, estas organizações dispõem hoje dum poder que as torna apetecidas por quem detém o comando governamental dos mais variados países. Muitas delas têm já ramificações internacionais que as tornam verdadeiras multinacionais da sua área de actividade, ombreando em capacidade de influência com muitas multinacionais da economia com fins lucrativos. Não é por acaso que estas se envolveram nos últimos anos com entidades agregadoras de políticas de responsabilidade social. Além das conhecidas pela sigla ONGs (Organizações não Governamentais), outras existem com um vínculo mais próximo do poder político, como as OIGs (Organizações Intergovernamentais, como o Conselho da Europa), as OQGs (Organizações Quase Governamentais, como certas Entidades Públicas), as OPGs (Organizações Para-governamentais, como as Entidades Reguladoras) e outras com perfis de maior ou menor independência dos Estados. Havendo, muitas vezes, uma fronteira difusa entre estes tipos de organizações, que gerem bens e serviços de interesse público e privado sem propósitos lucrativos, normalmente têm como ponto comum o objectivo de prestação de serviço público. Um estatuto especial deve ser concedido às organizações de cariz religioso, devido ao seu carácter identitário reconhecido pelo ordenamento jurídico internacional, resultante do poder espiritual que detêm sobre os seus fiéis e da capacidade económica que supera a de muitos Estados.

Chegados ao segundo decénio do século XXI interessante é verificar alguns passos da evolução histórica destas organizações, assim como perspectivar o seu papel no futuro próximo. Tendo muitas das ONGs nascido ligadas a nobres objectivos, esse seu cordão umbilical tem-lhes garantido a sobrevivência apoiada em actividades que fazem a ponte entre o passado e o presente. No entanto, mesmo que algumas das actividades que desenvolvem continuem a ser de interesse para comunidade, a sua existência tem-se vindo a tornar de grande relevância para a credibilização do sistema político vigente (pretensamente democrático), tonando-se numa muleta fundamental para a sustentação do modelo político-económico-social em vigor na generalidade do mundo ocidental, perdendo o estatuto reconhecido ainda não há muito tempo de organizações temidas pelas instâncias governamentais. Não é por acaso que as ONGs estão a passar de organizações independentes e respeitadas para parceiros que contestam algumas medidas mas não põem em causa os pilares do sistema.

Na época dourada da explosão do activismo genuíno (dos anos setenta aos anos noventa do século passado), as ONGs nasceram fruto da constatação da necessidade da sua existência para pressionar o poder político, no sentido das causas que estavam na sua identidade pudessem merecer uma maior atenção, como entidades específicas de âmbito nacional ou como ramos de organizações internacionais já existentes na área de intervenção. A iniciativa da sua criação partiu dum conjunto de pessoas idealmente motivadas por uma causa, sem interesses de espírito lucrativo ou de poder pessoal. A adesão a essa entidade foi feita partilhando a comunhão dos princípios, na base da igualdade associativa, quer na expressão de opiniões, quer no acesso aos lugares de direcção. Esta era composta por activistas do respectivo sector de actividade, exercendo os cargos directivos sem qualquer remuneração ou incentivo monetário, em acumulação com a ocupação profissional respectiva. A maioria nem sequer utilizava o direito de faltar ao trabalho nos sectores em que o quadro legal tal permitia. As instituições traduziam uma identificação total com as causas a que se dedicavam, sendo estas sustentadas em princípios e valores de adesão profunda, gerando credibilidade e consistência na sua aceitação. A sua gestão, que continha como receitas apenas as quotas dos associados e algum eventual donativo, pautava-se pela defesa da causa como objectivo quase único, sem obediências excessivas a critérios de rentabilidade, de aplicações financeiras ou de constituição de património para rentabilização de capital (por exemplo, a Amnistia Internacional Portugal tem, há anos, várias centenas de milhar de euros em depósitos a prazo que deveriam estar a ser utilizados em campanhas em prol das vítimas de direitos humanos). Esses activistas pautavam-se pela dedicação generosa a causas no verdadeiro sentido do termo.
Esta postura das instituições e dos seus dirigentes tem vindo a sofrer uma desvirtuação profunda. Por um lado, as ONGs tendem a tornar-se dependentes do modelo economicista, quer em sistemas de gestão, quer na implementação de regras dos mercados de que a angariação de fundos é um exemplo. A ética dos processos e as causas de base da existência das ONGs ficaram hipotecadas a este modelo (O Clube Bilderberg integra nas suas reuniões anuais membros das mais influentes ONGs mundiais). Por outro lado, os seus dirigentes e ativistas tendem a deixar de ser militantes da causa mas sim interesseiros nos resultados e nos processos utilizados. A gestão e vivência no interior das organizações passaram a incorporar muitas práticas das empresas de teor neoliberal, quase apagando a base humanista que as devia nortear.

A esta mudança do paradigma de funcionamento não escapam ONGs que granjearam credibilidade e cujo prestígio obtido permite ainda alguma notoriedade pública. Quase se pode dizer que vivem à custa do capital de reconhecimento alcançado no passado. São disto exemplo ONGs de direitos humanos, sindicais, de defesa do consumidor, de serviço à comunidade e de certas obediências da Maçonaria, cujas práticas utilizadas, na importância que é dada à sobrevivência institucional, à gestão financeira, à angariação de fundos e à constituição de provisões e aplicações financeiras de montantes excessivos e em instituições financeiras de duvidosa postura ética, ou no recrutamento de novos membros/associados sem identidade ideológica, quase faz parecer que o que é importante é ter muitos associados e o recebimento do valor da jóia e quotas, ou, ainda, utilizando na sua estrutura de funcionamento posturas pouco recomendáveis na gestão de pessoal, recorrendo a trabalhadores precários e/ou independentes ao arrepio das funções efectivamente exercidas. Muitas ONGs estão a passar de organizações fraternas a organizações quase sem calor, sem afecto, sem amor, sem alma, tratando as temáticas do seu objecto social quase de forma tecnocrática, ainda que este trabalho continue a revelar-se de interesse para a comunidade. Tal pode ser constatado no apagamento que se assiste nestas organizações perante o atropelo em curso das mais elementares regras de cidadania, apagamento esse que se torna conivente com uma vivência em sociedade ao arrepio dum todo harmonioso.

A par com a evolução de filosofia de gestão, tem-se vindo a assistir, também, a uma alteração nas relações entre associados, dirigentes e funcionários dos secretariados. Como exemplos podem-se evidenciar a diminuição abissal da participação dos associados na vida das instituições, a “profissionalização” e a pouca rotação de muitos dirigentes, assim como o poder dos seus secretariados.
Relativamente à diminuição do contributo dos associados tal pode ser constatado com a escassa participação nas assembleias gerais e nos actos eleitorais nos casos em que essa participação tem carácter voluntário. Basta referir que três grandes ONGs, como são a secção portuguesa da Amnistia Internacional (A.I.-P.), a DECO – Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor e o Automóvel Clube de Portugal (ACP), com muitos milhares de associados, tiveram as suas últimas assembleias gerais, de aprovação de contas e de planos de actividades, com a presença de poucas dezenas de sócios. Noutras organizações, como, por exemplo, os clubes rotários, as eleições e a decisão dos planos e contas das governadorias distritais e da fundação rotária são feitas pelos clubes e seus delegados e não pela universalidade dos companheiros, estando a participação nas assembleias e conferências distritais muito abaixo do total de companheiros existentes em todos os clubes rotários. Recuando no tempo, verifica-se uma alteração significativa nessa participação, diminuindo a participação democrática dos associados na vida das entidades a que aderem.

Um outro factor preocupante na cristalização da vida associativa prende-se com a reduzida rotação de dirigentes. Isto deriva da já referida pouca participação dos associados, do “assalto e conservação” do poder pelos dirigentes instalados e da especialização do exercício das funções directivas que dificulta a ascensão de novos dirigentes. Acresce a isto que a manutenção em exercício dos mesmos dirigentes interessa ao poder político/económico, pois as relações pessoais que se vão criando inibem posturas de contestação que se justificariam em certas circunstâncias. Esta relação facilita a promiscuidade crescente entre entidades que se quereriam independentes, deixando uma imagem de hipocrisia nalguns ditos defensores dos direitos ambientais, humanos, do consumidor ou do sector social.
Já sobre o poder crescente dos secretariados das ONGs (funcionários e dirigentes com funções executivas) tal tem a ver com a especificidade do seu trabalho que faz com que, ao fim de pouco tempo, raros são os associados que conseguem manter-se actualizados e operantes em pé de igualdade com os membros dos secretariados que, trabalhando a tempo integral, acompanham e participam nos assuntos a um nível difícil de acompanhar por associados que apenas dedicam alguma parte do seu tempo livre.

Também se vem assistindo, desde há alguns anos, à “tomada do poder” por dirigentes/funcionários com interesses no poder político/económico, actuando, muitas vezes, como “comissários” destas entidades, além de utilizarem a sua ligação às ONGs para potenciarem e subirem nas suas carreiras profissionais, nos sectores privado e público.
Assiste-se, ainda, à utilização abusiva de voluntários para funções de carácter profissional inerente às necessidades essenciais do funcionamento das ONGs, assim como ao uso condenável de contratos de trabalho precário e de trabalho a termo certo para funções permanentes dos secretariados. Como exemplo, ainda recentemente o presidente da Cruz Vermelha Portuguesa divulgou que esta instituição tem 1.300 funcionários e entre 7.000 a 13.000 voluntários. Maquiavelicamente, tem-se vindo a assistir a este alastrar de utilização de mão de obra gratuita, que consubstancia uma prática análoga à escravatura, de que o exemplo recente de aplicação de penas de prestação de serviços à comunidade a que alguns condenados em processo penal são sujeitos, permite às entidades onde são colocados (muitas delas ONGs) utilizá-los no seu trabalho quotidiano sem encargos e obrigações inerentes a um trabalhador normal. E aquilo que poderia ser uma medida positiva (evitar o cumprimento da pena em estabelecimentos prisionais, instituições estas que que são um resquício de organizações medievais de tortura e degradação do ser humano), acaba por ter os efeitos perniciosos de permitir a utilização de trabalho escravo.
Já não é com surpresa que se assiste a um incremento das relações promíscuas entre muitas ONGs e entidades do poder político/económico. O afastamento da preocupação pela fidelidade aos princípios, a tomada do poder por dirigentes com pouca exigência ética e sensíveis às benesses desse poder, assim como o assédio que as ONGs sofrem por parte daqueles de quem deviam ser os juízes e os escrutinadores, têm-nas tornado cada vez mais marionetes e serviçais da estratégia do poder político/económico. O estreitamento dos vínculos faz com que já se tenha perdido o temor e o respeito que as ONGs detiveram até um passado recente. Temor pela denúncia dos atropelos aos direitos dos cidadãos, que obtinha cobertura relevante nos órgãos de comunicação social, e respeito pelo carácter íntegro das organizações e seus dirigentes. Quase se pode dizer que se inverteu a relação de temor, parecendo que hoje são as ONGs que têm medo de ofender o poder político-económico-financeiro.
Este estreitamento de relações conduz já à fusão de interesses, nomeadamente na gestão das participações financeiras das ONGs. Esta preocupação na constituição de activos e sua gestão leva a que não se olhe à credibilidade das instituições com quem se negoceia. Prova disto são as aplicações de vulto que as ONGs fazem em bancos e instituições financeiras envolvidas em actos censuráveis do ponto de vista ética e até criminal. Basta referir as entidades envolvidas na “Operação Furacão” e “Monte Branco”, que ainda decorre em Portugal, possuidoras de aplicações de ONGs, assim como da descoberta dos activos de grande risco destas ONGs, aquando do descalabro do Lehman Brothers, que pôs em causa programas fundamentais da vida das instituições, de que é exemplo o caso de Rotary International cujas perdas financeiras levaram à redução e suspensão de programas em curso na altura. Estas aplicações financeiras foram reconhecidas como de grande risco, inaceitáveis em organizações que querem fazer com que o rigor e idoneidade sejam parte importante da sua imagem pública.   
À vulnerabilidade que atitudes deste tipo arrastam para as ONGs acrescem os privilégios que lhes têm vindo a ser atribuídos pelo poder político, nomeadamente de natureza fiscal e de benefícios específicos de natureza material e pessoal, afectando a independência que devia ser a bandeira dessas organizações e dos seus dirigentes e associados. Disto são exemplo as múltiplas formas de subsídios para parcerias, acções de formação e estágios profissionais, e os apoios para a realização de acções que visam colmatar insuficiências na sua área de intervenção, revelando um oportunismo pouco consentâneo com a elevada postura ética exigível a organizações que se querem credíveis, acções estas difíceis de denunciar politicamente já que são tratadas de forma abonatória pela opinião pública. 

Para a afectação da imagem de independência, isenção e imparcialidade das ONGs tem contribuído, significativamente, a acção dos diferentes tipos de lobbies que se têm desenvolvido a um ritmo sempre crescente. O lobby gay e as variantes LGBTI, o lobby económico, o lobby ambientalista, o lobby militar, o lobby social enquadrado pelas IPSS, etc…, são hoje forças poderosas que influenciam fortemente o poder político e condicionam as ONGs que operam nessas áreas (em Portugal tivemos um exemplo recente com o projecto de lei sobre a coadoção, em que o que se relevou foi a defesa da não discriminação dos casais do mesmo sexo, quase omitindo que o que estava em causa, fundamentalmente, eram os direitos das crianças, já que são estas que têm o direito a serem adotadas e não são os adultos que têm o direito de adotar. O lobby LGBTI quase conseguiu apagar a abordagem pelo lado dos interesses das crianças, parecendo que estas eram mera mercadoria). Aliás, muitas destas ONGs já estão a ser orientadas e dirigidas por esses lobbies em muitas das suas posições. Para este facto muito contribui a dependência destas ONGs dos apoios institucionais que obtêm, quer seja de natureza económica, do recurso ao trabalho voluntário ou do próprio marketing da sua promoção. O poder dos lobbies na vida da ONGs leva já à participação de grandes multinacionais nas suas actividades, gerando um pântano que já ganhou direito a denominação atractiva como são as políticas ditas de responsabilidade social. Para promover este pântano constituem-se entidades, como são a BCSD Portugal e a GRACE Portugal, agrupando grupos económicos poderosos, que, sob a capa do altruísmo, albergam empresas frequentemente alvo de denúncias de comportamento censurável. Basta consultar os sítios na Internet destas entidades para termos conhecimento de quem quer fazer passar a mensagem de que pratica políticas de responsabilidade social, ao mesmo tempo que praticam dumping social, trabalho precário, salários de miséria, marketing pouco ético,  etc .
A evolução desta estratégia dos lobbies leva a que o próprio poder político acabe por ficar refém e, até, interessado nesta conjugação de interesses entre os lobbies e as ONGs, colocando estas como entidades credibilizadoras do sistema político vigente.

Condicionadas as ONGs, mais à vontade ficam os Estados para a execução de políticas autoritárias e desrespeitadoras dos direitos dos cidadãos, passando a serem Estados que se impõem pelo temor. Esta liberdade de acção para os Estados permite-lhes gerir a manipulação da opinião pública, escamoteando temas que lhes possam ser incómodos. Como exemplo, refira-se o baixar de braços relativamente às dependências das drogas, com a irrelevância das campanhas de esclarecimento e dissuasão, nomeadamente nas escolas que, com esta inacção, abrem campo ao arrebanhamento dos jovens tornando-os vítimas duma praga de que dificilmente se libertarão.
A importância destes lobbies acaba por ditar a agenda política das ONGs, colocando os seus temas na primeira linha da actualidade e não deixando espaço para outros temas mais relevantes mas que não servem ou seus propósitos e interesses. Como exemplo refira-se a insuficiente importância que a problemática dos direitos humanos das crianças tem nos programas nacionais e calendário das organizações de direitos humanos, comparativamente com as causas em que lobbies poderosos estão instalados nessas organizações. Um outro exemplo pode ser a imposição da concorrência como o primado da defesa dos consumidores que tem vindo a ser seguido pela generalidade das associações de consumidores, colocando em plano secundário, ou até esquecendo que há bens e serviços que não podem ficar sujeitos à selva da concorrência, de que são exemplos a água, a energia e a generalidade dos serviços públicos essenciais – o argumento de que entidades reguladoras poderão disciplinar os sectores em questão tem-se revelado uma falácia. Acresce ainda a dependência dessas entidades reguladoras do poder político, quer na nomeação dos seus responsáveis, quer do quadro legal que cerceia a sua independência e capacidade de decisão. A ineficácia, que estas entidades reguladoras e de supervisão têm vindo a demonstrar, está patente na realidade escandalosa que se vê no sectores financeiro, dos combustíveis, das telecomunicações, da energia, etc…, fazendo-se acompanhar de igual ineficácia nos mecanismos judiciais que são chamados a ajuizar os procedimentos praticados.

Uma das mais significativas alterações no quotidiano das ONGs centra-se no deslocar do enfoque das motivações nos ideais para a nova palavra na moda que é a governança. Esta preocupação pelas novas técnicas de gestão utilizadas nas instâncias do poder económico-financeiro aproxima, também aqui, as ONGs dessas instâncias, fazendo-as dedicar parte significativa dos seus recursos à governança, fragilizando a sua dedicação prioritária às causas que foram a sua génese. A prova encontra-se nos recursos humanos dedicados a este modelo de gestão e nos meios que lhe são postos à disposição, assim como na consideração que é dada à angariação e aplicação dos meios financeiros, retirando capacidade ao trabalho da causa que deveria ser a sua principal motivação.
Este enfoque da governança em detrimento do objecto que deveria ser a razão de ser da existência, é mais um fator de afastamento dos associados, já que o excessivo tempo e energia que se despende afeta a mobilização e a participação dos associados, sendo mais uma machadada na democracia que devia imperar no seu quotidiano.
Uma das consequências deste primado da governança reflete-se no peso crescente das despesas de estrutura nos custos de funcionamento das ONGs, diminuindo cada vez mais a quota parte das disponibilidades financeiras para as ações que são a razão de ser da sua existência. As próprias acções de angariação de fundos, com um poder de sedução resultante duma formação dos angariadores assente nas mais eficientes técnicas de marketing, acabam por se traduzir num peso financeiro elevado que consome uma parte significativa dos fundos angariados. Aliás, esta é, também, uma das profissões nascidas nos tempos recentes, havendo angariadores que durante um ano surgem em acções diferentes de entidades de combate a doenças específicas, organizações de direitos humanos, associações de benemerência, etc…, fazendo com que a sua ligação às entidades em que participam tenha apenas um conteúdo profissional (de natureza precária e pontual na maioria dos casos), sem que se estabeleça uma verdadeira empatia com a causa das organizações em que participam. Mesmo naqueles que o fazem em regime de voluntariado, já é visível algum cansaço e desmotivação em muitos casos.
Esta importância crescente do peso da estrutura das ONGs leva a que os seus dirigentes acabem por gastar muito do seu tempo disponível nas exigências da gestão, dedicando cada vez menos tempo aquilo que é o objecto da entidade, o que faz com os dirigentes estejam a ser suplantados pelos secretariados na definição e execução das políticas a serem desenvolvidas.
Uma das outras consequências da importância dalguns modelos de governança reflete-se nas despesas financeiras bancárias de gestão, já que a passagem de ativos volumosos pelo sistema bancário envolve pagamentos de comissões de cobrança, de gestão de aplicações da conta e de transferências bancárias de dimensão significativa, ultrapassando, muitas vezes, o rendimento das aplicações financeiras (depósitos à ordem, a prazo, subscrição de títulos, etc…) que as ONGs utilizam para rentabilização dos capitais disponíveis.    

A importância económica de muitas ONGs está a torná-las, em muitos casos, verdadeiras “empresas” muito semelhantes na gestão às empresas com fins lucrativos, tonando-as apetentes para o poder político no sentido de as colocar na sua órbitra de influência. Por isso se assiste ao namoro sub-reptício a que são sujeitas pelo poder político-económico-financeiro.
Ainda não há muitos anos as ONGs caracterizavam-se por serem organizações que viviam das quotas dos seus associados e do voluntarismo dos seus dirigentes, dedicando-se exclusivamente à causa para que foram criadas, com um secretariado reduzido ao mínimo tendo em conta que uma grande parte do trabalho era efectuado graciosamente pelos seus dirigentes. A importância da gestão económica não era prioritária e a área financeira quase só se limitava às receitas e despesas correntes (Quando muito faziam-se algumas aplicações em depósitos a prazo mas sem peso significativo na dimensão global da associação). Na actualidade, não só os dirigentes quase deixaram de trabalhar na vida quotidiana das associações, agora servidas por secretariados profissionais com alguma dimensão, como passaram a exigir volumosos meios financeiros cuja gestão segue o modelo que privilegia as aplicações de capitais, mesmo que tal redunde em diminuição das acções em prol da razão de ser da entidade.
Esta característica, agora relevante, aumenta o apetite do poder político-económico-financeiro pelo seu controle, infiltrando com os quadros dos seus aparelhos os órgãos de direcção e secretariados das ONGs. Esta interpenetração facilita a permuta e o acesso a processos de obtenção de meios financeiros, de que a utilização de fundos para formação e realização de estudos e projetos são exemplos nalguns casos. Acresce a realização de campanhas de angariação de fundos, com ampla cobertura pública, assim como a venda de produtos com algum tipo de associação ao objecto da entidade. Por outro lado, à medida que a organização adquire dimensão abre-se o campo para a celebração de protocolos com entidades fornecedoras de bens e serviços, o que contribui para o aumento da sua dimensão económico-financeira, alargando a apetência para a sua tomada de poder e controle.
A análise dos relatórios e contas destas entidades corrobora esta asserção. Não só as despesas para a manutenção dos secretariados e dos dirigentes profissionais adquirem uma dimensão significativa, como, nalguns casos, as aplicações financeiras, nos diversos instrumentos colocados à disposição pelas entidades bancárias e afins, assumem valores relevantes.
Em síntese, podemos afirmar que existem ONGs cuja dimensão económico-financeira as coloca no campo das grandes organizações da economia com fins lucrativos, exigindo dirigentes e secretariados com competências técnicas de gestão que não necessariamente no domínio para que foram criadas, restringindo o activismo e a percepção da vida da entidade.
O momento histórico que atravessamos caracteriza-se por uma falsa denominação de democracia nos regimes políticos do mundo dito civilizado (nos noutros países a cleptocracia, o despotismo e as ditaduras das mais diversas matizes marcam a sua presença indisfarçável), característica esta que se estende a muitas ONGs.
E assistimos à denúncia dessa falsidade, da prática de políticas ao arrepio dos compromissos assumidos, inclusivamente por organizações intergovernamentais, como por ex; o Conselho da Europa, o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), a OCDE, etc… .Um dos exemplos mais chocantes passa-se no sistema educativo em que, apesar das denúncias destas entidades de que as crianças e os jovens não estão a ser o foco das políticas educativas, os governantes insistem no modelo ultrapassado do ensino predominantemente expositivo, ignorando que os jovens de hoje adquirem a maioria da sua formação através das tecnologias de informação e comunicação. Este exemplo, que se pode alargar a outros como a Universidade Aberta, Canais de TV temáticos, motores de busca direccionados, etc. que, utilizando meios audiovisuais mais assertivos, profundos, disponíveis e abrangentes do que qualquer aula presencial, mostram como o êxito do sistema de ensino está a ser posto em causa por políticas míopes centradas num economicismo de curto prazo que hipoteca o futuro das novas gerações, violando o direito à educação constante de referenciais jurídicos internacionais a que os Estados estão obrigados e provocando o afastamento acelerado do sistema de ensino da realidade quotidiana.
E perante isto o que fazem as ONGs? Algumas delas limitam-se à defesa dos interesses corporativos dos seus profissionais e associados, enquanto outras entram em jogos de negociação defraudando a confiança que nelas se depositou para a defesa intransigente dos direitos dos cidadãos (adultos, crianças e jovens).   
Será isto próprio de sistemas políticos que se dizem democráticos e de ONGs que deveriam ser instrumentos de fiscalização e de pressão sobre estas práticas? Porque será que a abstenção é cada vez maior nas eleições nacionais e nas das ONGs? Porque será que as Assembleias Gerais das ONGs são participadas por tão reduzido número de associados que, muitas vezes, não chegam sequer ao número dos que compõem os órgãos sociais?      

Importantes ONGs, tal como actualmente existem, não são organizações democráticas no seu funcionamento real. Convocam assembleias gerais (já não por carta mas por anúncio nas suas revistas ou por email), realizam eleições, difundem comunicados, editam revistas ou newsletters, mas os associados pouco ou nada participam. Em consequência, há pouca rotatividade de dirigentes, provocando a tomada do poder por militantes com interesses diretos nessa qualidade, como trampolim para outros voos, introduzindo uma promiscuidade de interesses nada prestigiante para o objecto específico da ONG. 

No que toca ao papel das ONGs ligadas às confissões religiosas, é inegável a sua importância na formação da opinião e das posturas dos cidadãos em todas as áreas da vida em sociedade. Com a importância que lhe é reconhecida destaca-se, em Portugal e em muitos outros países, a Igreja Católica. Com a sua organização multifacetada, cobrindo praticamente todos os domínios, a Igreja Católica influencia não só os seus fiéis, como, também, os órgãos de poder e as próprias ONGs. E não se diga que esta influência é homogénea pois tal não se verifica. A própria Igreja Católica tem no seu seio uma multiplicidade de organizações com formas de pensamento e acção muito distintas. Bastará referir o movimento internacional “Nós Somos Igreja” que é favorável à ordenação de mulheres, ao casamento de padres e tem uma posição de abertura à discussão sobre o aborto. Ou um outro exemplo é a Sociedade de S. Vicente de Paulo cuja sede internacional é em Paris e não em Roma, sendo os seus dirigentes eleitos a todos os níveis pelas bases respectivas (A Regra da Sociedade de S. Vicente de Paulo não permite que padres desempenhem cargos dirigentes na organização, aconselhando todavia a existência de padres como conselheiros espirituais). Esta diversidade, desconhecida da generalidade da opinião pública, permite uma intervenção alargada e transversal em todos os setores da sociedade, influenciando o poder político-económico-financeiro e alargando o seu âmbito de poder a todos os níveis. Não ignorando a caracterização política do Vaticano como cidade-Estado, com representações diplomáticas em quase todos os países do mundo, as suas organizações que atuam dentro de cada país assumem um papel da maior relevância, atuando, em muitos casos, com total independência da hierarquia da Igreja Católica e mesmo, até, com posições divergentes. Por isso se diz, com plena propriedade, que os maiores críticos da Igreja estão dentro dela própria, com a particularidade de saberem do que falam.
A dimensão humana e económico-financeira é extremamente relevante. Por exemplo, estima-se que as IPSS em Portugal, na maioria ligadas à Igreja Católica, empreguem mais de 200.000 pessoas, tonando-as um lobby poderoso e incontornável para qualquer governo, já que só na denominada economia social gravitam cerca de 50.000 organizações que, recebendo, do Estado, cerca de mil e duzentos milhões de euros por ano, movimentam anualmente cerca de três mil milhões de euros. A acção das organizações ligadas à Igreja Católica estende-se, através das dioceses ou de instituições eclesiais, a 24 hospitais; 136 ambulatórios e dispensários; 908 casas de idosos, doentes ou deficientes; 102 orfanatos ou centros de infância, 602 creches; 90 consultórios e centros de defesa da vida e da família; 29 centros especiais de educação ou reinserção social e 496 outras instituições (Dados de 2014). Acresce ainda a multiplicidade em que se desdobram as instituições, tomando, por exemplo a Sociedade de S. Vicente de Paulo que, através dos seus 15.000 membros, agrupados em cerca de 1.000 conferências vicentinas, apoia os mais pobres e necessitados em todo o país.
Uma parte significativa das organizações religiosas têm regimes fiscais específicos. Em muitos casos de isenção de impostos e, até, de não exigência de contabilidade organizada, ficando-se pela escrita de “merceeiro” do Deve e Haver. Muitas das suas angariações de fundos e de bens não têm qualquer suporte de passagem de recibo formal nem comprovativo de recebimento com as características fiscais exigíveis, confiando-se na idoneidade das pessoas intervenientes.
Muitas das considerações referidas para as ONGs aplicam-se, também, às organizações ligadas às confissões religiosas, acrescendo-lhes a sua particularidade específica.

Do exposto ressalta a necessidade de repensar a cidadania na base do voluntariado nas ONGs, aprofundando a prática efectiva da liberdade, igualdade e fraternidade no seu quotidiano. A Maçonaria não se pode alhear da importância e influência dessas organizações, sob pena de apagamento dos seus valores na condução dos destinos da sociedade.  
Como nos exorta o filósofo contemporâneo Michel Onfray “Mais do que nunca, a tarefa da filosofia é resistir, mais do que nunca ela exige a insurreição e a rebelião, mais do que nunca ela deve incarnar os gérmenes da insubmissão.”

A Maçonaria deve ser insubmissa perante os atropelos aos seus valores e  impulsionar a sua integração em todas as formas de cidadania.
 


Porto, 18 de Março de 2017
Manuel Hipólito Almeida dos Santos


Nota:
Esta comunicação contém excertos do livro (ebook), de minha autoria, com o título “ONGs – Passado e Presente. Uma experiência pessoal”
ISBN: 978-989-20-4973-1
eBook - http://www.leyaonline.com/pt/pesquisa/pesquisa.php?chave=ONG

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Solstício de Inverno e a Luz na Liberdade, Igualdade e Fraternidade

José Castellani, maçon, médico, escritor e historiador, em reflexão sobre diferentes vertentes em que se pode analisar o solstício de inverno, diz-nos:
“(…)
Tradicionalmente, por meio da noção de porta estreita, como dificuldade de ingresso, o maçon evoca as portas solsticiais, estreitos meios de acesso ao conhecimento, simbolizados no círculo cósmico, no círculo da vida, no zodíaco, pelo eixo capricórnio-câncer, correspondendo aos solstícios de inverno e verão(…).
O homem primitivo distinguia a diferença entre duas épocas, uma de frio e uma de calor, conceito que, inicialmente, lhe serviu de base para organizar o trabalho agrícola. Graças a isso é que surgiram os cultos solares, com o sol sendo proclamado - como fonte de calor e de luz – o rei dos céus e o soberano do mundo, com influência marcante sobre todas as religiões e crenças posteriores da humanidade. E, desde a época das antigas civilizações, o homem imaginou os solstícios como aberturas opostas do céu, como portas por onde o sol entrava e saía, ao terminar o seu curso, em cada círculo tropical. O inverno no hemisfério norte (verão no hemisfério sul) é a porta cruzada pelas almas imortais, denominada Porta dos Deuses (…). 
Este simbolismo dá sentido à observação material: Jesus nasceu a 25 de  dezembro sob o signo do capricórnio, durante o solstício de inverno. Dois elementos, entretanto, um material e um religioso, viriam a influir na determinação da data de 25 de dezembro. O material refere-se aos hábitos de antigos cristãos e o religioso ao mitraísmo da antiga Pérsia, adotado por Roma (…).
O cristianismo, ao fixar essa data para o nascimento de Jesus, identificou-o com a luz do mundo, a luz que surge depois das prolongadas trevas (…).”
Na epístola de S. Paulo aos Romanos pode ler-se:” A noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente…”.

Nesta passagem das trevas para a luz, neste solstício de inverno de 2016 em que se assiste ao pôr em causa valores civilizacionais construídos, nomeadamente, na segunda metade do século XX, importa ter presente esta simbologia e dela retirar a força, beleza e sabedoria que nos devem  guiar no quotidiano.

Como exemplo das trevas que temos de iluminar, cito o artigo que, há poucos dias, o director adjunto do Jornal de Notícias, Pedro Carvalho, publicou com o seguinte título e teor:” Morrer de frio em 2016 - Não raramente conseguimos projetar nos infortúnios pessoais os defeitos da conjuntura. Em particular porque há conjunturas que só adquirem dimensão quando são humanizadas. A história triste de Manuel Escobar é paradigmática de como esta relação entre números e pessoas é manifestamente desvantajosa para as segundas. Ainda para mais quando esbarra numa muralha de estereótipos: interioridade, solidão, miséria, burocracia do Estado.
Sim, é possível: ainda há, em Portugal, quem morra sozinho e de frio. Rodeado de lixo. No Dia Internacional dos Direitos Humanos. Manuel Escobar tinha 68 anos. Foi notícia no JN em novembro, aquando de um apelo desesperado por um lugar de acolhimento num lar. Voltou a ser notícia cerca de um mês depois, quando foi encontrado pela GNR em casa, cheio de hematomas, em condições degradantes e gelado. Acabaria por morrer com sinais de hipotermia no Hospital de Mirandela. A lição, a haver alguma lição a reter, é a de que todos sabiam que isto podia acontecer, mas ninguém foi capaz de evitar que isto acontecesse. É uma lição em forma de novelo: tão enrolada que dificilmente se desatará o nó da responsabilidade.
(…)
Durante meses, assistentes sociais da Câmara de Alfândega da Fé procuraram uma solução junto da Segurança Social. "Não havia família de acolhimento nem vaga social para sexo masculino no distrito de Bragança", foi a resposta de protocolo. Nos dias de frio, Manuel dormia no quartel dos bombeiros. Porque lhe tinham cortado a luz em casa. Uma entidade parceira da Segurança Social ficou responsável por visitas diárias, que contemplavam "alimentação, higiene habitacional e tratamento de roupa". Mas as últimas imagens da casa onde ficou esquecido não coincidem com nenhum compromisso de proximidade.
Manuel estava sinalizado pela família, pelos vizinhos, pela GNR e pela Segurança Social. Mas morreu sozinho, de frio, num país que desistiu dele por não querer ver os sinais. Em 2016.”

Este caso ocorreu em Trás-os-Montes. E quantos casos semelhantes ocorrem, noutros lugares, em que pessoas, homens, mulheres e crianças, não têm capacidade para evitarem condições adversas indignas duma sociedade civilizada do século XXI? Onde está a fraternidade, valor tão exaltado?
   
Os solstícios são tempos de grande mudança, assim como estamos em tempo de grandes mudanças no mundo profano. Tempo de atropelos frequentes aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade a que nos comprometemos. Unamo-nos para que este horizonte de mudança nos fortaleça, com empenho, na sedimentação, cada vez mais alargada, dos ideais maçónicos.
Esta sessão branca, comemorativa deste solstício de inverno de 2016, está a ser disso um exemplo, já que temos irmãos de várias proveniências unidos nesse compromisso. E temos a presença de familiares nossos, que muito amamos, e que temos sempre presentes quando participamos nas sessões das nossas lojas. Bom seria que déssemos mais passos para que a maçonaria ultrapasse a separação de género existente nalgumas obediências. O compromisso com a liberdade, igualdade e fraternidade não se resume a um só género, obrigando a que se aplique a homens e mulheres de igual forma, sem necessidade de impedimentos de pertença à mesma loja. Felizmente, já existem tratados de amizade entre obediências de um só género e obediências mistas, permitindo o trabalho conjunto nas oficinas. A presença de familiares nossos nesta sessão branca, leva-me a repescar uma citação que fiz, há já alguns anos, numa outra sessão maçónica semelhante: O amor familiar é bem exemplificado por uma grande mulher do século passado, que foi chefe do governo de Israel, Golda Meir, ao descobrir o rosto do seu futuro marido, na altura um delicado pintor de tabuletas que lia autores que não os da moda, que ouvia música clássica e que a levava a concertos e conferências. Dizia Golda Meir: ”Ele não é muito bonito mas tem uma bela alma”. Ou recordando o encantador poema de Carlos Drummond de Andrade simbolizando o afeto que nos une a alguém que nos é querido: “À noite, quando olhares pró céu, repara na estrela mais brilhante. Essa és tu...o resto do Universo é o amor que sinto por ti.”
Um Feliz Natal para todos
21/12/2016