A Ingenuidade na Esperança
Encontro do 7Margens – Porto 04.10.2025
António Marujo, diretor do 7Margens, publicou um excelente artigo, em 16.09.2025, com o título: “A esperança para contrariar a queixa e o imobilismo - Encontro de leitores do 7MARGENS”. No artigo, refere que a cineasta Graça Castanheira questiona o facto de alguém que “alimenta uma esperança terrena não concretizada” ser visto muitas vezes como imprudente e sem sucesso, recorrendo a Søren Kierkegaard para sugerir que “ter esperança é comportarmo-nos como se aquilo que desejamos que aconteça tivesse uma boa hipótese de acontecer – com a esperança alarga-se o passo e somos ousados”. O artigo seria “uma forma de iluminar a reflexão sobre estes tempos sombrios que vivemos, atravessados por guerras, emergência climática, crescimentos da xenofobia e ódio à diferença, bem como pelo crescimento do desrespeito dos direitos humanos” e “não pretendemos, desse modo, convidar à despreocupação ingénua mas, antes, assumir o enorme desafio à capacidade de habitar naquilo em que se acredita e defender a possibilidade de construir uma realidade diferente para melhor ”, propondo “uma reflexão e um debate sobre a esperança”.
Neste outubro de 2025 importa saber se temos esperança “ingénua” de que aquilo que desejamos que aconteça tem uma boa hipótese de acontecer.
- É ingénuo acreditar que vamos acabar com os sem abrigo e os sem habitação digna?
- É ingénuo acreditar que todos os gravemente doentes vão ser atendidos, a tempo, nos Serviços de Urgência?
- É ingénuo esperar a recuperação para os mais de 24% dos portugueses com problemas do foro mental?
- É ingénuo esperar que muitos dos cerca de 80.000 crianças e jovens em acompanhamento nas CPCJs não se transformem em delinquentes?
- É ingénuo acreditar que vai ser reduzida a pobreza e as desigualdades sociais?
- É ingénuo acreditar que o crescimento da repressão, dos conflitos, do ódio, da xenofobia, do genocídio (ex: Gaza), vai dar lugar ao perdão, à misericórdia, à clemência, à liberdade, à igualdade, à fraternidade e ao respeito pelos direitos humanos?
- E poderia continuar com mais perguntas ingénuas.
Sim, é ingénuo acreditar que, num futuro próximo, se vai parar e reverter a regressão civilizacional em curso.
Permitam-me recorrer a uma passagem do sermão de Santo António aos Peixes: “Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos.
Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas, como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pra vis, prreversisque cupiditatibus facti sunt veluti pisces invicem se devorantes: Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros.”
O que estamos a assistir é os maiores estarem a comer os mais pequenos. São as classes alta e média a exultarem com a redução do IRC e IRS à custa da míngua de recursos para acudir aos mais pobres e necessitados, que ganham tão pouco que nem pagam IRS. E vemos as bolsas de valores a baterem recordes para delírio dos investidores, os programas de férias com lotações esgotadas, o elevado número de automóveis de gama média e alta, o acréscimo de turistas e de clientes nos restaurantes, a reclamação de maiores salários para profissionais qualificados e classe política, e altos prémios monetários para os gestores das empresas. À custa de quem? Dos mais pequenos que sufocam à volta da salário mínimo nacional, ou menos (No Instituto de Segurança Social mais de 50% das pensões de reforma são inferiores ao SMN e mais de 50% dos salários registados são inferiores a 1.000 euros mensais). Será que as classes média e alta podem viver sem os mais pequenos que lhes limpam as casas e os escritórios, que os servem nos restaurantes e supermercados, que limpam as mesas e o chão dos centros comerciais que frequentam, que fazem a recolha do seu lixo, que pescam o peixe que comem, que trabalham os campos para lhes produzir os alimentos, que distribuem as cartas nos seus domicílios, que lhes levam as refeições a casa nas plataformas Uber, Bolt e Globo? Será que as classes média e alta leram o sermão de Santo António aos Peixes? Parem de reclamar mais benesses e olhem para baixo como exorta S. António!
E, ainda, a propósito: Na Assembleia da República foi rejeitada uma petição de amnistia/perdão de penas que aproximasse Portugal da média da União Europeia no cumprimento de penas, não respeitando o pedido do Papa Francisco constante do ponto 10 da Bula para o Jubileu 2025. Sobre esta questão o 7Margens noticiou a decisão da AR com o título “No Parlamento, venceu a ignorância e o populismo.” A discussão da petição teve lugar em 3 de Julho de 2025 e mereceu aceitação dos parlamentares dos partidos políticos PS, Livre, CDU, BE e PAN, tendo tido a rejeição dos partidos políticos PSD, Chega, IL e CDS/PP, pelo que a petição não teve sequência legislativa aprovada. Deste resultado, extrai-se a conclusão de que forças políticas que se reclamam com vínculos ao catolicismo rejeitaram a concretização prática da clemência, perdão e misericórdia (pilares da Doutrina Social da Igreja Católica), agindo em sentido contrário ao apelo do Papa Francisco constante do ponto 10 da Bula para o Jubileu 2025. E o que disse a Conferência Episcopal Portuguesa sobre isto?
Tristes sinais dos tempos que vivemos!
Porto 4 de Outubro de 2025
Manuel Hipólito Almeida dos Santos
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