Academia do V Império
Intervenção no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril
O Contributo da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos para a Revolução do 25 de Abril (CNSPP)
Em 25 de Abril de 1974 estava latente em vários setores da sociedade portuguesa um profundo mal-estar e desagrado pela situação política vivida em Portugal. Desde a guerra colonial, a censura aos órgãos de comunicação social, aos presos políticos e à repressão às forças que se manifestavam contra a situação, existiam graves entorses à vivência democrática já vigente em muitos países, o que levou ao nascimento de movimentos sociais que corporizaram esse mal-estar e desagrado, com expressão significativa em associações de estudantes (universidades de Coimbra, Lisboa e Porto), sindicatos (Bancários, Têxteis, Metalúrgicos e outros), setores da Igreja Católica (LOC, JOC e algum clero) e muitas outras organizações e pessoas.
De entre esses movimentos assumiu particular relevância a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP), que foi fundada em 31 de dezembro de 1969 e manteve-se em atividade durante quatro anos, até à revolução de 25 de abril de 1974. A Comissão prestou apoio financeiro e jurídico às famílias dos presos políticos e publicava circulares informativas com notícias das prisões, julgamentos, penas e práticas de tortura. Tratou-se de uma organização supra-partidária, constituída por membros independentes de partidos políticos, incluindo padres católicos, e membros ligados a diferentes partidos de oposição à ditadura.
A Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, constituída inicialmente por 48 pessoas (Pe. Abílio Tavares Cardoso, Pe. Agostinho Jardim Gonçalves, Álvaro Ferreira Alves, António José da Silva Júnior, António José Dimas Almeida, António Rocha e Melo, Armando de Castro, Arménio dos Santos Ferreira, Pe. José Augusto Pereira Neto, Fr. Bento Domingues, Fr. Bernardo Domingues, Cecília Areosa Feio, Eduardo Nery, Fernando Abranches Ferrão, Fernando Lopes Graça, Fernando Soares David, Francisco Lino Neto, Henrique de Barros, Ilse Losa, José de Sousa Esteves, Pe. José Felicidade Alves, Luís Brás Teixeira, Luís Filipe Lindley Cintra, Pe. Luís Manuel Moita, Manuel de Castro Monteiro, Manuel Denis Jacinto, Manuel João da Palma Carlos, Manuel Machado Sá Marques, Manuel Rodrigues Lapa, Manuela Bernardino, Fr. Marcos Valentim Vilar, Maria do Carmo Tavares d’Orey, Maria Eugénia Varela Gomes, Maria Gabriela Figueiredo Ferreira, Maria Keil, Maria Lúcia Miranda dos Santos, Maria Manuela Antunes, Mário Brochado Coelho, Maria Cristina Araújo, Fr. Martinho Franco de Carvalho, Nuno Teotónio Pereira, Óscar Lopes, Raul Rego, Rogério Paulo, Rui Feijó, Sofia de Mello Breyner Andresen e Vasco Belmarço da Costa Santos), foi criada através de uma carta entregue na Presidência do Conselho de Ministros, aproveitando, habilidosamente, uma brecha na legislação, no artº 199º do Código Civil. Neste artigo estava prevista a formação de comissões especiais, não sujeitas ao reconhecimento oficial, para ações de socorro ou beneficência. Os signatários consideravam que a existência de presos políticos era justamente uma situação de calamidade. Aos 49 membros fundadores juntaram-se mais outras personalidades oposicionistas.
A grande causa da Comissão foi o grave problema nacional dos presos políticos. Foram criados núcleos e comissões em diversos locais e distritos (Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Aveiro e Castelo Branco e outras localidades). Através das várias estruturas – nacional, distritais e locais – a CNSPP procurava sensibilizar as bases sociais e a opinião pública nacional e internacional, acerca da extensão da violência estatal que se praticava em Portugal.
A Comissão, fruto de processos de convergência social e política, era constituída por elementos ligados ao catolicismo, entre os quais nove padres católicos e um pastor protestante, por pessoas ligadas ao PCP, ao futuro Partido Socialista e às várias correntes políticas, assim como por personalidades sem vínculo partidário.
A Comissão publicou 23 circulares informativas, dando notícias das prisões, das práticas de tortura, dos julgamentos efetuados, das penas aplicadas, das condições prisionais que vigoravam nas diferentes cadeias, das ações de solidariedade, das reclamações feitas junto das autoridades, assim como das suas próprias atividades. Nestas incluía-se o apoio financeiro às famílias de presos políticos, a designação de advogados de defesa e outras iniciativas, como foi a realização de colónias de férias para filhos de presos políticos em 1972 e 1973.
Numa síntese da leitura das Circulares publicadas pela Comissão, diremos que informavam sobre as prisões efetuadas pela PIDE em Portugal e nas colónias ultramarinas, dando conta de torturas praticadas, dos julgamentos dos tribunais plenários e correspondentes condenações, das transferências de presos dumas cadeias para outras. Era prestada informação sobre as ações junto da Assembleia Nacional, com as propostas para a elaboração do Estatuto do Preso Político, como forma de efetivar direitos básicos. Também eram apresentadas em cada publicação as contas e critérios para apoio material às famílias dos presos. Este material informativo constou de dois livros editados pela CNSPP (Presos Políticos, Documentos 1970-1071 e Presos Políticos, Documentos 1972 -1974).
Tendo como móbil primordial auxiliar os presos políticos e suas famílias, nas etapas de alargamento da CNSPP foram emergindo formas associativas, iniciativas reivindicativas e formas de protesto constitutivas do movimento em marcha na sociedade portuguesa, com alcance inegável no plano político e repercussão na área social, sempre com a vigilância e repressão da ex-PIDE/DGS, já que a consagração jurídica da CNSPP não foi reconhecida pelo poder político.
Para o funcionamento e atividade da Comissão colocava-se a necessidade de garantir meios financeiros. A CNSPP recolhia fundos através da venda de selos da Comissão, impressos para aquele fim, com desenho próprio e posterior logotipo criado por Eduardo Nery. E como se pode verificar através dos documentos informativos da Comissão, recolhiam-se donativos e eram feitas subscrições, eram vendidos artigos oferecidos, gravuras, discos, livros, posters, emblemas, quadros, roupa. Também os núcleos da CNSPP em todo o País, e noutros países, reuniam donativos para o apoio aos presos políticos. Dos valores arrecadados pela CNSPP boa parte desses meios eram utilizados para apoiar os presos e as famílias com maiores dificuldades financeiras. A Circular era o órgão de comunicação da CNSPP. Aquela publicação era da «responsabilidade solidária dos membros» da Comissão e, em face da lei de imprensa em vigor à época, para que não estivesse sujeita a exame prévio pela censura do regime, foi decidido eliminar (como consta de Documento Interno da CNSPP) a numeração das “Circulares”, mantendo apenas a sua data.
A Comissão ainda teve intervenção relevante na mobilização de esforços para que a Junta de Salvação Nacional fosse forçada a libertar todos os presos políticos. Entre os dias 26 e 27 de abril de 1974 foram necessárias formas de luta, que contaram com a impaciência dos manifestantes nas imediações das prisões de Caxias e de Peniche. Foi então criada uma nova Comissão constituída por elementos da CNSPP e da CDE para a resolução daquele impasse na libertação. No dia 28 de abril de 1974 um Comunicado ao País, em nome da CNSPP, «saúda com emoção todos os ex-presos políticos, regozijando-se pelo seu regresso à liberdade». A CNSPP, naquele comunicado, apelou à abolição das medidas de segurança que ainda deixavam na prisão, sem julgamento, centenas de cidadãos, em campos de internamento no chamado “ultramar”, de que eram exemplos o Tarrafal, S. Nicolau e Machava.
A CNSPP foi agraciada, em 2010, pela Assembleia da República, com a atribuição da medalha de ouro de Direitos Humanos, tendo sido representada por dois dos seus membros, Frei Bento Domingues e Levy Baptista.
O papel relevante da CNSPP no combate à ignomínia de privação da liberdade, por razões de consciência, constituiu um grande suporte para a revolução do 25 de Abril, em sintonia com os direitos humanos constantes dos Pactos, Convenções e Tratados universalmente consagrados.
Porto (Palácio Balsemão), 16 de Novembro de 2024
Manuel Hipólito Almeida dos Santos